Bielsa Argentina

Você lembra da passagem de Marcelo Bielsa pelo comando técnico da Seleção Argentina? El Loco, como é conhecido, assumiu o cargo no fim dos anos 90. Durante a sua trajetória revolucionou a forma como o país e o mundo enxergavam o futebol. Por fim, ao sair, deixou um legado tão marcante que faz com que até hoje o seu nome seja especulado quando a Albiceleste precisa de um treinador. Então, para refrescar a memória e instigar o clima nostálgico, a coluna Catimbando desta semana revisita os anos em que o comandante liderou o Hermanos.

Marcelo Bielsa como técnico da Argentina

Decerto, é praticamente impossível falar de revolução no futebol e não lembrar do mestre Marcelo Bielsa. Ainda jovem, aos 25 anos de idade começou a sua trajetória em comissões técnicas como auxiliar no Newell's Old Boys. Depois de algumas temporadas, se tornou observador do clube, até chegar ao cargo de treinador em 1990, também pelos Rojinegros. Logo de cara, conquistou o primeiro título de sua carreira. O clube ficou com o troféu do Torneio Apertura (primeiro turno do Campeonato Argentino) daquele mesmo ano.

Apesar do excelente começo, o comandante não ficou conhecido por grande conquistas, e sim pela forma com seus times jogavam. Bielsa colocava em campo equipes organizadas em conceito arrojados e que tem tinham um forte DNA ofensivo. Assim, não demorou muito para ter o seu nome especulado para treinar o time que representava seu país. Em 1999, Marcelo recebeu o convite irrecusável e se tornou técnico da Seleção Argentina de futebol, dando início a uma grande revolução.

A Terceira Via?

A princípio, El Loco carregava com sigo o título de Terceira Via. Muito porque, consideravam ele com uma alternativa aos já conhecidos e consagrados Cesar Luis Menotti e Carlos Bilardo. O primeiro, campeão mundial com a Argentina no ano de 1978 e adepto de um futebol vistoso e que valoriza a posse de bola. O segundo, treinador do time que venceu a Copa do Mundo de 1986 usando um estilo mais pragmático e um jogo reativo. No entanto, ambos inimigos mortais um do outro, chegando até a trocar farpas dentro da imprensa portenha.

Bielsa Argentina
Foto: Reprodução/Goal.com

O debate sobre quem teria sido mais importante para a Seleção Argentina perdura até o dias atuais. Fato esse, que evidencia ainda mais a importância de Marcelo Bielsa. Afinal, ele criou uma opção completamente diferente daquelas apresentadas por seus antecessores. Sua estreia pela Albiceleste aconteceu em 3 de fevereiro de 1999, em um amistoso que terminou com vitória por 2 x 0 diante da Venezuela. Começava ali uma caminhada que durou anos.

Desempenho na Copa de 2002

O primeiro grande desafio do mais novo treinador foi a Copa América daquele mesmo ano. Contudo, a campanha não passou de razoável, para não dizer um pouco decepcionante. O time portenho parou na Seleção Brasileira montada por Vanderlei Luxemburgo em uma tímida etapa de quartas de final. Todavia, o que fez os olhos hermanos brilharem veio na trajetória das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002. Em suma, o time de Bielsa foi irretocável, terminando com 13 vitórias, quatro empates e apenas uma única derrota. Além disso, marcou 42 gols, contra 15 sofridos.

Mesmo com os ótimos números, assim como qualquer técnico de futebol, Marcelo não conseguiu fugir das polêmicas. Muito provavelmente, a maior delas seja a ausência de Juan Román Riquelme da lista final de convocados para a Copa do Japão/Coréia do Sul. Mas não parou por aí. O treinador também foi muito questionado sobre a escalação com dois centroavantes, Crespo e Batistuta no caso, que apresentava um desenho parecido com um 3-3-2-2 dentro de campo.

Crespo Batistuta
Foto: Reprodução/Futebol Portenho

Na época, a críticas se davam pelo fato do time ganhar força no meio, mas perder profundidade e amplitude nas jogadas de ataque. Dessa forma, as expectativas criadas durante as Eliminatórias, desapareceram durante a disputa do Mundial. A equipe foi eliminada ainda na primeira fase do torneio. Ao todo, o time conseguiu uma vitória contra a Nigéria, uma derrota diante da Inglaterra e empate jogando com a Suécia no Grupo F.

O fim de “El Loco”?

Após o fraco desempenho no torneio mundial, já existia um coro pela saída de Marcelo Bielsa da Seleção Argentina. Entretanto, Julio Grondona decidiu manter o cargo do treinador. Com isso, veio uma grande renovação na Albisceleste, principalmente utilizando o elenco campeão do mundo na categoria sub-20 em 2001. Na Copa América do Peru, já em 2004, o time contava com jogadores como Heinze, Lucho González, Saviola, D’Alessandro, Carlitos Tévez e “Pato” Abbondanzieri.

Sendo assim, conseguiu fazer uma bela campanha ao longo de toda a competição. Chegou à final, novamente contra o Brasil, agora de Carlos Alberto Parreira, e desempenhou um grande jogo. Contudo, o famoso gol de Adriano nos acréscimos tirou o doce da boca de Bielsa e de seu elenco. Na disputa por pênaltis os hermanos perderam e ficaram com o vice-campeonato.

Mesmo assim, Marcelo continuou à frente do comando técnico, agora para a disputa dos Jogos Olímpicos de Atenas. El Loco manteve seu esquema tático com um 3-3-1-3 básico,  utilizando D’Alessandro logo atrás de Mauro Rosalez, Delgado e Carlitos Tévez (que já despontava como grande estrela do Boca Juniors). Para completar, Mascherano já protegia a zaga com a calma de um veterano mesmo com 20 anos de idade. Lucho e Kily González eram os alas. E mais atrás, Ayala, Coloccini e Heinze formavam o trio de zagueiros.

Com uma campanha inesquecível, o time conquistou a tão sonhada medalha de ouro. Foram seis vitórias em seis jogos, com 17 gols anotados e nenhum sofrido. A quebra do jejum de mais de 52 anos sem medalhas douradas foi a despedida de Marcelo Bielsa da Seleção Argentina.

Argentina 2004
Foto: Reprodução/Globo Esporte

O legado de Marcelo Bielsa para a Argentina

Antes de tudo, é verdade que Marcelo não conquistou títulos de expressão com a Argentina. Porém, também é notório a importância e o legado que o seu trabalho deixaram. A imprensa esportiva argentina e a torcida agora discutiam se o selecionado nacional deveria seguir o caminho deixado por El Loco e deixar de lado a eterna discussão entre “menotistas” e “bilardistas”. Não atoa o próprio Bielsa havia conversado com cada um durante oito anos para tirar o melhor deles.

O comandante permaneceu à frente da Seleção do fim de 1998 até 2004. Durante esses anos disputou 89 partidas. Ao todo, são 56 vitórias, 18 empates, 11 derrotas e um futebol ofensivo que chamou a atenção de todos na virada do século. Depois de deixar a Albiceleste, ficou três anos afastado do futebol até assumir o Chile e mais uma vez revolucionar o futebol.

Foto destaque: divulgação/Leeds United

Carlos Soares
Além da enorme paixão pelo esporte, eu sempre tive facilidade com a comunicação no geral. É uma habilidade que me destaca em qualquer ambiente que esteja. O desejo de fazer jornalismo surgiu devido a vontade de fazer com que essa aptidão possa me proporcionar grandes desafios em minha carreira profissional, principalmente na área esportiva. Ao ingressar na faculdade e estagiar na área, descobri diversas abordagens diferentes que o jornalismo pode ter e a quantidade de histórias que estão esperando para serem contatadas. O que fez eu me interessar ainda mais pela profissão e querer desempenhar um fazer jornalístico objetivo e de qualidade.