Copa de 70

O grande Edson Arantes do Nascimento estava partindo para mais uma copa, mas dessa vez com uma grande desconfiança. A fera já era bicampeã do mundo, uma vez que havia vencido as edições de 1958 e 1962. A Copa de 70 era a oportunidade do astro superar algumas barreiras, como as das lesões, que o atrapalharam nas edições de 62 e 66 e também as suspeitas que o jogador sofria da imprensa do mundo todo. Portanto, Pelé superava esses obstáculos se tornando ainda mais ídolo ou fracassaria novamente como na edição anterior. Além de tudo isso, seria o primeiro Mundial que o Rei do Futebol jogaria sem seu principal companheiro de Seleção: Mané Garrincha.

No entanto, o plantel ainda tinha diversos excelentes companheiros para o Rei. Assim, para muitos, a safra de 70 foi a melhor de todos os tempos. A Seleção não tinha um “outro Garrincha”, mas era composta por atletas de altíssimo nível, que tinham total qualidade para auxiliar o camisa 10 na Copa do Mundo. Sobre muita desconfiança, Pelé e o Exército verde e amarelo iam para o México, consequentemente, para superá-las e levar ao mundo novamente seu belo e alegre futebol.

Episódios que antecederam a Copa de 70

João Avelange, presidente da CDB (Confederação Brasileira de Desportes), com o intuito de conquistar novamente o povo brasileiro, contrata João Saldanha para ser treinador da Seleção Brasileira em 1969, mesmo ano do gol mil do Rei do Futebol. No começo, deu certo, mas depois de um tempo, seu estilo de jogo parou de render. Além de problemas que o treinador tinha com o governo de Medici, o técnico começou a ter problemas com Pelé. Após o Rei criticar sua tática, Saldanha fez duras críticas ao atacante alegando que o craque estava fora de forma e que sofria com uma miopia.

Consequentemente, João Saldanha, com todos esses problemas, foi demitido três meses antes da Copa, e em seu lugar escolheram Zagallo. Logo no primeiro encontro com o novo treinador da Seleção Canarinho, Pelé pediu para que o comandante confiasse em seu trabalho. O Velho Lobo acreditou e, além disso, formou um “quinteto dos camisas 10” formado por Rivellino, Gerson, Tostão, Jairzinho e o Rei, que era a “cereja do bolo” do esquadrão.

Sempre que relacionamos Pelé e futebol no mesmo assunto, apenas pensamos em coisas boas, mas, nesse período que antecedeu a Copa de 70, nem tudo foram rosas. A Fera sofreu com duras críticas da imprensa. Após seu casamento badalado com Rosemeri Cholbi, muitos disseram que o craque não se importava mais com o futebol e que estava se importando apenas com a fama. Diversos críticos alegavam que o atleta estava fora de forma e que não tinha mais condições de jogar em alto nível. O Rei, então, partia para se tornar o maior de todos os tempos.

COPA DE 70

BRASIL 4 x 1 TCHECOSLOVÁQUIA

O Brasil estreava no México, no dia 3 de junho, em um jogo muito bom tecnicamente. No final do primeiro tempo, quando o jogo estava empatado em 1 x 1, o Rei do Futebol proporcionou um lance histórico. O craque recebeu a bola no meio campo e chutou por cima do goleiro e, por pouco, a bola não entrou. Essa jogada feita por Pelé ficou para a história. Quando alguém faz um gol da metade do gramado, chamamos o lance de “o gol que Pelé não fez”.

No início do segundo tempo, a Seleção manteve a superioridade e, consequentemente, retomou o liderança no placar. Após um passe de 40 metros de Gerson, a Fera dominou de peito e marcou. Minutos depois, Jairzinho ampliou a vantagem com um golaço. O Esquadrão verde e amarelo jogava por música. Aos 83′, após passe de Pelé, o Furacão da Copa driblou três e decretou a goleada. Excelente estreia da Seleção Brasileira.

BRASIL 1 x 0 INGLATERRA

Para muitos o jogo mais difícil da Copa. Assim, os dois os últimos campeões mundiais se enfrentavam no dia 7 de junho. No início do confronto, ocorreu mais um lance emblemático de Pelé. Após um cruzamento de Jairzinho, o camisa 10 saltou muito alto e cabeceou firme no canto, Gordon Banks, goleiro inglês, buscou a bola na linha do gol. Para muitos, essa defesa foi considerada a mais bonita das Copas de todos os tempos.

O segundo tempo se iniciou com o placar zerado, mas isso estava prestes a mudar. Aos 15′, após uma jogada genial de Tostão, que cruzou para o Rei, o craque dominou com muita qualidade e, rapidamente, serviu Jairzinho, que finalizou e abriu o placar. A Seleção não foi genial como na estreia, mas mostrou muita competência para vencer os atuais campeões do mundo pelo placar mínimo.

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BRASIL 3 x 2 ROMÊNIA

O Brasil desde o começo já impôs sua superioridade e, assim, o zero no placar não resistiu por muito tempo. Aos 19′, Pelé fez um gol de falta. Na sequência, Jairzinho ampliou para a Canarinho. Entretanto, a Seleção diminuiu a intensidade. No segundo tempo, o Rei voltou a marcar. Após um cruzamento de Tostão, o Pelé se esticou e, de carrinho, colocou a bola para dentro do gol. Portanto, com três resultados positivos, a Seleção passava na primeira colocação do grupo.

BRASIL 4 x 2 PERU

Nas quartas de final, o Brasil enfrentou o Peru, que era comandado pelo ídolo Didi. O jogo começou e o Esquadrão já mostrava sua superioridade. Depois 15 minutos de jogo, a Canarinho já vencia por 2 x o. Posterior ao segundo tento, Pelé fez um gol de falta, que, todavia, foi é anulado, já que infração deveria ser cobrada em dois lances.

Na segunda etapa, a Amarelinha voltou dominante como no primeiro tempo. Depois de uma tabela entre o Rei e o Furacão da Copa, o camisa 10 serviu Tostão, que, após a bola tocar no zagueiro, finalizou para o gol vazio. No final da partida, ainda deu tempo de Jairzinho decretar a classificação.

BRASIL 3 x 1 URUGUAI

Em uma semifinal Sul-americana, imaginava-se que seria um jogo duro. Realmente foi. O primeiro tempo terminou empatado em 1 x 1, com um equilíbrio muito grande entre as equipes. Entretanto, no segundo tempo o jogo, mudou. Aos 31′, Jairzinho virou a partida e, alguns minutos depois, em um rápido contra-ataque, Pelé serviu Rivellino, que matou a partida.

Mesmo não marcando gols na partida, o camisa 10 proporcionou dois lances emblemáticos. Primeiramente, a cotovelada no zagueiro Fontes, que vinha batendo no brasileiro o jogo todo. Assim, o juiz não viu a cotovelada e ainda marcou falta do Brasil. Também teve um lance genial: drible do Rei no goleiro uruguaio sem tocar na bola. Infelizmente, Pelé não conseguiu fazer o gol, mas foi um lance marcante.

BRASIL 4 x 1 ITÁLIA

Em suas primeira e única partida no Estádio Azteca naquela Copa, o Brasil encarou a Itália na final. Logo aos 18′, Rivellino cruzou para Pelé, que subiu e marcou um belo gol de cabeça. Um lance bizarro aconteceu no final da primeira etapa. O jogo estava empatado em 1 x 1, Gerson, em uma falta, lançou a Fera. Quando o craque dominou e ia balançar a rede, o juiz apitou o fim do primeiro tempo.

A segunda metade se iniciou e imediatamente a Seleção Brasileira fez o segundo gol com Gerson. No meio do último tempo, o Canhotinho de ouro fez um brilhante lançamento. O Rei escorou de cabeça para Jairzinho ampliar. No final do duelo, após uma bela troca de passes, o camisa 10 serviu com categoria Carlos Alberto, que fez um belo gol, certamente um tento que retratava o futebol brasileiro.

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APÓS O APITO FINAL

O título era do Brasil, mas a alegria também era dos mexicanos. Após o apito final, a torcida da casa invadiu o campo. O zagueiro italiano Roberto Rosato conseguiu a  desejada camisa 10 utilizada pelo Rei na partida, momentos antes de o craque ser levantado pela torcida. Chegando ao Brasil, a Seleção foi recepcionada com festa. Além disso, cada jogador ganhou um fusca do prefeito de São Paulo, Paulo Maluf.

O confronto contra a Itália foi o último de Pelé em mundiais. O atacante totalizou 12 gols pela Seleção somando todos as Copas que jogou. Um ano depois da conquista, no dia 18 de julho de 1971, em um amistoso contra a Iugoslávia, no Maracanã, o Rei do Futebol se aposentou da Seleção. Até hoje, o craque é o maior artilheiro da Amarelinha, com com 95 gols (92 oficiais).

Após se aposentar da Canarinho, o Rei seguiu sua carreira no Santos até 1974. Nesse período, Pelé venceu o Campeonato Paulista de 1973, sendo também o artilheiro da competição. Entretanto, no dia 2 de outubro daquele ano, Edson Arantes fez seu jogo de despedida na vitória contra a Ponte Preta. Portanto, a Era Pelé acabava também no time da Baixada.

No ano seguinte, foi vendido para o New York Cosmos por 6 milhões de doláres, consequentemente, tornando-se a transação mais cara da época. Sua trajetória terminou em 1977 no clube americano. Entretanto, no mesmo ano, venceu a Liga Norte-Americana, com Eusebio e Franz Beckenbauer como parceiros. No dia 1º de outubro, O Rei do Futebol se despediu dos gramados em um confronto entre Cosmos e Santos. Na ocasião, Pelé atuou por um time em cada tempo. Assim, a Fera encerrava a carreira com 1283 gols.

RELATOS DA COPA DE 70

Em um documentário sobre a Copa de 1970, Wilson Piazza conta que, após a vitória do Brasil na estreia, o vestiário estava em festa, entretanto Pelé bateu palmas e disse: “moçada, foi bom, foi ótimo, mas precisamos melhorar muito”. Após a fala, o Rei se sentou ao lado de Piazza e completou: “eu tenho que falar isso, porque senão os jogadores já acham que são campeões”.

Gerson, no especial de 70 anos de Pelé, perguntou ao craque: “por que você não dominou com o peito? O passe foi igual àquele contra a Tchecoeslováquia, em referência ao lance contra a Itália na final. A Fera respondeu: “porque, quando eu me preparei, eu subi para dominar, mas vi o zagueiro colado comigo e eu fiquei com medo de dominar e a bola bater no zagueiro”.

Rivellino, em uma entrevista ao programa No Ar, apresentado por André Henning, revelou uma curiosidade da final de 1970. O craque do Corinthians contou que o Rei tinha um aspecto motivador, que era o que muitos diziam que Pelé estava acabado no futebol. Riva disse que o jogador entrou no vestiário após o fim da decisão e deu três berros: “eu não morri não” dizia Pelé. Assim, deixou claro que o Rei não estava morto.

Foto Destaque: Reprodução/AP Photo

Leonardo Pinheiro
Escolhi jornalismo porque para mim é prazeroso informar as pessoas, e além disso, a paixão pelo futebol me encorajou a seguir essa carreira. Meu principalmente objetivo na profissão é trabalhar com esportes, principalmente o futebol.

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