Clásico de la Villa: o mais importante derby de bairro do Uruguai

Quem não acompanha o Campeonato Uruguaio não tem a dimensão de como esta rivalidade é grande. Mas, se você pensa que por não conhecer os times ou não saber que é clássico diminui sua importância: está errado! O Clásico de la Villa não é um grande duelo internacional e nem nacional. É ainda maior que isso: É DE BAIRRO!

Só quem já teve um time no seu bairro ou na sua vila, vai saber o tamanho disso. Sejam rivais de favelas, condomínios, blocos, ruas, vielas, classes, enfim, a rivalidade pode ser “pequena” para quem está de fora. Mas quem está dentro é melhor que Brasil x Argentina ou Real Madrid x Barcelona. Agora você entende um Cerro x Rampla?

E se você imagina que isso é pouco, reflita: e se duas equipes disputassem: espaço (físico), torcida (pois num mesmo bairro você tem que escolher um) e até permanência em divisão? A coluna Desclausurando o Uruguaio vai contar detalhes deste incrível embate.

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Villa del Cerro: o início

Localizada nas encostas do monte Montevidéu, a Villa del Cerro foi criada em 1834 como uma cidade independente na capital uruguaia. Foi projetada com o objetivo de abrigar os milhares de imigrantes que chegaram ao Uruguai em ondas sucessivas de imigração que duraram até a década de 1950.

Para ter dimensão da importância, a colina aparece no canto superior direito do escudo uruguaio como um símbolo de força. Desde que foi inaugurada a Villa del Cerro era considerada um verdadeiro símbolo do peso da indústria de carne na economia e na história do Uruguai. Anexada a Montevidéu em 1913 devido ao desenvolvimento urbano, tornou-se um bairro.

Porém, é separado da capital por uma baía, o que faz com que os habitantes seja quase que exclusivamente de pederneiras cerrenses. Por isso estes confrontos de atmosfera especial. Contudo, as equipes tem fortes raízes na região Oeste de Montevidéu, como nos bairros de Casabó, Paso de la Arena e Pajas Blancas.

O motivo da rivalidade

A rivalidade entre os clubes começou antes mesmo do Cerro ser fundado. Estranho, né? Mas vou explicar. Fundado em 7 de janeiro de 1914, na Ciudad Vieja, antigamente uma cidade e hoje um bairro de Montevidéu, o Rampla Juniors decidiu por se mudar para a Villa del Cerro em 1919, onde em 1923 construiria seu estádio, o Parque Nelson (hoje Olímpico Pedro Arispe ou Olímpico de Montevidéu).

Assim, já conquistou alguns moradores do bairro. Por outro lado, outras pessoas ficaram incomodadas e resistiram em “apoiar” um time de fora e mantiveram-se fiéis às raízes bairrísticas. Com isso, no dia 1º de dezembro de 1922, nasceu o Club Atlético Cerro, o “legítimo” time do bairro da Vila del Cerro. Portanto, de um lado o dono da casa e do outro o inquilino.

O segundo clássico mais antigo do Uruguai

Clásico de la Villa é o segundo derby mais antigo do país, perdendo apenas para o Superclássico Peñarol x Nacional. Mas isso não é demérito nenhum, afinal, dado o investimento dos clubes, este clássico representa muito. É também o clássico que mais leva torcedores aos estádios, depois do mencionado anteriormente.

Já disputaram 136 jogos: Cerro venceu 48, Rampla venceu 44 e empataram outras 44 vezes. O equilíbrio do confronto mostra também a qualidade do embate. Mas o duelo poderia ter muito mais jogos, pois o clássico não pôde ser disputado em várias ocasiões porque Rampla Juniors ficou por muitos anos na 2ª divisão, cerca de 25 temporadas e é onde se encontra em 2020. Por seu lado, o Cerro após sua estréia na 1ª divisão em 1947, caiu apenas duas vezes: 1997 e 2006 (ambos devido à perda de pontos por incidentes envolvendo seus fãs), ambos retornando na temporada seguinte.

O primeiro “Clásico”

O clássico foi disputado pela primeira vez em 24 de abril de 1924, no Parque Santa Rosa (estádio do Cerro na época). Porém, a vitória foi do Rampla Juniors por 2 x 0. Esta que seria a equipe campeã do Campeonato Uruguai de 1927, ainda na era amadora do futebol local.

Desde o início da década de 1990 o nível de violência em todo o futebol uruguaio estava crescendo. Assim, com o Clásico de la Villa não foi diferente. Por esta razão, o jogo deixou a vizinhança em muitas ocasiões, uma vez que a polícia não permitia que as equipes usassem seus respectivos estádios (Estádio Olímpico e o Luis Tróccoli). Dessa forma, o clássico foi disputado muitas vezes no Estádio Centenário, por razões de segurança.

Detalhes sobre o Clásico de la Villa

As sedes dos dois clubes estão na mesma rua e são separados apenas por um quarteirão. O bairro se divide em dois e se transforma em uma festa em época de clássico. O convívio entre as torcida é tranquilo durante todos os dias do ano, exceto, em dia de jogo. A rivalidade começa quando a rodada é sorteada. Confira falas de torcedores para entender o tamanho do derby:

Torcedor do Rampla: O campeonato começa quando jogamos contra o Cerro e termina quando jogamos contra o Cerro. Prefiro vencer o Cerro sempre. E se tiver que ser rebaixado, não me interessa. Mas eu quero ganhar o clássico, sempre! Toda vez que ganhamos, zoo até morrer, e toda vez que eles ganham, eles me zoo sem limites. Meu melhor amigo é torcedor do Cerro, sócio e sempre vai ao estádio. E ele vai ser o padrinho da minha filha”.

Torcedor do Cerro: “O relacionamento entre os torcedores de Cerro e Rampla é boa quase todos os dias do ano, exceto no dia do jogo. Nem alface (verde) e tomate (vermelho) a gente come junto. As pessoas ficam empolgadas em conversas, no bar, em casa, na família. Mas, para nós tem que vencer sempre! Às vezes é complicado, porque você pode se apaixonar por uma torcedora do Rampla. Eu estou com minha esposa há 54 anos e ela é torcedora do Rampla. E eu moro com ela. Paciência. Se você é torcedor do Cerro, nunca deixei de ser torcedor de Cerro”.

Eric Filardi
Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia. Sou Eric Filardi, paulistano de 27 anos, criado em Taboão da Serra, jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo e apaixonado por futebol. Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, Peixe, Palestra e Timão. Sou da Colina, Glorioso, Flu e Mengão. Sou brasileiro, hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 x 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões. Sou Clássico das Multidões. Sou Sul, Nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, Raposa, Bavi e Grenal. Sou Ásia e África. Sou Barça e Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas que o estádio incendeia: sou Futebol na Veia.
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