Caniggia

Eduardo Galeano, em seu livro “Futebol ao Sol e à Sombra”, escreve: “O gol é o orgasmo do futebol. E como o orgasmo, o gol é cada vez menos frequente na vida moderna”. Isso porque, ainda segundo o escritor, “os onze jogadores passam toda a partida pendurados na trave, dedicados a evitar os gols e sem tempo para fazer nenhum”. Recorrer ao finado gênio da literatura uruguaia é a melhor forma de explicar a Seleção Argentina comandada por Carlos Salvador Bilardo. “No futebol, para mim, existe somente um estilo: ganhar”, disse, em 2016, em entrevista ao “Olé”, da Argentina, “El Narigón”.

A título de comparação, em 1990, na Itália, para chegar a finalíssima contra a Alemanha, reeditando a decisão da Copa do Mundo anterior, os atuais campeões mundiais foram as redes apenas cinco vezes, o pior ataque a disputar uma final de Copa. Apesar da escassez, o autor de um desses tentos ficaria marcado para a eternidade. O gol de Claudio Paul Caniggia resume o tremendo alvoroço que aqueles cabelos loiros causavam no povo argentino, que jamais deixará os brasileiros esquecerem que “Cani lo vacunó”, trocando em miúdos, que Cani o f***.

“Eu não achava que iria marcar, mas sabia que Maradona poderia resolver. Quando a bola chegou, eu só tinha que matar Taffarel”, relembrou o atacante.

Marcado por constantes oscilações, defendeu uma dezena de clubes. Envergou a faixa vermelha do River Plate, bem como o azul e ouro, do Boca Juniors. Além disso, na Europa, foi peça-chave tanto em Bérgamo, na Atalanta, quanto no lado protestante de Glasgow, no Rangers. No entanto, apenas sua influência pela Albiceleste credencia Caniggia ao mais alto panteão da história do futebol argentino. Um ídolo na acepção da palavra, que completa 53 anos nesta quinta-feira.

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UM BOSTERO NO RIVER

Foi em Henderson, uma cidadezinha localizada no centro-oeste da província de Buenos Aires, que conheceu o caminho dos esportes. Entretanto, a princípio, o jovem Caniggia tinha aptidão para o atletismo, saindo vitorioso em algumas competições locais de 100 metros e salto à distância. Desse modo, “El Hijo del Viento”ou “El Pájaro”, apelidos adquiridos no decorrer dos 26 anos de carreira, falam por si sós.

Quis o destino que as pistas fossem trocadas pelos gramados. Assim, o primeiro empurrãozinho, dado por Jorge Jaimerena, um amigo de seu pai, e membro de uma torcida local do River Plate, veio aos 15 anos. Isso porque, “El Negro” conseguiu um teste para o garoto na equipe Millionaria, onde passou, mas não como ponta, e sim como meio-campista. A modificação de posicionamento viria apenas após uma conversa com Jorge Dominichi, ex-zagueiro do River.

“Não vai jogar de 8, e sim de ponta”, lhe disse o Dominichi.

Fora das quatro linhas, o choque foi grande. Distante tanto de Henderson, que ficava a 400 quilômetros, como do centro de treinamento de Figueroa Alcorta, destino viabilizado por trens e ônibus, se viu na imensidão da cidade grande, onde tinha ido não mais que cinco vezes para assistir o Boca Juniors, seu time de coração, vivendo na casa de uns tios. Dessa maneira, pensou em jogar tudo pelos ares. “Estava longe e sentia que tinha que largar”, revelou, recentemente, em uma entrevista para o site “90 Minutos de Futebol”. Embora hincha do Boca, Cani não comemorou o rebaixamento do maior rival em 2011.

“No River cresci, amadureci e não gostei do descenso. Foi triste”.

O BANCO E BILARDO

Após levantar sete títulos nacionais entre 1975 e 1981, o River enfrentou uma pequena seca, que teve fim em plena La Bombonera, onde os comandados do técnico Héctor Veira sagraram-se campeões argentinos de 1985-1986. Foi nesse período, mais precisamente em 15 de dezembro de 1985, em um 3 x 0 frente ao Unión de Santa Fe, que Caniggia estreou como profissional. Em 2013, “El Bambino” comentou como lançou o jovem:

“Um dia, falando com Pedernera, que era o coordenador da base do River, comentei que precisava de um garoto para substituir Amuchástegui. Ele me disse: ‘Venha ver um garoto do sexto quadro, que é muito bom’. Meia hora me bastou e lhe pedi que o mandasse treinar conosco. Contei a meus amigos no café: ‘Estamos preparando um jogador, é o filho do vento, rapidíssimo, mas com habilidade. Esse era Cani”.

Outro tabu, no entanto, era o mais almejado. Cansada das chacotas de Independiente, Racing e Boca, que já ostentavam em suas galerias as taças da Copa Libertadores da América e do Mundial Interclubes, a torcida Millionaria queria mais que “apenas” as conquistas nacionais. Enfim, em 1986,, o River Plate rompeu as fronteiras da Argentina, ganhando a América, contra o América de Cali, da Colômbia, e o mundo, diante do Steaua Bucareste, da Romênia. Caniggia esteve presente em ambas, entretanto esquentava o banco, pois, em sua posição, jogava simplesmente o uruguaio Antonio Alzamendi, autor do único tento na finalíssima diante dos romenos.

Mesmo reserva, era convocado por Carlos Bilardo para a Seleção Argentina. Sendo assim, debutou pela Albiceleste em 10 de junho de 1987, em uma derrota por 3 x 1 para a Itália, em Zurique. No mesmo mês, disputou a Copa América, sediada na própria Argentina. Logo na segunda partida da competição, diante do Equador, Caniggia fez seu primeiro gol pelo selecionado. Dessa maneira, caiu nas graças da torcida, que suplicava o garoto como titular. Dito e feito. Iniciou desde o princípio a semifinal diante do Uruguai, que se classificou para a final, com um gol de Alzamendi. Ao final, foi um dos poucos que passaram ileso as críticas.

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VELHA BOTA

De volta ao River Plate, em julho, conquistou seu único troféu participando ativamente, a Copa Interamericana. Tal disputa, vale lembrar, colocava frente a frente o campeão da Libertadores e o da CONCACAF. Naquela ocasião, o River enfrentou o Alajuelense, da Costa Rica, e empatou sem gols na partida de ida, mas, no Monumental de Núñez, venceu por 3 x 0. No total, fez 53 partidas pelos Millionarios e anotou oito tentos.

A ascensão meteórica levou, em 1988, Caniggia ao badalado futebol italiano. Assim, em sua primeira temporada, atuou pelo Hallas Verona. Porém, sua chegada à Europa foi uma verdadeira novela. Isso porque, sondado inicialmente pela Juventus, chegou até a posar com o fardamento Bianconero até ser dado como novo atleta da Roma. Entretanto o atraso na entrada do pagamento foi a brecha usada pelo River Plate para cancelar a negociação e vendê-lo por US$ 500 mil a mais ao Verona. Por lá, não se encaixou. Em 21 partidas, marcou apenas três gols.

Logo assinou com a Atalanta, onde exibiu o ápice de seu futebol. Viveu altos e baixos, é verdade, mas também caiu nas graças da torcida Nerazzurri, muito por conta dos 26 gols marcados nos 85 jogos que disputou ao logo dos três anos que ficou por lá. Ao lado de Evair, formou uma dupla de ataque impiedosa, que conduziu a equipe a campanhas dignas na Serie A chegando até menos nos torneios continentais. Época na qual também era arma de Bilardo na Argentina.

1990: A PRIMEIRA COPA

A estreita parceria com Maradona escancarava as portas para Caniggia na seleção. O próprio Diego certa vez revelou que, em um ultimato ao Narigón, se recusaria ir à Copa do Mundo de 1990 caso o amigo não estivesse na lista dos convocados. Desse modo, mesmo enfrentando a concorrência de outros compatriotas como, por exemplo, Baldo da Udinese, Dezotti, da Cremonense, e Ramón Díaz, do Mônaco, que viviam melhor fase, El Pájaro participou da Copa América de 1989, vencida pelo Brasil, bem como de todos os amistosos preparatórios para o Mundial. Sendo assim, ocupou a única vaga do ataque Albiceleste, que estava programada para defender.

Em meio à retranca, Caniggia, juntamente com Maradona e o goleiro Goycochea, davam um alento aquele time, infinitamente inferior ao que havia se sagrado bicampeão do mundo quatro anos antes. Se El Diez era o cérebro que tudo pensava, e Goyco era a muralha argentina, capaz de defender três pênaltis, um contra a Iugoslávia, nas quartas de final, e dois contra a Itália, na semifinal, Cani era o predestinado. Isso porque, foi o autor dos dois únicos gols marcados pelos atuais campeões ao longo dos mata-matas, sendo um contra o Brasil nas oitavas de final e outro na semifinal, quando quebrou a invencibilidade da defesa da Itália, que ainda não havia sido vazada no torneio.

Todavia, suspenso, Caniggia foi ausência na final contra a Alemanha Ocidental. Contra os italianos, minutos após empatar a peleja, em um ato que julga ter sido involuntário, colocou a mão na bola e, portanto, recebeu aquele que seria seu segundo cartão amarelo, suspensivo na época. Jamais perdoou o árbitro frânces Michel Vautrot, que, segundo ele, foi demasiado rigoroso. Desse modo, desfalcados também de Batista, Olarticoechea e Giusti, os alemães vingaram a derrota de outrora, mas Cani assegurou sua vaga na seleção.

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DROGAS, ROCK “N” ROLL E COPA DO MUNDO

No ano seguinte, formando uma estupenda dupla com Batistuta, conduziu a Argentina, melhor ataque da competição, com 11 gols, ao título da Copa América. Além disso, venceria ainda a Copa Rei Fahd, o embrião da Copa das Confederações, e, em 1993, a Copa Artemio Franchi, que colocava frente a frente os campeões da Copa América e da Eurocopa. Entretanto não gozava do mesmo sucesso pelos clubes.

Ao se mudar de Bérgamo para Roma, ficou aquém das expectativas. O clube Gialorossi procurava um substituto para o alemão Rudi Völler, mas se desiludiu com Caniggia, que balançou as redes somente três vezes na temporada. Contudo, o pior ainda estava por vir. Em 1993, um antidoping escancarou que, assim como Maradona, ele também era usuário de cocaína. Assim, acabou sendo suspenso do futebol por 13 meses. Dessa maneira, Cani ficou de fora da Copa América daquele ano, na qual a Argentina conquistou o bicampeonato consecutivo. Porém, respaldado por Alfio Basile, voltou a tempo de disputar a Copa do Mundo de 1994. Nos EUA, teve sua grande atuação diante da Nigéria, quando marcou os dois gols da virada por 2 x 1. No entanto, se lesionou na última partida da fase de grupos. Viu  das arquibancadas seus companheiros entrarem Gheorghe Hagi & Cia nas oitavas de final.

Além da bola, Caniggia tem outra paixão, o rock. Durante a estadia da Argentina nos States, a banda Poison o convidou para tocar bateria em um show em Wisconsin. E mais, a música “Al Fondo de La Red”, do popular grupo argentino Bersuit Vergabarat, passou ser associada ao jogador. Isso porque, o som carrega os versos: “Como quiebra la cintura y la razón/ Se acomoda em el aire el pájaro/ Para pintar esse gol al domingo”. Por certa semelhança também, batizou um de seus quatro filhos de Axel, vocalista dos Guns N’Roses.

O BEIJO NO BOCA

Depois do Mundial, teve uma breve passagem pelo Benfica, onde fez 34 jogos e marcou 16 gols. Já na seleção, começou a perder espaço com o novo comandante, Daniel Passarela. Após a breve passagem pelos Encarnados, em uma transferência costurada pela Parmalat, que patrocinava tanto portugueses quanto argentinos, Caniggia retornou à Argentina para defender o Boca Juniors, que também havia fechado com Maradona. Todavia, aquele timaço nunca saiu do papel. Logo, é constantemente lembrado pela perda do Apertura de 1995, que, a cinco rodada do fim, quando os Xeneizes lideravam com seis pontos de vantagem, parecia ganho, mas acabou ficando com o Vélez Sarsfield.

Individualmente falando, Cani não voltou a apresentar aquele futebol da Atalanta, porém não foi aquele jogador apagado que passou pelo Verona. Ao todo, foram 74 jogos e 32 gols marcados, um desempenho aceitável, mas que poderia ser melhor se não fossem os problemas extracampo. Isso porque, durante sua estadia em La Bombonera, sofreu um tremendo baque com o suicido de sua mãe, que se atirou do quinto andar de um prédio. Esse episódio foi preponderante para o loiro ter ficado fora da Copa do Mundo de 1998, uma vez que, entre 1996 e 1997, ficou parado.

Todavia, a imagem de Caniggia no Boca é o caloroso beijo que Maradona lhe deu, uma simples gesto de agradecimento pelo estrago que o parceiro havia feito na defesa do River Plate, que perdera o Superclássico por 4 x 1, em La Bombonera. Mais tarde, ambos disseram que havia sido o “beijo da alma”. Naquela noite de julho de 1996, El Pájaro estava imparável. Assim, em um segundo tempo de Maradona, fez valer a lei do ex, marcando nada mais nada menos que três vezes, o primeiro hat-trick de sua carreira.

PROTESTANDO PARA BIELSA

Ao final do contrato com o Boca Juniors, em 1998, deixou novamente o futebol em segundo plano. Porém, no segundo semestre de 1999, retornou aos gramados para ajudar a Atalanta na segunda divisão italiana. Apesar do acesso, que foi conquistado com o título, Caniggia decepcionou. Novamente deixou Bérgamo, desta vez rumo à Escócia, país do Dundee United. O sucesso no modesto clube, onde torcedores iam aos jogos com perucas loiras em sua homenagem, foi tão grande que foi contratado pelo gigante Rangers.

Em Ibrox, levantou cinco taças, sendo que, na temporada 2002-2003, ajudou o clube protestante a conquistar a tríplice coroa. Desse modo, cavou sua vaga no selecionado argentino para a Copa do Mundo de 2002, em uma aposta surpreendente do técnico Marcelo Bielsa, que deixou Javier Saviola, na época no Barcelona, de fora. Sequer entrou em campo. Mesmo assim, no banco de reservas, algo inédito na história da competição, foi expulso no confronto diante da Suécia. Esse o episódio derradeiro de Caniggia com a camisa Albiceleste. Já nos clubes, colocou um ponto final no auge de seus 37 anos, quando estava no Qatar Sports Club, onde conquistou, em 2004, a Copa do Príncipe. Em 2012, já veteraníssimo, aceitou uma proposta do Wembley Football Club, que reuniu um elenco de astros veteranos, para disputar as divisões amadoras do futebol inglês.

Os 50 jogos, 16 gols e três Copas do Mundo pela Argentina explicam Caniggia, que tinha na Albiceleste não a segunda, mas sim a primeira pele. Graças a ele, os argentinos, que, em 2014, tomaram conta das ruas no Brasil, mas tal como em 1990, quando Cani estava nos gramados, saíram derrotados da final pela Alemanha, perguntavam como o Brasil se sentia tendo em casa o seu papai. É por conta disso que, sim, ele está no mais alto panteão da história do futebol argentino.

 

 

 

 

Pedro Ferri
Pedro Rodrigues Nigro Ferri, 19, nascido em Assis-SP. Jornalista em formação pela Faculdade da Cásper Líbero e um fiel devoto. Católico? Protestante? Não, corinthiano. Sou mais um integrante do bando de loucos e nunca me conheci sem essa doença. Frequentador de arquibancada, sou apaixonado por torcidas. Sabe aquela música do seu time? É, eu canto ela no chuveiro. Supersticioso ao extremo e disseminador da política "NÃO GRITA GOL ANTES DA BOLA ENTRAR!".

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