Brasil x Bélgica

Era uma sexta-feira, dia 6 de julho de 2018, por sinal, um dia muito agradável. Mês de Copa do Mundo, uma competição que todo mundo aguarda por anos. Naquela manhã, a França, que já havia eliminado uma seleção sul-americana, nossos hermanos, a Argentina, tirou mais um de seu caminho, o do Uruguai. Mais tarde, precisamente às 15h (horário de Brasília), tinha Brasil x Bélgica. Seria a oportunidade da seleção do Tite mostrar de vez o que tinha de melhor, e ir para uma revanche contra a os franceses que nos tiraram uma Copa do Mundo em 98 e eliminaram a nossa seleção de maior nome nos últimos anos lá em 2006, mas já sabemos que isso não aconteceu.

Bom, com os gols de Varane e Grienzmann – com grande ajuda de Muslera – os comandados de Deschamps deram mais um passo para a glória. Ali ‘os negros maravilhosos’ como diria Luis Roberto, já se mostravam os melhores no torneio depois de eliminar a Argentina de Messi, e mandar também de volta para a América os uruguaios Suárez e Cavani que tiraram Cristiano Ronaldo do caminho. Por outro lado, o Brasil vinha de desempenhos com altos e baixos e iria encarar a seleção em ascensão.

“O HEXA NÃO VEM!”

Particularmente, não gostei de algumas convocações de Tite (como a maioria dos brasileiros também), que insistia com Fernandinho, Willian e o grande Taison. Embora o Brasil tivesse concluído uma bela Eliminatórias para a Copa, passei a desapegar da Seleção Brasileira por conta das ideias do querido Adenor. Logo, me vi sozinho ‘torcendo contra’.

Muitos colegas de faculdade estavam crendo que o hexa viria, e eu já estava decidido e queria mostrar a ele de alguma forma que estava certo. Além disso, familiares, meu tios principalmente, do que viu Pelé com Garrincha, que torceu para Zico e cia em 82, ao que é fã de Neymar, falei que não seria dessa vez que o hexa viria, e digamos que fui ‘massacrado’ por eles, rs…

O BRASIL NA COPA

Chegou o jogo de estreia da seleção de Tite na Copa do Mundo. O primeiro jogo contra a Suíça passou longe de ser um dos melhores, inclusive, ficou apenas no empate em 1 x 1. Até hoje não entendo o porque Willian estava em campo, já que o mesmo nunca provou nada com a camisa amarela. Um jogador sempre apático, não esboçando nenhuma reação, tampouco seu futebol de Chelsea.

Coutinho abriu o placar aos 20’, com sua melhor característica, puxando a bola para o meio e finalizando no canto superior direito do goleiro. Mas o empate veio no cabeceio de Zuber (?), é bem verdade que o jogador suíço fez falta em Miranda, mas o VAR ‘não viu’. Assim como os outros seis brasileiros em sua volta – dentro na área – nada fizeram para impedir, até mesmo Alisson.

O ‘nosso’ camisa 1 era, talvez seja ainda hoje mesmo sendo eleito o melhor do mundo, muito subestimado. É bem verdade que também naquela ocasião o goleiro não passava uma certa segurança ao torcedor, como foi Marcos em 2002 e Taffarel na década de 90. Esse nervosismo tomou conta da seleção, como foi contra a Costa Rica, que contava apenas com Kaylor Navas.

E o Brasil foi marcar um gol, apenas nos acréscimos do 2º tempo, com Coutinho, nosso melhor jogador na competição, e o ‘menino Ney’, já próximo aos 52 minutos. Contra a Sérvia, digamos que foi mais tranquilo, apesar do adversário controlar alguns minutos da segunda etapa. Mas Paulinho e Thiago Silva marcaram os gols da vitória e assim se encerrou a fase de grupos.

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“COLOCA O FIRMINO, TITE!”

Contra o México tinha mais um goleiro baixinho que é sempre uma pedra no ‘nosso’ caminho, o goleiro Guilherme Ochoa. Mas que nada pôde fazer para evitar o gol do menino Ney e Firmino… Pois é, o senhor Adenor já deveria perceber que o momento não era de Gabriel Jesus, apesar da boa trajetória no decorrer das Eliminatórias. Porém, a avaliação tem que ser de momento, a competição não é longa, é decidida em apenas sete jogo dentro de 30 dias… Mas Tite permaneceu com Gabriel ao lado do grande Willian no ataque… E aí veio a Bélgica…

O JAPÃO ASSUSTOU OS BELGAS

A promissora Seleção Belga já havia se destacado no Brasil em 2014, mas ficou no caminho para a Argentina. Depois de uma fase de grupos tranquila, com três vitórias (3 x 0 no Panamá, 5 x 2 na Tunísia e 2 x 0 na Inglaterra), teve uma surpresa nas oitavas, o Japão. No intervalo de quatro minutos no início do 2º tempo, Cortouis sofreu dois gols, para Haraguchi e Inui. E contando com o famoso ‘gol cagado' de Vertonghen, o cabeceio de Fellaini e o tento marcado por Chadli há 17 segundos do fim, a virada se tornou realidade, para alívio do espanhol Roberto Martinez, técnico dos belgas.

Depois desse jogo, ao ver a complicação da Bélgica contra os japoneses ouvi comentários do tipo: “Os caras quase perderam pro Japão, ‘cê’ acha mesmo que ‘nóis vai’ perder ‘pros' caras?’’. “Respeita o Brasil, a gente vai amassar a Bélgica, a camisa pesa!”. Pois é, até que fazia sentido esse raciocínio, ao ver uma seleção que teve dificuldades contra em superar o Japão.

No entanto, coloquei em mente que o hexa não viria. E quando vi o sorteio dos possíveis encontros antecipei aos meus amigos e familiares: “A Bélgica vai eliminar o Brasil nas quartas!”. No dia do jogo, em nosso bolão via um aplicativo, convicto da eliminação brasileira coloquei Bélgica 2 x 1 Brasil. Alessio e Daniel, que também fazem parte do FNV podem comprovar.

O JOGO

Há instantes de começar a partida, meu tio conhecido como ‘Querino', chegou em casa para assistir o jogo. Mas ele não sabia de duas coisas: que meus país não estavam em casa, e que eu iria torcer para a Bélgica. Então começou o jogo e logo fiquei tenso. A narração de Galvão Bueno é coisa de outro mundo, é difícil de explicar o quão ela está diretamente ligada nos jogos da Seleção Brasileira. E eu ali, pela primeira vez, torcendo contra o ‘meu Brasil’ que me fez chorar em 2010 contra a Holanda, e no qual acreditei na virada sobre a Alemanha, mesmo indo para o intervalo com 5 x 0, em 2014…

Com pouco mais de um minuto De Bruyne arriscou de fora da área e Galvão já havia avisado: “A primeira tentativa de De Bruyne, ele é perigoso na finalização...”. E o Brasil respondeu com Thiago Silva, após escanteio cobrado por Neymar, e inexplicavelmente a bola tocou a trave e não entrou, logo vem o ‘grito': “Na traveeeeeeee…”. Certamente, ali faria com que o jogo fosse outro, mas a bola não entrou.

BÉLGICA 1 x 0

Então, tínhamos ali, o Brasil de Tite pressionado para dar uma resposta e fazer jus a camisa e tradição brasileira. Por outro lado, a Bélgica estava sem pressão nenhuma no duelo, afinal, perder para o maior campeão da competição é mais que compreensível, mas sabendo que é o momento único para consagrar a tal geração foi quem abriu o placar.

E se o capitão Thiago Silva não fez a favor, para mim, Fernandinho fez o favor de mandar contra o gol de Alisson, para sua infelicidade com o braço direito, depois de um leve desvio de Kompany, seu companheiro de Manchester City. Era o segundo jogador a marcar um gol contra com a camisa da seleção, o primeiro foi Marcelo contra a Croácia, na Copa de 2014.

Eu não sabia qual seria a minha reação, mas após o gol comemorei como se fosse um gol do meu clube de coração, indo no ‘sobrado’ de casa gritando o clássico: “CHUPAAAAAA”. E meu tio estava no Sofá, completamente decepcionado, com o Brasil e comigo, é claro. Então, uma novidade para a seleção de Tite: era apenas a terceira vez que saía atrás do placar. Naquele momento nada estava dando certo aos brasileiros.

FERNANDINHO NÃO FEZ A FALTA E…

Em casa estava com problemas no sinal do aparelho, e em algumas jogadas de ataque ficava sem saber o que acontecia, mas saberia que se escutasse gritos de comemoração do lado de fora seria o gol do Brasil. Mas no momento do contra-ataque puxado por Lukaku não tive nenhum problema com o sinal. E lembra do aviso do nosso querido Galvão Bueno com um minuto de jogo? Pois é…

Enquanto Neymar recebia atendimento médico, Marcelo deu liberdade e De Bruyne mandou uma bomba da entrada da área para o gol: Bélgica 2 x 0. Alguns colegas corintianos disseram que se fosse o Cássio no gol, o gigante alvinegro defenderia, mas acredito que não, foi uma excelente finalização do craque belga do City. E novamente comemorei igual um louco, sabendo que eu estava certo, que o Brasil seria eliminado pela a Bélgica.

Mas ainda tem muito jogo, Thiago”, disse meu tio, enfurecido comigo por torcer contra a Seleção Brasileira e com o sinal do aparelho que fazia com que de forma reiteradamente, há todo momento aparecesse na tela: FALHA NA CONEXÃO. Pouco tempo depois as equipes foram para o intervalo, com meu tio Querino aborrecido, no português correto, “puto da vida’’ deixando minha casa por conta do sinal e da minha torcida a favor do belgas (risos).

O 2º TEMPO

Foi um momento em que aproveitei para zoar os colegas nos grupos do WhatsApp, brincando: “Eu avisei, hein, rapaziadaaaaa?”. E as respostas eram “Ainda tem jogo, relaxa”. Na volta, finalmente saiu Wilian, quem mais pouco fez em todos os jogos do Brasil. Em sua vaga entrou Firmino, com isso Gabriel Jesus passou a jogar pelo lado, até os 12 minutos do 2º tempo, quando entrou Douglas Costa. Antes disso, Jesus havia sido ‘derrubado' por Kompany, dentro da área, depois de tocar entre as pernas de Vertonghen, mas o VAR nada marcou. Particularmente, eu também não marcaria pênalti, porque o brasileiro tocou a bola de lado e esperou o contato.

O BRASIL DIMINUIU

Douglas deu um gás novo para o ataque, e aos 16′, depois de um chute seu cruzado, Cortuois espalmou dentro da pequena área, e Paulinho não conseguiu rebater. Não era para acontecer. E aí subiu a placar, sai Paulinho e entra Renato Augusto, ambos questionados por jogarem no futebol chinês e estarem na seleção. Três minutos depois, iluminado Renato diminui de cabeça, depois de um cruzamento de Coutinho.

E o Galvão empolgou: “OLHU GOL, OLHU GOL, OLHU GOL… Renato Augusto é nome deleee. Brilhou a estrela do Tite… TEM JOGO! TEM JOGO!”.

De fato a Bélgica sentiu. E no lace seguinte, Firmino quase empatou. Bombardeio! Coutinho tocou para o Renato Augusto, com liberdade, dominou ajeitando para finalizar e… Naquele momento a sensação para TODO MUNDO é de que o empate viria. Também confesso que naquele lance meu instinto brasileiro falou mais alto e torci para a bola entrar. Tite, inclusive, já estava embalando a corrida para comemorar, mas a bola não entrou…

E o sentimento foi “PQP, como não? Eu vi essa bola entrar!”. Mas não foi o último lance do jogo, Neymar fez jogada pela esquerda e ajeitou para Coutinho, e o camisa 11 virou muito o pé, mandando longeeee demais da meta. Acredito que Neymar sofreu pênalti de Meunier depois do cruzamento de Fágner, mas novamente o VAR não viu o toque em suas costas como faltoso. E o camisa 10 também deu o último chute no gol, quando Cortuois voou para defender de “mão trocada”, deixando claro que o Hexa não seria conquistado na Rússia.

EU JÁ SABIA!

Enfim, eu estava certo, “comprei uma briga” contra as ideias de Tite na seleção e fui até o fim. Um desfecho triste para os outros milhões de torcedores brasileiros. E eu me questiono, Fernandinho foi crucial na eliminação, e como era de se esperar Willian novamente não fez nada. Restou Taison, o qual Tite teve a coragem de falar que o atacante, do Shaktar da Ucrânia, era um jogador versátil, então, oras, por que diabos não utilizou em nenhum dos jogos quando precisou? Bizarro.

E meu tio Querino… Semanas depois disse que me entendeu, e que não torceria mais para a Seleção Brasileira com Tite e Neymar por lá. Eu por outro lado, torço e muito pelo Neymar, e até torci para o Brasil na Copa América, que veio a conquistar em 2019. Principalmente no jogo contra a Argentina, fui mais brasileiro do que nunca… Enfim, estou aguardando a Copa no Catar, e quem sabe eu possa estar in loco, acompanhando bem de perto o Hexa?

Até porque EU JÁ SABIA que em 2018 ele não viria na Rússia…

Foto em destaque: Murad Sezer/Reuters

Thiago Lopes
Thiago Lopes, 20 anos. Estudante de jornalismo - 6º semestre.

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