81 anos de Edgardo Andrada: goleiro do gol 1.000 de Pelé

Uma imagem, um lance definem um jogador? Na noite de 19 de novembro de 1969, no Maracanã, Edson Arantes do Nascimento, de pênalti, marcava seu milésimo gol como atleta profissional. Por minutos, o mundo parou para reverenciar o Rei do futebol. Também protagonista do momento que entrou para a história, mas esquecido em meio aos repórteres, socando o chão, surgia a imagem de Edgardo Andrada, então goleiro do Vasco. Eternizado como o “homem que sofreu o gol mil de Pelé“, Andrada foi além de uma jogada histórica, se tornou um dos maiores arqueiros argentinos de todos os tempos e um dos que mais vestiu o manto da Cruz de Malta.

Nesta quinta-feira (2), El Gato completaria 81 anos, mas sua morte em 3 de setembro do ano passado encerrou uma bela história que agora apenas os almanaques do futebol podem contar. Dessa forma, a Coluna Catimbando dessa semana traz um pouco da vida e da trajetória futebolística de Edgardo Andrada. Injustiçado pelo lance, ele provou ser maior que um instante e foi ao encontro da escola argentina de goleiros, mostrando ser bom com os pés tanto quanto era com as mãos.

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ANDRADA DO ROSÁRIO E DA SELEÇÃO ARGENTINA

Assim, Edgardo Norberto Andrada nasceu em 2 de janeiro de 1939, em Rosário, na Argentina. Revelado pelo clube local, o Rosário Central, na virada dos anos 50 para 60, o menino Andrada largou o basquete e a arquitetura para se dedicar ao futebol. Logo, o desempenho no juvenil começou a chamar atenção e ele foi promovido ao elenco principal dos Canallas. No entanto, nos primeiros jogos, sofreu uma acachapante goleada de 11 x 3 para o Racing, na que é até hoje a maior derrota do Club de Che Guevara. Naquela época, a equipe levava muitos gols, mas não, necessariamente, por culpa do goleiro, que evitava derrotas maiores.

Apesar do fraco desempenho, tecnicamente, do clube de Rosário, as boas atuações o levaram para a Seleção Argentina já em 1961. A estreia foi no amistoso contra o Paraguai por 5 x 1, mas tarde demais para uma convocação para a Copa de 1962. Na sua segunda temporada pelos Canallas, já conquistou a 5ª posição do Nacional e, assim, Andrada foi novamente convocado ao selecionado, conquistando a Copa Dittborn em cima do Chile. No ano seguinte, disputou a Copa América e a Copa Roca pela seleção. O Jornal dos Sports destacava as “defesas portentosas” do goleiro argentino, “causando sensação pelos voos nas bolas mais difíceis“.

A melhor fase de Andrada pelo Rosário

Dessa forma, até 1965, o Rosário Central fez campanhas medianas, não passando do 10º lugar. Tal fato, afastou Andrada da seleção que, agora, tinha o gol sendo revezado por Amadeo Carrizo, o maior goleiro do país, e Antonio Roma, arqueiro do Boca Juniors. No inicio de 1966, ele teria sido convocado para a Copa do Mundo, mas uma fratura em um dedo o fez ser cortado às vésperas do torneio. Após, ressurgiu para o futebol, juntamente com o clube. Em seguida, chegou as fases agudas do Metropolitano de 1967 e terminou no G4 do Campeonato Argentino. Assim, reapareceu na seleção em 1968.

81 anos de Edgardo Andrada: goleiro do gol 1.000 de Pelé
Andrada pelo Rosário Central (Reprodução/Revista El Gráfico)

Na volta ao gol argentino, a sensação entre torcida e imprensa era que Andrada seria a aposta para a próxima copa, em 1970. Dessa maneira, passou a atuar mais pela seleção e conquistou a titularidade. Pelo Rosário Central, repetiu boas atuações e campanhas históricas, no entanto sem títulos. Aos poucos, foi se tornando o segundo jogador canalla mais vezes cedido ao escrete argentino, atrás de Harry Hayes, maior artilheiro do clube, e, após, por Mário Kempes.

OS ANOS NO BRASIL: VASCO DA GAMA

Milésimo gol de Pelé

Não é de hoje que a federação argentina é atabalhoada. Na época de Andrada, era comum os jogadores deixarem a Argentina para se distanciar da AFA, mesmo que isso representasse não ser convocado para a seleção. Esse foi o destino do goleiro ao aceitar proposta do Vasco da Gama, em 1969. Sua estreia pelo clube carioca foi na derrota para o Flamengo por 3 x 0 pelo Estadual daquele ano. Na mesma temporada, veio o lance que marcaria toda sua carreira. Na marca da cal, Pelé converteu o pênalti no canto esquerdo do goleiro, que caiu para o lado certo, mas não pegou o chute. Estava anotado o milésimo tento do Rei do Futebol e uma sina que lhe seguiria pelos anos futuros.

Andrada, realizando talvez a maior exibição de um goleiro este ano no Estádio Mário Filho, valorizou ao máximo o feito de Pelé. Uma de suas defesas foi colossal: encobrindo a barreira humana que lhe impediam os passos, Pelé tocou sutilmente a bola com efeito, fazendo-a descair no ângulo direito. Quando o estádio se levantava no grito de gol, Andrada surgiu voando no lugar impossível para tocar a bola e desviá-la do caminho de suas redes. Mesmo no pênalti, pulou certo para o lugar exato. Mas se defendesse, não seria apenas um magnífico goleiro; seria, sim, um gênio à altura de quem cobrou“, destacou o Jornal dos Sports, no dia seguinte ao gol mil.

Os títulos e a idolatria vascaína

No entanto, pelas graças dos deuses do esporte bretão, Andrada foi mais que isso. No ano seguinte, já se consagrava campeão carioca pelo Vasco e iniciava assim uma bonita história pelo Gigante da Colina que durou até 1975. Suas atuações pelo clube carioca renderam até pedidos de naturalização por parte de leitores da Revista Placar, à época. Assim, mesmo quando os cariocas saíam derrotados, a torcida poupava o goleiro das críticas. Algumas avaliações apontavam:

“(…) num time que teve vários erros durante todo o jogo, foi o menos culpado. Os três gols que levou não tinham a mínima possibilidade de defesa.

Se não fosse o Andrada, coitado do Vasco. Tivemos melhores oportunidade de gol, mas o Andrada estava com a cachorra. Como pegou!” – lamentou o técnico do Flamengo, Paulo Henrique, após empate em 0 x 0.

Andrada é um excelente goleiro que chega até a fazer milagres. Como posso garantir que vou marcar um gol, sabendo que o goleiro deles é o Andrada?“, afirmou o craque Edu-irmão-de-Zico.

Dessa forma, em 1971, foi premiado com a Bola de Prata da Revista Placar como o melhor goleiro do Brasileirão. Com isso, se tornou o primeiro argentino contemplado e o segundo estrangeiro, antes Reyes havia levado o troféu. Nos anos seguintes, embora não mais convocado para a Seleção Argentina, Andrada seguiu se destacando no Vasco. Em 1973, participou do jogo de despedida de Garrincha pelo Brasil. Na sequência, após campanhas ruins, o Cruz-Maltino, finalmente, conquistou o Brasileiro de 1974 com grandes exibições do argentino.

https://twitter.com/VascodaGama/status/1169600638675771392

O FIM DE CARREIRA DE ANDRADA

Após passagens marcantes por Rosário Central e Vasco, se transferiu para o Vitória-BA, em 1976. Antes de encerrar a carreira na Argentina, atuou por Colón e pelo desconhecido Renato Cesarini e aos 43 anos pendurou as luvas, em 1982. Em seguida, algo mancharia sua biografia: uma ligação com a ditadura argentina. Ele foi acusado de violação dos direitos humanos por participação na ditadura militar de seu país, envolvido em sequestros e nas mortes dos militantes Osvaldo Cambiasso e Eduardo Pereyra Rossi, em 1983. Pois, o ex-goleiro era membro do setor de inteligência do exército, o PCI. No entanto, Andrada negou envolvimento nos assassinatos.

Em 2007, voltou a trabalhar com o futebol sendo preparador de goleiros do Rosário Central e, em 2012, foi inocentado por falta de provas contra ele nos crimes da ditadura. No entanto, sua imagem na Argentina já estava maculada e teve que se afastar do trabalho no clube que o projetou profissionalmente. Foi esquecido nas edições especiais da Revista El Gráfico como um dos maiores ídolos do Rosário Central e do Colón. Muitos torcedores atestam sua brilhante passagem pelos clubes, mas fazem ressalvas ao caráter do ex-goleiro. Um fim de carreira manchado e uma morte não noticiada pelos clubes argentinos em que passou.

No fim das contas, o gol mil foi uma nota de rodapé no imaginário de nossos hermanos.

Foto Destaque: Reprodução / Futebol Portenho

Ricardo do Amaral

Ricardo do Amaral

"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 29 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."