Tudo ou Nada: Seleção Brasileira – O início do Enea da América

Nesta terça-feira (23), a coluna Futflix chega à segunda parte do especial sobre a série documental Tudo ou Nada: Seleção Brasileira. Assim, produzida e disponibilizada pela Amazon Prime Vídeo, a obra apresenta os bastidores da conquista da Copa América, em 2019. Logo, na primeira parte, apresentamos os principais destaques do episódio I. Dessa vez, o foco é nos episódios II e III que mostram a reta final até a estreia, as dificuldades na primeira fase e a classificação dolorosa para a semifinal. No entanto, é neste ponto que a série tem sua barriga, sem maiores fatos relevantes, fica carecendo de atrativo e perde-se qualidade de material.

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR POSSUI SPOILER. CASO NÃO QUEIRA PERDER SUA EXPERIÊNCIA, ASSISTA A SÉRIE E VOLTE DEPOIS PARA LER.

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COMO SUPERAR A PERDA DE NEYMAR?

No episódio II, após a vitória no amistoso contra o Catar, o grande dilema do técnico Tite era encontrar alguém para o lugar do principal jogador da Seleção Brasileira. Mas, como se substitui quem é tido como insubstituível? Entre as grandes lições dessa Copa América, essa foi a maior: ninguém é insubstituível. Apesar das críticas quanto a ser um jogador mediano, sem grande brilho com a Amarelinha ou até mais do mesmo, Adenor convocou o meia Willian e para vestir a camisa 10.

Assim, Willian deixou as férias nos Emirados Árabes para encontrar a Seleção Brasileira partindo para o Rio Grande do Sul, onde faria o segundo amistoso. Logo, o duelo contra Honduras seria no Beira Rio, palco onde o goleiro Alisson, do Liverpool, viveu grandes emoções pelo Internacional. Dessa forma, um dos atuais campeões da Champions League virou personagem para a série contar sua trajetória desde a relação com o irmão Muriel, também goleiro, às lembranças com a camisa colorada.

Logo, com os treinos apinhados de torcedores, o austral da Seleção Brasileira era positivo após a chegada de Willian e dos vencedores da Liga dos Campeões. Assim, a alegria dos treinamentos se traduziu em gols na partida com um sonoro 7 x 0 e nem de longe parecia uma equipe abatida com o corte de seu principal jogador. Apesar da lesão inicial do volante Arthur, do Barcelona, a Canarinha seguia firme. Agora, era oficial, a competição ia começar e o grupo tinha abraçado Tite para buscarem a conquista.

Willian em campo pela Seleção Brasileira (Foto: Reprodução / Rahel Patrasso / Xinhua)
Willian em campo pela Seleção Brasileira (Foto: Reprodução / Rahel Patrasso / Xinhua)

AS DIFICULDADES CONTRA BOLÍVIA E VENEZUELA

Com o Brasil mergulhado em protestos contra o governo federal, Tudo ou Nada: Seleção Brasileira discute, ainda que brevemente, a simbiose entre a camisa verde e amarela e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Assim, superada esta fase, começam os erros inevitáveis e escusáveis da série documental. Isso porque, a Amarelinha iniciou a Copa América com um baixo desempenho. Apesar da vitória por 3 x 0 na estreia diante da Bolívia, empatou com a Venezuela no segundo confronto em 0 x 0.

Sem uma grande história para contar da estreia e, principalmente, da segunda partida, o grande trunfo do episódio II está em nos colocar dentro das conversas de vestiário. Assim, é nesse momento que percebemos a força motivacional do técnico Tite e as estratégias para fazer a Seleção Brasileira voltar mais forte no segundo tempo contra a Bolívia. Antes, mas também após a entrada de Everton Cebolinha, a equipe cresceu e a torcida saiu feliz, após vaias no intervalo.

Dessa forma, a segunda parada da Copa América foi em Salvador, na Bahia, terra do lateral-direito Daniel Alves, então no PSG. Assim, a série aproveita para apresentar sua identificação com Juazeiro e a relação com o pai, levando a família para a Arena Fonte Nova. Novamente, com um adversário fechado, o lado positivo do final do episódio é os comentários do técnico Tite à respeito das dificuldades enfrentadas, como a anulação, pelo VAR, de três gols brasileiros.

Seleção Brasileira comemora vitória na estreia da Copa América (Foto: Reprodução / Rahel Patrasso / Xinhua)
Seleção Brasileira comemora vitória na estreia da Copa América (Foto: Reprodução / Rahel Patrasso / Xinhua)

“ESTÁ NA SELEÇÃO É VIVER UM SONHO”

Talvez, em seu capítulo mais deficitário, Tudo ou Nada: Seleção Brasileira escancara a falta de atrativo da campanha no episódio III. Isso porque, faz uso do saudosismo e da afetividade para preencher tempo de fita. Assim, realiza uma defesa indireta contra as críticas de que os jogadores atuam burocraticamente com a camisa verde e amarela em detrimento aos clubes. Ainda, apresenta como o grupo recebeu Neymar em uma visita de acompanhamento médico.

TITEBILIDADE

Devido a isso, novamente, o atrativo verdadeiro é as reuniões técnicas de Tite e comissão para definição de estratégias e estilos de jogo. Assim, em salas isoladas, o grande barato da série é nos colocar, minimamente, dentro das discussões. Na terceira partida, encontrou um velho conhecido e que lhe proporcionou a então maior conquista na carreira: Paolo Guerrero. Logo, o treinador sabia como enfrentar o autor do gol do título mundial pelo Corinthians. No entanto, o Peru vinha em uma crescente com Ricardo Gareca e a volta às copas do mundo após 36 anos.

No entanto, o Brasil de Tite aplicou uma acachapante goleada de 5 x 0 na Seleção Peruana em um jogo controlado e tornado fácil pela formação colocada pelo treinador. Assim, nesse momento, pegando muleta na afetividade, a obra tenta extrair emoção de onde não se tem ao render dilemas pela perda de um pênalti por Gabriel Jesus. Logo, mais uma vez, o trunfo é nos tornar mais próximos das tomadas de decisão de Tite, como a logística no intervalo.

https://www.youtube.com/watch?v=N9CWUtQKiLk

O TRAUMA DOS PÊNALTIS CONTRA O PARAGUAI

Assim, superada a fase de grupos, a Seleção Brasileira enfrentaria, nas quartas de finais, o Paraguai e o fantasma das eliminações em 2011 e 2016. Além disso, novamente, nos pênaltis, as dificuldades começariam desde o gramado da Arena do Grêmio que, em condições ruins, preocupavam a comissão técnica. Logo, superando a agressividade e a catimba paraguaia, só não maiores que de Argentina e Uruguai, o Brasil sofreu no tempo regulamentar. Pois, criava e produzia até mais que na goleada passada, mas a bola não entrava.

Dessa forma, a decisão foi para as penalidades. Nesse momento, a maior revelação do episódio III é nos apresentar o trauma de Tite com os pênaltis. Enquanto jogador, Adenor vivenciou muitas frustrações com decisões dessa espécie e, em uma delas, quase causou um acidente que poderia ter sido fatal para ele e a esposa. Logo, sem lidar com a situação, a definição dos batedores coube ao auxiliar e, no chute derradeiro, Gabriel Jesus cobrou e classificou a Seleção Brasileira para a semifinal.

Por fim, a decisão de colocar um tom dramático quanto ao pênalti perdido por Gabriel Jesus fora de contexto emocional impediu um final sentimental através da classificação suada. Assim, os episódios II e III entram para a conta como os mais fragilizados de Tudo ou Nada: Seleção Brasileira. Seja pelo conteúdo em si para explorar, seja por um descuido de montagem da produção. Apesar disso, ainda viria a Argentina e a grande final pela frente.

Assuntos para outra edição da Futflix.

Gabriel Jesus comemora após classificação da Seleção Brasileira (Foto: Reprodução / Gustavo Granata / Uaifoto / Folhapress)
Gabriel Jesus comemora após classificação da Seleção Brasileira (Foto: Reprodução / Gustavo Granata / Uaifoto / Folhapress)

Foto destaque: Divulgação / Amazon Prime Vídeo

Ricardo do Amaral

Ricardo do Amaral

"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 29 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."