Antes de mais nada, o Atlético-MG faz uma campanha elogiável no Brasileirão 2020. 3º colocado, o Galo ainda brigou pelo título da competição com Internacional e Flamengo. Todavia, as expectativas eram altas quanto ao desempenho do time com o técnico Jorge Sampaoli. Ausente da Copa Libertadores e eliminado precocemente na Copa do Brasil pelo Afogados, esperava-se que o Campeão do Gelo nadasse de braçada no Campeonato Brasileiro. No entanto, o Atlético-MG perde demais e deixa a desejar no pelotão de frente. Desse modo, nossa análise de hoje vai pautar as explicações táticas para o aparente insucesso atleticano.

O projeto ousado do Galo

Desde o início da temporada, o Atlético-MG buscou se reposicionar dentro do futebol brasileiro. Com um maior potencial de investimento, o Galo trouxe a proposta de peitar os orçamentos de Flamengo e Palmeiras. De certo modo foi bem sucedido, afinal El Mineiro se classificou para a próxima Libertadores da América com relativa tranquilidade.

Além disso, o Atlético-MG tem no horizonte a construção de seu estádio próprio: a Arena MRV. Dessa forma, mais autonomia na gestão dos recursos financeiros do clube. A ideia é que o Galo Forte Vingador se mantenha – a longo prazo – no rol de candidatos aos títulos: Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão.

A vinda de Sampaoli

Um acontecimento surpreendeu muita gente ano passado. A recusa de Sampaoli ao chamado do Palmeiras e sua posterior aceitação ao convite do Atlético-MG. O argentino preferiu topar um desafio mais áspero e sofre com os pormenores que marcam a caminhada do Galo. A meu ver, o fator oscilação pesa demais contra o clube mineiro.

Não falo só de resultado, mas da própria confusão causada pelas variações táticas de Sampaoli. O objetivo de confundir os adversários é inteligente. Em contrapartida, os atletas podem não assimilar tão bem tais mudanças a cada jogo. Em síntese, o Galo Forte Vingador é o maior prejudicado por essa metamorfose.

A insistência no 4-1-4-1

Em 11 jogos do Brasileirão 2020, Sampaoli optou pelo equilibrado 4-1-4-1. O Galo Doido venceu Coritiba (duas vezes), Vasco e Goiás. Empatou com Fluminense, Sport e Ceará. Por fim, perdeu para Fortaleza, Bahia, Palmeiras e Athletico-PR. Desse modo, podemos concluir que esse esquema tático foi suficiente para derrotar os candidatos ao rebaixamento.

Contudo, em partidas mais truncadas o Atlético-MG sucumbiu. Por outro lado, temos uma boa explicação para isso. Nesses jogos, o Galo quase nunca repetiu as suas linhas de quatro. Sem entrosamento, o time de Sampaoli não pôde construir um perfil tático sólido a partir dessa formação. Em suma, a inconsistência.

O sucesso do 4-2-3-1

Sobretudo, o 4-2-3-1 foi um esquema que funcionou bem. Utilizado nove vezes, trouxe sete vitórias (Ceará, São Paulo, Grêmio, Corinthians, Athletico-PR, Santos e Fortaleza). Entretanto, também perdeu para Botafogo e Santos. Inclusive na partida contra o Fogão, o Galo desferiu incríveis 31 chutes a gol. Insuficiente para o triunfo mineiro.

A variedade de peças no elenco atleticano permite que seu treinador teste um mesmo jogador em várias funções. Alan Franco joga pelo corredor central, mas já foi deslocado para a ala-direita. Hyoran é o coringa de Sampaoli. Meia de criação, já jogou recuado como 2º volante e também adiantado no setor de ataque.

O Galo no 4-3-3

Ofensivo, esse modelo foi praticado por Sampaoli apenas cinco vezes. Com ele, o Galo ainda não perdeu. Derrotou Corinthians e Atlético-GO (duas vezes), além dos empates diante de Bragantino e Grêmio. A proposta é clara: manter a solidez defensiva, distribuindo o jogo com a trinca da meia cancha para municiar os três atacantes.

Nos últimos jogos, Keno, Vargas e Savarino formaram a linha de frente. O Atlético-MG rende bastante quando eles trabalham juntos. Cresce o controle da posse de bola e fica mais fácil dominar o campo. A partir da imposição física, o Galo desmonta a defesa adversária e parte para matar o jogo. Desse modo, a marcação alta vai sufocando os rivais.

O Galo no 3-5-2

Sampaoli escolheu esse esquema tachado de retranqueiro quatro vezes. Nesse sentido, equilíbrio total. Pois o Galo Forte Vingador venceu Flamengo e Bragantino, ao passo que perdeu para São Paulo e Goiás. Não é possível fazer uma avaliação precisa e continuada, visto que o técnico atleticano foi incapaz de repetir uma mesma linha nas escalações.

Contudo, a derrota para o Esmeraldino trouxe um ponto importante. O Atlético-MG tem sofrido com a posse de bola improdutiva. Embora seja conhecido por trocar muitos passes, o Campeão do Gelo atingiu a marca de 819 toques na bola diante do Goiás. Deu 19 chutes e nenhum entrou no gol. Sobra cadência, falta objetividade.

As loucuras de Sampaoli

Vamos terminar o texto tratando das variações táticas incomuns do Galo. Contra o Internacional, lançou mão do inusitado 3-4-1-2. A proposta defensiva não funcionou. Muita circulação de bola atrás, e o Inter levou os três pontos. A vitória mais emblemática veio no 3-4-3: 4×0 no Flamengo de Domènec Torrent. Pasmem, o Atlético-MG só teve 30% de posse de bola!

A princípio, a distribuição do jogo deu certo com as espetadas laterais. Por um lado, Arana e Keno. Pelo outro, Guga e Savarino. Na vitória sobre o Botafogo, o 3-2-4-1 contou com as descidas de Keno e Savarino. Sasha foi ponta de lança. Todavia, o 3-1-4-2 foi o desenho no empate contra o Inter e na derrota para o Vasco. Nesse padrão, o jogo depende muito do volante cachorro e tende a travar a saída em velocidade.

Foto destaque: Divulgação/Lance

André Filipe
André Filipe
Apaixonado pela dimensão histórica do futebol e pela ciência da bola. Gremista desde a Batalha dos Aflitos para o que der e vier. Sinto na escrita o calor latente das minhas paixões profissionais. Historiador, jornalista esportivo e jogador de pôquer nas horas vagas.