Pelé: A Origem recria partes da infância de Edson Arantes do Nascimento (Foto: Divulgação / Amazon Prime Vídeo)

Jogar bem, muitos fazem. Ser campeão por onde passa, alguns conseguem. Se tornar ídolo de grandes clubes, poucos realizam. Mas, de fato, imortalizar uma camisa, ser sinônimo de genialidade e o parâmetro eterno para tudo que lhe suceda, apenas Pelé. Assim, na semana em que se comemora os 80 anos do rei, a coluna Futflix volta no tempo para recomendar o documentário Pelé: A Origem, disponível no Amazon Prime Vídeo.

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PELÉ E DONDINHO

Logo, lançada em 2019, a obra parte da lâmpada idealizada por Thomas Edison para dar luz e brilho a uma história até pouco conhecida. Isso porque, neste filme, não veremos a jornada de gols, títulos e glórias esportivas de Pelé. Mas, sim, a trajetória de um menino chamado Edson, de uma pequena cidade brasileira. Logo, no caminho, o garoto supera todos os limites impostos pelo racismo para se tornar o primeiro negro, de fato, ídolo mundial e amado por toda a humanidade.

Assim, muito devido a curta duração de apenas 44 minutos, Pelé: A Origem não detalha a caminhada do menino que se tornaria rei do futebol. Logo, se limita a dar pinceladas de sua infância. Embora algo que tire o brilhantismo da experiência, certamente, foi pensado e planejado pelo diretor Luiz Felipe Moura. No entanto, ainda está lá exemplificações do racismo enfrentado, da resistência da mãe ao querer ver um filho “doutor” e o sonho do pai, João Ramos do Nascimento, o Dondinho.

Inclusive, Dondinho é o mote central do documentário dramático. Pois, misturando imagens reais com recriações, o filme apresenta um pouco mais da relação entre Edson e seu pai, igualmente, jogador de futebol, e dos melhores, em Bauru. Logo, é a partir dele que surge no menino Edson o sonho de ser jogador de futebol, ainda nos campos batidos de terra. Embora, principalmente, em uma época em que o futebol era elitista e onde o negro ficava a margem de qualquer chance de sucesso.

Pelé e Dondinho, seu pai (Foto: Reprodução / Acervo Pelé)
Pelé e Dondinho, seu pai (Foto: Reprodução / Acervo Pelé)

A LUTA PARA ROMPER COM O FUTEBOL ELITISTA

Dai o medo da mãe do garoto que não queria ver o filho passar pelas dificuldades e barreiras que Dondinho teve que enfrentar para ser reconhecido, ainda que localmente. Além disso, insistente como todo brasileiro, Edson encara o racismo mascarado de bullying para manter o sonho de ser jogador de futebol. Ainda assim, com a participação negra na jornada bem sucedida da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938, então melhor campanha, os negros ganharam mais espaços nos campos.

Todavia, e é onde Pelé: A Origem vai beber, o Maracanazo na Copa do Mundo de 1950 fez recair, preconceituosamente, a culpa em quem com sua habilidade peculiar queria apenas oportunidades. Assim, talvez no melhor momento da fita, o diálogo entre Dondinho e Edson sobre o futuro dos negros no esporte comove, reflete e serve de mola de impulsão para o garoto decidir realizar o sonho do pai. Logo, na famosa história de que Pelé prometeu ao pai que ganharia uma copa do mundo para dar-lhe de presente. No fim, o que aconteceu oito anos depois, todos sabem.

PERSONAGEM GENIAL, OBRA NEM TANTO

Embora com uma abordagem diferente dos produtos já produzidos sobre Pelé, a obra não fica imune a erros de roteiro e de construção da proposta. Pois, se sua abordagem simplista e pouco detalhada foi uma escolha do diretor, a encenação de partes da infância de Edson ganha ares de forçação. Isso porque, as expressões dos atores aparentam artificialidade, sem o que não se torna crível acreditar no que é recriado. Algo que em algum aspecto deve ser relevado devido ao filme ser uma produção independente.

No entanto, Pelé: A Origem peca na sua construção narrativa e no ritmo de execução. Pois, ao preferir enxugar a história e se limitar a breves exemplos da infância, acaba desperdiçando uma boa oportunidade de a conhecermos mais à fundo. Além disso, por mesclar a recriação com imagens reais, acaba perdendo ritmo e, em certos momentos, se tornando massante, apesar da curta duração. Por fim, ainda fica a sensação de quando a obra engrena, ela chega ao seu fim.

Talvez por isso, os pontos fortes da fita sejam os depoimentos de Pelé contando um pouco mais sobre o que é visto em tela. Assim, apesar do tom pouco credível da encenação, o fato do próprio personagem do filme está presente nele nos dá a credibilidade necessária para comprar a ideia da produção. No fim, Pelé: A Origem funciona como um bom ponto de partida para vermos não apenas o rei do futebol, mas, sim, conhecermos o menino Edson e sua batalha para entrar no esporte.

Foto Destaque: Divulgação / Amazon Prime Vídeo

Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 29 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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