Antes de mais nada, gostaria de dizer que este texto também é um desabafo. Não sou palmeirense, mas acredito que depois de ler essas breves considerações sobre o Porco muita gente que veste verde ficará de alma lavada. Na última semana, o Palmeiras eliminou o Atlético Mineiro e se classificou para a final da Libertadores. Apesar de ser o atual campeão da competição, o time de Abel Ferreira era comumente tratado como azarão no confronto. Mostrou em campo que é um dos centros de referência no futebol sul-americano e cala – pelo menos por enquanto – as vozes dissonantes que não respeitaram a tradição do Verdão. O Palmeiras tem um projeto audacioso, talvez disponha da melhor estrutura no país e consegue encher sua galeria de troféus. Em síntese, por que ainda é tão subestimado?

O projeto de uma hegemonia

Inicialmente, precisamos relembrar que desde 2015 só houve duas temporadas nas quais o Palmeiras não beliscou uma das três principais competições: Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil. Em tese, isso deveria aliviar a pressão – seja ela interna ou externa – em relação ao Porco. Contudo, teve o efeito reverso. Nesse sentido, a proposta da equipe é brigar por tudo até o final e construir uma hegemonia na América do Sul a longo prazo. Na temporada passada conquistou ambas as copas. Por outro lado, a troca na presidência do clube eleva as expectativas quanto ao futuro do Palmeiras. Fico extremamente feliz com a ascensão de Leila Pereira (a mandatária da Crefisa é a única candidata e toma posse em dezembro). Precisamos de mais mulheres no comando dos times de futebol.

Qual o DNA do Palmeiras?

A princípio, alguns elementos caracterizam a cultura futebolística palestrina. O alto poder aquisitivo marca gerações em um clube que está acostumado a investir alto para somar mais títulos. Basta lembrar da famigerada parceria com a Parmalat nos anos 90. Hoje a Crefisa cumpre esse papel de fiadora do sofisticado plantel palmeirense. Além disso, o Verdão conquistou vitórias importantes nas últimas temporadas. Resgatou a vocação para o mata-mata, conseguiu fundar a 4ª Academia e consolidou cada vez mais a sua escola. No entanto, o futebol do Palmeiras segue criticado. A meu ver, de uma forma muito desleal. Inclusive, o futebol é uma ciência plural que te permite ganhar uma partida de várias maneiras diferentes. Dessa forma, o estilo pragmático, letal e frio representa bem o clube paulista.

O jogo contra o Atlético Mineiro

Saber jogar com o regulamento debaixo do braço é importante em decisões. Além, é claro, da entrega incondicional que requer a máxima disciplina tática. Isso sobrou ao Palmeiras. Afinal, foi até Belo Horizonte e fez o necessário. A crítica de alguns setores da imprensa à escola defensiva que Abel Ferreira busca desenvolver no Verdão ignora que o técnico português foi capaz de entregar resultados consideráveis em um período restrito. A eterna discussão entre o futebol arte e o futebol força ganhou outro capítulo. Jogar bonito ou vencer sem convencer? Dizem que a melhor defesa é o ataque. Será mesmo? O Galo teve uma noite apática, mas até fez uma blitz em determinados momentos. De nada adiantou. Desse modo, triunfou a inteligência tática de Abel. A estratégia precede o espetáculo.

Por que o Palmeiras é subestimado?

Para fins de conclusão, adianto que essa pergunta tem uma resposta não muito complexa. A qualidade do elenco do Palmeiras induz algumas mentes a condicionar isso a um futebol exuberante e vistoso. É verdade que o Flamengo de Jorge Jesus subiu muito o sarrafo em 2019. Atualmente, os principais concorrentes do Porco – o próprio Fla e o Galo – optam por um padrão de jogo mais ofensivo. O Palmeiras pode entregar mais? Evidente. Afinal, todo time está em processo. Seja ele de evolução ou involução. Não acho justo que coloquem o Verdão como terceira força do país devido ao seu modelo tático. Enfim, a equipe terá a oportunidade de repetir vinte anos depois o Boca Juniors de Bianchi que enfileirou duas Libertadores seguidas. Eu não duvidaria do Palmeiras

Foto destaque: Divulgação / Futbox

André Filipe
Apaixonado pela dimensão histórica do futebol e pela ciência da bola. Gremista desde a Batalha dos Aflitos para o que der e vier. Sinto na escrita o calor latente das minhas paixões profissionais. Historiador, jornalista esportivo e jogador de pôquer nas horas vagas.

Deixe um comentário