Antes de mais nada, gostaria de dizer que o título do texto não é uma mera ironia em relação ao poder aquisitivo de Atlético Mineiro, Flamengo e Palmeiras. Realmente essas equipes representam a possibilidade concreta de que haja uma era dourada para os clubes brasileiros em âmbito continental. No entanto, algumas ponderações precisam ser feitas. Para o bem e para o mal. Os três permanecem vivos na Libertadores e possuem os melhores elencos do país. Desse modo, é natural que o potencial de investimento seja convertido em uma pressão natural pela conquista de grandes títulos. Hoje vamos esquadrinhar o momento do Trio de Ouro e como isso reflete fora do campo.

O crescimento do Atlético Mineiro

Falar do Galo é chover no molhado. O investimento aumentou após a equipe bater na trave em 2020 – faltou uma vitória para ser campeão brasileiro. É verdade que a participação de Rubens Menin, mandatário da MRV, dá força política e econômica ao gigante mineiro. A chegada de Diego Costa demonstra isso. O Atlético montou um plantel cascudo que se preparou para disputar todas as taças. Atualmente, o técnico Cuca conta com destaques do calibre de Hulk, Nacho Fernández, Zaracho, Savarino e Vargas. Isso sem mencionar a quase intransponível dupla de zaga Réver e Junior Alonso. Enfim, sobra qualidade e o bom momento faz o Galo ser bafejado pela sorte.

Contudo, o Atlético Mineiro tem os seus esqueletos no armário. Afinal, o peso da maldição do bicampeonato e a dívida bilionária assombram o clube. De certa forma, a primeira pode ser rompida em breve. A Libertadores pode colocar o Galo no patamar de Flamengo e Palmeiras. Pelo menos em termos de conquista. Já a segunda parece ser um problema que a diretoria empurra com a barriga. Nesse sentido, a missão atleticana será jogar sempre com a corda esticada e não deixar a peteca cair. Administrar a liderança do Brasileirão e cortejar a milionária Copa do Brasil talvez dê ao Atlético a temporada perfeita. Resta aguardar…

Renato Gaúcho resgata o Flamengo

Desde a chegada do técnico Renato Gaúcho, o Flamengo parece ter recuperado o futebol vistoso que praticava na época de Jorge Jesus. Trocando em miúdos, goleada virou costume e título é questão de tempo. Porém, não se sabe qual deles virá. Inclusive pode vir nenhum. O desempenho do Mengão deu um salto. Nem mesmo a retumbante e, até agora, única derrota sofrida (0 x 4 para o Internacional, em pleno Maracanã) abalou os ânimos. Implacável nas copas, o Flamengo busca também uma arrancada no Campeonato Brasileiro. É reconhecidamente um time de chegada. A tendência é que se junte a Atlético e Palmeiras, completando o Trio de Ouro na briga pelo troféu.

A mina de ouro do Mengão é a mais óbvia: sua gigantesca e apaixonada torcida. Seja por meio da venda de produtos ou pelo engajamento digital, é ela a mola propulsora da equipe carioca. A boa fase que perdura desde 2019 manteve a nação flamenguista próxima do clube. Por outro lado, a diretoria vez ou outra é alvo de polêmicas a respeito da sua relação com o presidente Jair Bolsonaro. Recentemente, Rodolfo Landim declarou que pretende estar na linha de frente da campanha ao Planalto em 2022. Enfim, como isso vai reverberar no Flamengo é um mistério.

A estranha crise dentro do Palmeiras

A princípio, a fonte de renda do Palmeiras não é um mecenas ou quase 40 milhões de torcedores. Nesse sentido, é a Crefisa que patrocina o sucesso do clube paulista desde 2015. O acordo que gira em torno de R$120 milhões anuais é o patrocínio mais rentável do futebol brasileiro. A parceria já rendeu cinco títulos de expressão: dois da Copa do Brasil (2015 e 2020), dois do Campeonato Brasileiro (2016 e 2018) e um da Taça Libertadores (2020). A empresária Leila Pereira é peça-chave nesse processo de consolidação do fortalecimento do Porco. No comando da Crefisa, a “Tia Leila” pretende disputar as eleições de novembro e assumir a gestão do futebol palmeirense.

Descontando o ambiente político efervescente do Palmeiras, é necessário fazer um contraponto. De antemão, para o plantel que dispõe e considerando o grau de investimento, temos a obrigação de pontuar que esse time pode jogar mais. Não se trata de criticar o estilo conservador de Abel Ferreira. Afinal, o treinador é capaz de obter resultados sem esmagar os adversários. Em primeiro lugar, falta volume de jogo e poder de construção. Posteriormente, o Verdão precisa da prova de fogo. Ela virá contra o Atlético Mineiro, na semifinal da Libertadores. Essa crise é estranha, pois os títulos recentes vão na contramão disso. Todavia, o futebol é ingrato. Um segundo separa o topo do abismo.

O panorama tático do Trio de Ouro

Primeiramente, é relevante colocar que as três equipes do Trio de Ouro se armam de uma forma muito diferente no campo. O Atlético Mineiro conseguiu definir um padrão de jogo a partir da variação entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1. O Galo ganha profundidade com o apoio dos alas ao ponta de lança. Desse modo, Nacho – o meia de armação – volta para fechar a linha intermediária entre os volantes. Contudo, os jogadores de beirada recuam para defender sempre quando preciso. Ou seja, o time se distribui no gramado quando tem de marcar o adversário e ataca em velocidade pelos flancos. Além disso, o Galo usa e abusa dos cruzamentos para fazer a bola chegar em Hulk.

Analogamente, o Flamengo também se equilibrou a partir de uma variação tática. O time de Renato se defende no 4-4-2 e ataca no 4-2-3-1. A depender do adversário, o 4-4-2 prevalece e o Mengão joga com atacantes fixos. A posse de bola qualificada – a que conclui em gol – e a intensidade são as principais características desse time. Por último, o Palmeiras. O Verdão sofre nesse mesmo 4-2-3-1. Consegue vitórias importantes, mas quase nunca com segurança e autoridade. Falta um centroavante que chame a responsabilidade? Talvez. Em contrapartida, gostei de ver o time no 3-4-2-1 durante as quartas de final da Libertadores. Nesse modelo de jogo houve consistência e efetividade.

Nosso veredito sobre o Trio de Ouro

Pegando um gancho no parágrafo derradeiro, creio que se o time do Palmeiras jogar no 3-4-2-1 pode crescer muito. Garante a solidez defensiva com três zagueiros e a proteção adicional de uma linha de quatro. Além disso, a chance de aproximar dois vetores de criação do centroavante mobiliza ofensivamente a equipe de Abel. O caminho é por aí. Afinal, a torcida quer ver o futebol daquele 3 x 0 sobre o São Paulo. Acerca do Galo não tem muito segredo. Dessa forma, evitar uma queda de produção no Brasileirão durante o 2º turno e avançar nos torneios eliminatórios é o objetivo. O antídoto para o veneno do favoritismo é não subir o salto. A reta final exige mais seriedade do que nunca.

À guisa de conclusão, encerro o texto com o badalado Flamengo de Renato. O time que ganha tudo, mas que ainda não ganhou nada. O tricampeonato da Copa Libertadores é uma verdadeira obsessão – parafraseando a máxima palmeirense – e o Mengão está disposto a qualquer coisa por esse troféu. Três partidas e dois adversários o separam desse sonho. Ademais, possivelmente fará uma final histórica contra Atlético ou Palmeiras. Ninguém quer rever o filme de 2020 que tratou o Brasileirão como prêmio de consolação. Sobretudo se considerarmos que o Flamengo subiu muito o sarrafo. Em síntese, o medo de fracassar no fim não deve ser maior que o desejo de fazer história.

Foto destaque: Reprodução/ BrasFutebol

André Filipe
Apaixonado pela dimensão histórica do futebol e pela ciência da bola. Gremista desde a Batalha dos Aflitos para o que der e vier. Sinto na escrita o calor latente das minhas paixões profissionais. Historiador, jornalista esportivo e jogador de pôquer nas horas vagas.