4-2-4: o segredo contra o WM da Europa Ocidental

A coluna Dicionário do Futebol desta semana traz uma das formações mais diferentes da história do futebol: o 4-2-4. Sua origem é discutida entre Brasil e Hungria, entretanto, a formação foi sinônimo de muito sucesso nos anos 50 em ambos os países. Foi criado contra o 3-2-2-3, mais conhecido como formação WM, tradicional no futebol europeu. Além disso, foi um dos responsáveis por consagrar os Mágicos Magiares, esquadrão húngaro na copa de 1954 e o primeiro título dos canarinhos em 1958. Não conhece sobre a parte tática do futebol? Deixa que o dicionário te explica!

O WM EUROPEU

Antes de falarmos sobre o 4-2-4, precisamos conhecer o motivo dela ter existido: o WM europeu. Muito comum no futebol inglês e alemão, essa formação foi criada pelo técnico e professor de geometria Herbert Chapman, treinador do Arsenal em 1925. Com o propósito de se adaptar a uma nova regra, a criação do impedimento, os zagueiros adiantavam-se para tirar o atacante adversário de jogo. Outro ponto interessante é que não apenas mudou a postura defensiva, mas criou uma disposição de dois trapézios isósceles e, em cada trapézio, três triângulos equiláteros que controlavam a troca de passes.

Formação WM. Foto Reprodução: ConceptDraws
Formação WM. Foto: Reprodução/ConceptDraws

Essa tática “inaugurou” a marcação homem a homem. Afinal, a formação clássica 2-3-5 consagrada por Itália e Uruguai, no começo do século, proporcionava um jogo mais ofensivo. Dessa maneira, o desenho em M na defesa dificultava o desempenho de atacantes adversários por esse estilo de marcação individual, congestionando o meio de campo. Dribles e jogadas onde o atleta “carrega” a bola sozinho eram muito comuns, por conta disso, impedir que o adversário criasse oportunidades por essa parte do campo era essencial.

4-2-4: A RESPOSTA

Após o maracanazzo, o Brasil não conseguia se adaptar à proposta ofensiva do Uruguai e nem a rigidez tática dos europeus. Então, uma alternativa para responder a esse sistema era necessário. Foi aí que Martim Francisco, na época treinador do Vila Nova, encontrava-se em um dilema para enfrentar o Atlético Mineiro, que usava o padrão europeu na final do estadual de 1951. A solução, portanto, foi recuar dois zagueiros mais próximos ao goleiro, abrir dois defensores para as laterais, manter os dois volantes controlando o meio de campo e usar quatro jogadores ofensivos. A tática deu certo, o Vila Nova foi campeão do torneio e surgia aí uma resposta para o WM.

Vendo a eficiência da nova disposição tática, o lendário treinador Fleitas Solich decidiu aplicar a formação no Flamengo e, embora novidade, resultou no tricampeonato carioca de 1953, 54 e 55. A grande mudança agora era a criação de um trapézio defensivo e um paralelogramo ofensivo, realizando jogadas de maneiras geometricamente coordenadas. Utilizando esse sistema que o Brasil viveu eras consagradas do futebol. O Santos de Pelé, Coutinho, Pepe e Dorval foi outro time que adotou a formação e se consagrou internacionalmente na década de 60.

o 4-2-4 do Santos de Pelé
O 4-2-4 do Santos de Pelé. Foto: Reprodução/MW Futebol

O grande motivo do 4-2-4 ser eficiente contra o WM era a forma que a equipe se defendia. A formação do padrão europeu tinha uma pequena deficiência para contra-ataques rápidos vindos pelas pontas do campo. Com o avanço físico dos atletas, foi rapidamente notado a falha que o WM possuía contra jogadas laterais. Então, abrindo dois defensores para as laterais era possível cobrir o campo com uma marcação por zona, diferente da postura individual criado por Chapman.

BRASIL X HUNGRIA: QUEM FOI O PERCURSOR MUNDIAL?

Ao mesmo tempo que a formação 4-2-4 tornava-se um fenômeno no Brasil, a Hungria também entendeu como essa composição tática era eficiente contra o WM. A seleção treinada por Gusztáv Sebes passou a adotar uma postura de jogo parecida ao que estava surgindo no Brasil, mas com pequenas mudanças. Os húngaros jogavam com um líbero quase colado ao goleiro, três zagueiros mais avançados, dois volantes e a tradicional linha de quatro atacantes.

Apesar da pequena mudança, a equipe jogava parecido. A disposição tática era a mesma e, conforme o entrosamento de Púskas, Kocsis, Czibor, Hidegkuti e Toth aumentava, mais dominante a Hungria se tornava. Nesse sentido, o primeiro resultado veio com a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1952, conquista inédita para o país. Com mais de dois anos de invencibilidade, os Mágicos Magiares chegaram até a final da Copa do Mundo de 1954 contra a Alemanha Ocidental. Os germânicos frustraram os húngaros, provando a eficiência tática do WM ocidental conquistando o título em um dos jogos mais incríveis de todos os tempos, o Milagre de Berna.

O 4-2-4 NAS MÃOS BRASILEIRAS

Embora a derrota húngara tenha sido totalmente inesperada, a prova internacional que o 4-2-4 era eficiente contra o padrão europeu foi clara. Vendo isso, o Brasil comandado por Vicente Feola se reformulou para a copa de 1958. Com a adição de um jovem atacante de apenas 17 anos chamado Pelé como dupla de Vavá, Zagallo foi movido para as pontas junto com Garrincha e um dos melhores times da história surgiu. A seleção canarinha enfrentou grandes potências europeias que abusavam da postura WM, mas a resposta foi ainda mais eficiente.

O confronto da final foi entre os dois maiores adversários da época: a formação WM utilizada pela dona da casa Súecia e o 4-2-4 usado pelo Brasil. Ao contrário do resultado na edição passada, o padrão europeu ocidental foi derrotado por um show de Pelé, conquistando a primeira e tão sonhada Copa do Mundo para os brasileiros. A mesma postura foi mantida para a edição seguinte, porém, com Pelé machucado, Garrincha carregou o piano para consagrar o bicampeonato em 1962.

A FORMAÇÃO NOS DIAS ATUAIS

Inegavelmente, o 4-2-4 foi mais comum no passado. Com a evolução dos meios de campo, adaptações foram feitas para transforma-lo no convencional 4-3-3. Contudo, se engana quem pensa que a formação morreu com a modernização do futebol. Por exemplo, o Corinthians de Fábio Carille, campeão paulista de 2018, utilizou a disposição tática em diversas partidas. Sem um grande 9 de referência, Clayson e Romero tomavam conta das pontas da equipe, enquanto que Emerson Sheik e Rodriguinho, atuando como um segundo atacante, eram os responsáveis pelas finalizações.

Fato é que a formação é extremamente ofensiva, mas não tão funcional nos dias de hoje. Por usar somente dois meias, a criação de jogadas fica principalmente como responsabilidade dos laterais e dos pontas. Por conta disso, o mais comum no futebol moderno é o congestionamento da parte central do campo, utilizando formações que privilegiam jogadas surgindo pelos pés de meias habilidosos. As vezes, sendo necessário até cinco jogadores para preencher de forma adequada essa zona central.

Um exemplo tático do que é muito utilizado hoje em dia pode ser o 4-2-3-1 do Manchester City comandado pelo respeitado Pep Guardiola. Dois volantes, sendo um deles mais defensivo e outro com melhor saída de bola, dois pontas rápidos jogando ao lado de um meia com boa qualidade de passe e um homem de referência na área. No papel é tranquilo de entender, mas na prática, sem jogadores de qualidade como Kevin De Bruyne, Kun Aguero, Rodri, Raheem Sterling e o brasileiro Gabriel Jesus.

O RESGATE DO 4-2-4 PARA UMA CONQUISTA INÉDITA

O ano de 2016 era especial para o Brasil. Uma olimpíada em casa seria a chance ideal para conquistar o tão sonhado ouro, a única conquista que a seleção canarinho não havia alcançado. Depois que as duas primeiras partidas da competição acabaram decepcionando, empates sem gols contra África do Sul e Iraque respectivamente,  era necessário mudanças. O treinador Rogério Micale resolveu resgatar uma tática que deu resultado no passado, a criação brasileira contra os padrões europeus.

Na época jogador do Grêmio, o atacante Luan foi colocado no lugar de Felipe Anderson para jogar mais avançado fazendo dupla com o já citado Gabriel Jesus. Gabriel Barbosa foi movido para a ponta direita e Neymar, a grande estrela do time, fazia a ponta esquerda. Renato Augusto era o meia de criação e Walace, substituindo Thiago Maia suspenso, foi o volante de marcação. A mudança gerou um impacto de imediato, a primeira vitória do Brasil na competição sendo uma goleada por 4 x 0 contra a Dinamarca.

Em princípio, o problema havia sido solucionado. Esse Brasil ainda faria um 6 x 0 na semifinal contra a Honduras para chegar até a grande decisão, enfrentando a seleção da Alemanha. Entretanto, a final foi mais difícil do que o esperado. Resolvido apenas nos pênaltis após um empate em 1 x 1 no tempo regular, a seleção brasileira conquistou o seu ouro inédito com mais de 100 anos de tentativas frustradas. É fato que, quando encontra-se em uma situação de necessidade, recorrer ao passado pode ser uma boa ideia para conseguir um êxito tão aguardado.

Foto destaque: Reprodução/Site oficial CBF

Rafael da Costa
Estudante de Rádio e TV, apaixonado pelo esporte desde o nascimento. Ainda criança com uma câmera analógica quebrada eu ensaiava me apresentando como se fosse na TV. O jornalismo, principalmente o esportivo, é para mim, antes de mais nada, uma forma de levar o amor por um denominador comum para todos os cantos do mundo.

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