Zico: o deus de uma nação (foto: Reprodução/Lance!)

No dia 3 de março de 1953, subúrbio de Quintino Bocaiúva, zona norte do Rio de Janeiro, nascia Arthur Antunes Coimbra. A paixão pelo futebol veio desde cedo, afinal, o pai, Seu José Antunes Coimbra, jogava como goleiro amador, mas não seguiu no esporte profissionalmente. Por ser baixinho e franzino, o pequeno Arthur virou “Arthurzinho” e, depois, “Arthurzico”, até que uma prima reduziu carinhosamente para Zico, o nosso personagem desta semana na coluna Nostalgia Brasileira.

Além do pai, os irmãos de Zico também construíram uma carreira no futebol. Antunes, hoje falecido, foi atacante entre 1964 e 1970 e jogou em equipes como Fluminense, Olaria, Cruzeiro-RS e América-RJ. No América, jogou com o outro irmão: Edu. Esse foi o que teve mais destaque até Zico, jogou de 1966 a 1981. Fora o Mecão, Edu também atuou em Vasco da Gama, Bahia, Flamengo, Colorado (antigo time do Paraná Clube), Joinville, Brasília e Campo Grande, além de convocações para a Seleção Brasileira (1967 a 1974).

Entre Antunes e Edu também, teve Fernando, conhecido como Nando, que teve uma carreira mais curta. Saiu do Rio, onde jogava na base do Fluminense, e se profissionalizou no Santos de Vitória-ES. Depois passou por Madureira e América, até chegar ao Ceará, onde teve seu auge na carreira, em 1968. Depois de um bom ano, foi chamado para jogar no Belenenses, de Portugal. No entanto, não chegou a jogar em terras portuguesas. De volta ao Brasil, passou por prisão e tortura na Ditadura Militar. O jogador vinha sendo vigiado pela pelo regime desde quando estudava Filosofia.

Assim, com uma família quase toda de atletas, o pequeno Zico começou no esporte jogando futebol de salão em um pequeno clube do seu bairro, o Juventude de Quintino, que era formado apenas por amigos e familiares. Apesar da pouca idade, o menino já atraia muito os olhares, principalmente pela sua qualidade. Em 1967, jogando pelo River Football Club, clube da Piedade, chamou a atenção em um jogo no qual marcou 10 gols. Pouco depois, foi convidado a integrar a escolinha de futebol do Flamengo, seu clube do coração.

OS PRIMEIROS PASSOS DE ZICO NO FUTEBOL

Depois de passar para a base do Flamengo com títulos e se destacando, Zico encarou uma intensa preparação física antes de ser promovido aos profissionais. Em 1974, subiu efetivamente para o time principal, apesar de já ter disputado alguns jogos antes e, assim, ganhou a camisa 10. Naquele ano, foi campeão do Estadual pelo Rubro-negro participando do time titular da conquista. Tempos depois, surgia mais um apelido para o novo craque da Gávea: “Galinho de Quintino”, que foi dado pelo radialista Waldyr Amaral devido ao jeito de andar do jogador.

A partir de 1978, iniciou-se o fase áurea do Flamengo, que começou a ser comandado pelo camisa 10, que passou a ser conhecida como “Era Zico”. Dessa forma, junto com outros craques que surgiram, como Júnior, Adílio e Tita, o Rubro-negro começava a dominar o futebol brasileiro. Começaram com o tricampeonato Carioca daquele ano e, posteriormente, com as duas edições de 1979, ano em que o Galinho atingiu uma marca expressiva. Zico chegou a 245 gols, tornando-se o maior artilheiro da história do clube, ultrapassando seu ídolo de infância: Dida.

A ERA ZICO

No ano seguinte, veio o início da ascensão nacional junto ao Flamengo com a conquista inédita do Campeonato Brasileiro sobre o grande time do Atlético Mineiro. Naquela decisão, o meia foi fundamental na partida que deu o título aos cariocas com uma assistência e um gol na vitória por 3 x 2. Aliás, a rivalidade com o Galo mineiro, liderados por Reinaldo, passaria a ser uma das maiores entre times de outros Estados. As duas equipes voltaram a se encontrar pela Copa Libertadores do ano seguinte, num jogo polêmico em que o Atlético teve quatro jogadores expulsos e foi eliminado da competição.

Já o Rubro-negro avançou  às semifinais e, posteriormente, para a decisão contra o Cobreloa. Após vencer o jogo de ida no Maracanã por 2 x 1, com dois gols do craque, e ser derrotado na volta por 1 x 0, as equipes fizeram um jogo de desempate. Jogando em campo neutro, no Estádio Centenário, em Montevidéu, o Galinho desequilibrou mais uma vez. Foram dele os dois gols da partida. Assim, Zico ergueu mais um título com sua equipe.

No entanto, a cereja do bolo e a consolidação estaria por vir em dezembro de 1981.  Após conquistar mais um título carioca sobre o arquirrival Vasco (a final do Estadual daquele ano foi disputado no mês dezembro), o Rubro-negro foi ao Japão enfrentar o Liverpool no Mundial de Clubes. Os ingleses, campeões da Europa e com um time-base de jogadores de seleção, eram os grandes favoritos ao título, entretanto, não intimidaram Zico e cia.

Com duas assistências do Galinho, o Flamengo venceu por 3 x 0, desfilando em campo um futebol que encantou todos. O craque foi eleito o melhor jogador da partida, junto com Nunes, que marcou dois gols na partida. A atuação daquele jogo foi tão memorável que virou música para os torcedores do Rubro-negro ecoarem no Maracanã. Ainda conquistou duas vezes o Campeonato Brasileiro (em 82 e 83) antes da passagem pela Europa. Posteriormente, voltaria à equipe para conquistar a Copa União de 87, o Brasileirão do ano.

Zico com a taça do Mundial junto aos companheiros (Reprodução/Acervo/O Dia)

IDOLATRIA NA EUROPA E NA ÁSIA

Embora o futebol do craque tivesse despertado interesse de clubes tradicionais da Itália, como Juventus e Roma, o Galinho foi para a modesta Udinese. O valor da transferência, no entanto, causou uma grande escândalo na Itália, tanto que a Federação chegou a suspender a compra do jogador.

Contudo, a situação foi resolvida e, assim, Zico pôde, enfim, jogar pelo seu novo clube. Liderou um time tecnicamente fraco. A Udi conseguiu a 9ª colocação do Campeonato de 1983/84, ficando há quatro pontos do 4º colocado, que se classificou para a Copa UEFA da temporada seguinte. Além disso, o Galinho de Quintino foi o vice-artilheiro daquela edição, com 19 gols, um a menos que Michel Platini, só que o francês disputou seis jogos a mais que o brasileiro, por conta de uma lesão sofrera.

Zico jogando pela Udinese (Reprodução/Calciopédia)
             Zico jogando pela Udinese (Reprodução/Calciopédia)

No final de sua carreira, Zico ainda teve a experiência de atuar no Japão por causa de sua exibição de gala naquela final do Mundial de Clubes. Por mais que o craque estivesse com uma idade avançada, ainda assim foi uma atração e tanto para os japoneses. Aliás, jogando pelo Kashima Antlers, marcou um dos gols mais bonitos de sua carreira, que certamente ficou registrado na mente de todos os seus fãs. Atuou pelo clube japonês de 1991 até 1994.

SELEÇÃO BRASILEIRA

De fato, Zico teve uma carreira de muitas conquistas dentro de campo com a camisa do Flamengo. A torcida costuma brincar dizendo que o dia 3 de março, aniversário do craque, é o “Natal rubro-negro”. No entanto, com a camisa da Seleção Brasileira, o Galinho não conseguiu repetir as conquistas, apesar de ser o grande nome do Brasil em uma geração de ouro.

Foram dez anos vestindo a Canarinho, entre 1976 e 1986, com três Copas do Mundo no currículo e era o principal destaque da estrelada Seleção de 1982. Além disso, o camisa 10, em 89, partidas fez 66 gols, entretanto, contando apenas partidas oficiais, em 71 jogos, Zico marcou 48 gols. Dessa maneira, atualmente, é o 5º maior artilheiro da história da Seleção Brasileira.

Contudo, a passagem de Zico pela Canarinho acabou sem nenhum título. Após a decepção da Copa de 1982, o meia chegou à Copa do Mundo de 1986, aos 33 anos, recuperando-se de uma lesão no joelho. Dessa forma, o jogador ficou na reserva, sendo lançado pelo técnico Telê Santana no decorrer das partidas. Participou de três jogos, incluindo o duelo contra a França nas quartas de final, em que ficou o Galinho marcado pelo pênalti perdido. Assim, foi praticamente decretado o empate no tempo normal e, posteriormente, a eliminação do Brasil nos pênaltis.

Essa última eliminação custou ao Galinho a culpa por parte da torcida e imprensa brasileira pelo fracasso no México. O meia mesmo reconheceu ter cobrado mal a penalidade que foi defendida pelo goleiro francês. Na ocasião, foi apenas o segundo toque dele na bola naquela partida. Apesar de assumir a responsabilidade, o jogador não estava sendo o cobrador oficial da equipe. No jogo das oitavas, Zico havia sofrido pênalti contra a Polônia, contudo, quem cobrou e converteu foi Careca.

Apesar de algumas divergências se Zico foi um ídolo brasileiro ou não por faltar títulos com a Amarelinha, dá para afirmar, inegavelmente, que o Galinho marcou toda uma geração da mais talentosa. Ídolo para alguns e rei para mais de 40 milhões de rubro-negros.

Zico em ação pela Seleção Brasileira contra a Argentina (Reprodução/Futebol na Veia)

Foto destaque: Reprodução/Lance!

Vitor Eduardo Simões Lima
Jornalista e apaixonado por futebol. Quando criança tive o sonho de ser jogador de futebol. Com o passar dos anos, tendo a responsabilidade de dividir a vida de atleta com os estudos, optei por deixar meu sonho de infância de lado e seguir outro caminho, mas jamais quis me desapegar do futebol. Entrei na faculdade de jornalismo com esse objetivo que levo até hoje depois de formado, trabalhar com jornalismo esportivo.

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