Vergonha e humilhação marcam o Campeonato Carioca de 2020

- Falta de empatia e má organização são apenas alguns dos problemas que mancharam o estadual desta temporada
Volta do Campeonato Carioca

O mundo passa por um cenário de plena angústia e sofrimento em 2020. A crise gerada pela pandemia paralisou atividades profissionais em diversos países. Dentre essas atividades, o futebol, obviamente, também parou. Confederações e Federações se viram obrigadas a interromper as disputas locais em prol de se preservar o cuidado e a saúde de atletas e público. Mas a volta do Campeonato Carioca foi um ponto fora da curva neste contexto.

A volta gradual de competições nacionais em diversas ligas europeias, como a Bundesliga e a Premier League, garante a volta do sentimento de amor a esse esporte. Todavia, é sempre importante destacar que a volta destes campeonatos ocorreu sob rigorosas ordens de cuidados sanitários impostas pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Mas, infelizmente, esse rigor não vem sendo seguido no Brasil.

As discussões sobre a volta do Campeonato Carioca começaram por interesse da Federação Estadual, além dos próprios clubes e prefeitura. Todavia, enquanto Flamengo e Vasco pediam o retorno imediato da competição junto aos clubes de menor investimento, Botafogo e Fluminense mantiveram o posicionamento contrário ao retorno, reafirmando que o momento e voltar não era adequado.

O posicionamento contrário desta dupla originou uma série de episódios cada vez mais embaraçosos e confusos sobre o retorno do estadual. Dentre estes, estão manobras da Federação, um Flamengo apressado e discussões acaloradas, além de claro, os já citados órgãos municipais. Hoje a coluna Rasgando o Verbo discute a bagunça da volta do Campeonato Carioca.

OS PRIMEIROS CAPÍTULOS PARA SE DISCUTIR A VOLTA

Em meados do mês de maio, a FFERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) iniciou os trabalhos para arquitetar uma volta da competição. Para isso, foi elaborado o Jogo Seguro, uma série de protocolos sanitários a serem seguidos, com o objetivo de garantir a segurança de todos envolvidos nas partidas. Contudo, a discussão sobre a volta era vista por autoridades como um ato de extrema desconexão com a realidade não só carioca, mas mundial.

Mesmo com as críticas, os debates para a volta do Campeonato Carioca seguiam e ganharam dois aliados de peso: o Flamengo e o presidente Jair Bolsonaro. Com isso, algo que parecia apenas protocolar, ganhou ares de seriedade e iminência. Com isso, Botafogo, Fluminense e Vasco iniciaram as movimentações para treinar. Enquanto o último voltou a treinar quase que sem reclamações, os dois primeiros mantiveram uma postura de negação pelo retorno.

Mesmo com a autorização para treinos nos CT´s, o Alvinegro e o Tricolor mantiveram seus atletas em casa, no famoso home office. Treinando há mais tempo, o Rubro-Negro não via a hora de entrar em campo e após muita luta conseguiu, em 18 de junho, em um duelo extremamente atípico contra o Bangu, no Maracanã. Contudo, o resultado não foi nada surpreendente: 3 x 0 Flamengo.

A VOLTA “POR PRESSÃO” E O ACALORAMENTO DAS DISCUSSÕES

Observando as movimentações pelo retorno, Botafogo e Fluminense se apressaram e, mesmo contra suas vontades, retornaram aos treinamentos. E a volta não foi nenhum pouco amistosa. A FFERJ havia definido que ambos os times necessitavam entrar em campo na até então próxima segunda-feira, com apenas dois dias de treinamento. A falta de nexo era clara: como jogadores sem treinos, jogos há mais de 100 dias e com apenas dois dias de treinamento teriam condição de jogar?

Em uma pergunta óbvia com respostas que são inexistentes, ambos requisitaram à Tribunais e a própria Federação a remarcação das partidas. Entretanto, em vão. A “salvação” da dupla aconteceu após uma confusa determinação do prefeito do RJ, Marcelo Crivella, proibindo jogos e eventos esportivos na cidade por cinco dias. Contudo, mais precisamente no dia 28 do último mês, ambos entraram em campo sob protesto.

O clima era tão ruim, que, em uma entrevista, o técnico do Botafogo Paulo Autuori criticou veementemente à FFERJ, a intitulando de “Federação dos espertos”. A declaração caiu como uma bomba no TJD-RJ, que suspendeu Autuori por 15 dias. Mesmo com a equipe alvinegra conseguindo uma liminar, ele se recusou a comandar o time no confronto diante da Cabofriense, às 11h, no Estádio Nilton Santos. Vitória do Fogão por 6 x 2.

No mesmo dia, o Fluminense recebeu o Volta Redonda. Era a reestreia de Fred pelo clube. Porém, sem torcida, o atacante não teve o sonhado reencontro com a torcida tricolor. Em campo, sob protestos, o Tricolor não foi páreo para a equipe da cidade do aço, sendo derrotado por 3 x 0. O presidente do clube Mário Bittencourt fez coro à revolta alvinegra e não deixou de destacar o sentimento de tristeza por participar da partida.

OPINIÃO: O CONFUSO RETORNO DO ESTADUAL

O cenário do futebol carioca é trágico. Contudo, não é de hoje. Regras mal explicadas, estádios calamitosos e péssimas arbitragens são apenas alguns dos diversos problemas que mancham um dos estaduais mais famosos do Brasil. Além do mais, poucos se surpreenderam com as inúmeras bravatas realizadas pela FFERJ, especialmente por seu presidente, o já longínquo Rubens Lopes. 

Nenhum cidadão precisa de uma explicação detalhista sobre o que está acontecendo. O país passa por uma das piores crises sanitárias de sua história. Foram perdidas mais de 66 mil vidas e, de forma desesperadora, os números apenas crescem. Em um momento que pede empatia e cuidado máximo, uma Federação impõe a seus clubes filiados que disputem partidas de futebol em um dos estados brasileiros com maior número de casos e mortes do Brasil.

Discutir a volta do Campeonato Carioca ultrapassa todos os limites da insensatez e falta de respeito com aqueles que faleceram ou daqueles que lutam em hospitais para manter a vida. Foi possível identificar a presença de diretorias que parecem não entender e respeitar todo o cenário angustiante, que é tristemente redesenhado todos os dias. E para piorar: ameaçam e tratam com desdém os clubes que se movimentaram até as últimas instâncias para que os jogos não fossem realizados.

A história não pode mais ser apagada. Sua mancha é mais profunda do que se imagina. Contudo, para quem está na “linha de frente” desta específicas instituições, o mais importante é o jogar. Lamentavelmente, uma das maiores vergonhas da história do futebol brasileiro foi paga em um dos piores períodos de nossa sociedade. O Campeonato Carioca também foi acometido pelo vírus. Entretanto, sua recuperação não é garantida.

Foto destaque: Reprodução/ Vitor Silva/ Botafogo

Lucca Smarrito

Sobre Lucca Smarrito

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Desde pequeno sou apaixonado por esportes, principalmente futebol. Decidi fazer Jornalismo justamente porque amo escrever e trabalhar nesta área, principalmente a qual eu sonho, seria fantástico. Já participei da cobertura de um jogo da Suburbana de Curitiba em 2019 como comentarista, através de um projeto ofertado pela Universidade, além de ter escrito artigos de opinião e participado dos programas esportivos de rádio do curso. Também tenho uma página no Instagram não oficial sobre meu time. Acredito fielmente na importância do mesmo como um instrumento de inclusão social e fortalecimento de laços dentro da nossa sociedade, bem como a formação do caráter de um ser humano e sua capacidade de apaixonar e socializar. Sou estudante do segundo ano de Jornalismo da PUC-PR e tenho o objetivo e é claro, o sonho, de cobrir grandes eventos do mundo esportivo, tais como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Sou uma pessoa extremamente dedicada e estou sempre interessado em aprender coisas novas, para adquirir o máximo de conhecimento possível nesta profissão tão incrível como o Jornalismo.

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