Transtorno de Barbosa: a falha que resulta em condenação

A coluna Dicionário do Futebol desta semana traz um transtorno, não diagnosticado pela ciência, e detectada pelo jornalista esportivo Eric Filardi enquanto estudava fatos curiosos do futebol. Analisando a história do esporte, notou que o Transtorno de Barbosa é um caso tão forte que pode influenciar outros futuros transtornos, mesmo após 70 anos do ocorrido. Tal transtorno se refere a auto condenação que o goleiro da final da Copa do Mundo de 1950, conhecida como Maracanazo, Moacir Barbosa, teve após o fatídico jogo. O ídolo do Vasco da Gama foi condenado a vida toda.

O que é o Transtorno de Barbosa?

O Transtorno de Barbosa é a condenação, como pena criminatória, do goleiro Barbosa na final da Copa do Mundo de 1950, no Brasil. O jogador foi apontado como o vilão do Maracanazo na derrota da Seleção Brasileira para o Uruguai naquele 16 de julho. A desolação da torcida foi tamanha que uma senhora, acompanhada do filho de 10 anos, encontrou o goleiro, anos depois, apontou para ele e bradou o seguinte ao filho:

“Olha, meu filho, esse é o homem que fez o Brasil todo chorar!”. O goleiro, triste com a situação, respondeu: Minha senhora, talvez se fosse seu filho que tivesse lá no meu lugar a senhora não disse isso agora!.

Foi falha ou não?

Se pararmos para pensar, não havia treinador de goleiros na época: “A gente pegava no gol com a intuição. O treinamento era vários atacantes chutando bolas constantemente e assim a gente tentava agarrar o máximo que podia”. Companheiros de seleção alegaram desunião do jogador Juvenal na época, pois, pós-derrota, o atleta fez duras críticas aos companheiros de time na mídia“A culpa do gol foi do Barbosa! Como grande goleiro que era, não podia tomar um gol como aquele. A bola passou entre ele e a trave. O gol foi feito sem ângulo”.

Depois, falou sobre Bigode: “Quem bem sabe é o Maracanã todo. 200 mil pessoas assistiram ao jogo. Bigode tomou dois dribles fora da área”. Em seguida, pagou bronca a Danilo e Jair: “Houve falha, pois Danilo estava apoiando muito na frente e Jair não perseguia Julio Pérez. Eu fiz a cobertura”.

A versão de Barbosa

O que demoraram anos a perguntar foi a versão de Barbosa sobre o ocorrido. Afinal, a derrota para as mais de 200 mil pessoas no Maracanã teve um único culpado e sem piedade. O arqueiro explicou em detalhes o motivo exato do gol ter ocorrido:

Havia uma jogada da Seleção Uruguaia sobre o Ghiggia. Essa jogada era lançar ele, ele ganhava do Bigode na corrida, depois cruzava e os homens que vinham de trás eram quem cabeceavam, chutavam. Mas numa dessas aí ele pegou no contrapé e eu, esperando que ele fosse cruzar, repetir a jogada, eu fui, ele acertou no contrapé e a bola entrou no canto. Paciência.”

Um erro coletivo da defesa?

No livro Queimando as Traves de Cinquenta, de Bruno Freitas (2013), Barbosa contou, em depoimento mais de 40 anos depois da fatídica derrota (precisamente 43 anos e sete meses), o ocorrido:

“Quando vi que Ghiggia tomava a bola e outra vez se livrava de Bigode, fiquei com medo. E o medo aumentou porque eu, de soslaio, percebi que Juvenal abandonava o centro da área para correr na direção de Ghiggia, deixando Schiaffino livre. Fiquei apavorado e saí do gol para chamar a atenção de Juvenal. Nesse momento, Ghiggia chutou entre meu corpo e a trave esquerda. Dei um salto de gato para trás, cheguei a tocar a bola. Um segundo depois olhei para o gol e via as redes balançando. Por um instante pensei que tinha desviado a bola e que ela estivesse do lado de fora” – Barbosa.

“Não vamos dizer que houve falha. Houve uma desatenção! Porque nós deveríamos nos concentrar exatamente para evitar essa jogada. E não houve essa preocupação de parar essa jogada que eles faziam pela direita. Quando ele (Ghiggia) percebeu que alguém e que eu tinham saído também para cortar o centro (cruzamento), ele chutou para gol para desencargo de consciência. No caso, ele foi mais esperto e tentou uma coisa ‘impossível' e que deu certo. Quer dizer, ele pensou errado, pensou errado e deu certo. Eu pensei certo e deu errado!” – Barbosa

A condenação e o Transtorno de Barbosa

“Que eu tenha como vivente, acho que nunca houve um silêncio maior que aquele que eu vi. Com 200 e tantas mil pessoas  em silêncio. Acho que nem se morresse um presidente não teria tido aquilo. Não digo que o Brasil morreu, mas que passou uma tarde fúnebre, passou! Disso não tenha dúvida. Eu senti na própria carne. Essa é uma realidade: o Brasil silenciou. Silenciou mesmo! Só acordou no dia seguinte com o pesadelo (na derrota da Copa do Mundo de 1950).” – Barbosa

O próprio Barbosa afirmou em entrevista que sentiu-se um bandido após a perda do Mundial em casa. Inclusive o goleiro expôs que só falou sobre o ocorrido após 40 anos, porque este é mais que o tempo de prisão no Brasil e que após isso teria pago por seu suposto crime.

“É claro que é uma frustração muito grande você pensar em tudo que tinha pela frente e, de repente, diluir tudo aquilo em 90 minutos. Todos os sonhos, todo aquele pensamento de: ‘Poxa, vou ser campeão do mundo'. A única coisa que faltava na carreira do jogador de futebol, que era o ápice… então, aquilo realmente pesa na balança” – Barbosa

“Eu não gosto de falar e nem de comentar isso (Maracanazo). Exatamente por essa razão: porque há falta de respeito ao jogador, porque o sujeito acha que ser vice-campeão do mundo não vale nada! Quer dizer, aqui no Brasil, porque nos outros países vale. Agora aqui não vale nada! Então, ser vice-campeã do mundo não tem valor!” – Barbosa.

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Condenação eterna

“Ainda há pouco tempo (1999), nós estávamos num bar onde eu frequento, e  um cara veio e falou: ‘É, que em 1950…'. Aí que disse: ‘Acabou a conversa aí! As leis de condenação aqui no país quanto é? A maior condenação é de 30 anos. Ou seja, são 30 anos que o sujeito tem que cumprir. Nós estamos 43 anos (daquele jogo), então eu já paguei quase 14 anos a mais. Não tenho razão para discutir contigo ou dar uma explicação!'. Então, porque eu vou dar uma explicação para ele?! Eu não sou um criminoso vulgar! Ele não merece explicação por me cobrar uma coisa mais de 44 anos. Ele não tem direito a isso. Então eu não dou explicações! Então, eu prefiro me calar. Porque não vou retornar ao que passou. Para não ser deselegante, prefiro não comentar” – Barbosa

Perguntado se acha intimamente que cumpriu 30 anos de pena?

“Eu acho que sim! 30, não, porque até hoje eles falam. Então foi mais de 30 (anos). São 44 anos! Eu tenho direito de, pelo menos, dormir tranquilo” – Barbosa.

Foto destaque: Reprodução/Ludopédio

Eric Filardi
Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia. Sou Eric Filardi, paulistano de 27 anos, criado em Taboão da Serra, jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo e apaixonado por futebol. Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, Peixe, Palestra e Timão. Sou da Colina, Glorioso, Flu e Mengão. Sou brasileiro, hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 x 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões. Sou Clássico das Multidões. Sou Sul, Nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, Raposa, Bavi e Grenal. Sou Ásia e África. Sou Barça e Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas que o estádio incendeia: sou Futebol na Veia.
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