Onde estão os nossos centroavantes?

A pergunta é simples, direta e curta. Onde estão os centroavantes brasileiros de alto nível? A resposta, por mais dura que possa ser, também é simples, direta e curta. Não temos centroavantes de alto nível. Simples assim. Há anos que o camisa 9 da seleção brasileira não é reconhecido internacionalmente, não tem fama de “matador” e não tira o sono dos goleiros adversários. Nossos centroavantes não se comparam, por exemplo, a Luis Suárez, Robert Lewandowski ou Ibrahimovic. Tanto que, nesta última convocação da seleção brasileira, a primeira feita por Tite, não há nenhum centroavante entre os quatro atacantes convocados. Neymar, Gabriel Jesus, Gabriel Barbosa (“Gabigol”) e Taison. A própria seleção olímpica conquistou a inédita medalha de ouro jogando sem centroavante. O único nome diferente do ataque era o de Luan, no lugar do Taison. Nenhum deles têm como característica principal a presença de área, jogadas de pivô ou um forte jogo aéreo.

Vamos listar nossos atacantes da Copa de 1994 até o presente. Romário e Bebeto, com o jovem Ronaldo (na época ainda não era “Fenômeno”), trouxeram o histórico tetracampeonato para casa. Nas Copas de 1998, 2002 e 2006, Ronaldo tornou-se o “Fenômeno”, dono inquestionável da camisa 9. A concorrência era tão forte que vimos Adriano “Imperador” ser reserva em 2006. Em 2010, os centroavantes eram Luís Fabiano, Nilmar e Grafite. Na Copa de 2014, disputada em solo nacional, Fred e Jô foram os centroavantes. É nítido que o nível técnico dos atacantes vai caindo com o passar dos anos, até chegarmos ao presente, no qual estamos vivendo uma escassez de centroavantes no futebol brasileiro. Isso sem contar os grandes centroavantes mais antigos, como Pepe na década de 50/60, Reinaldo e Roberto Dinamite, nas décadas de 70 e 80, Casagrande e Careca, nas décadas de 80 e 90.

Observando os elencos dos times da Série A, mais especificamente o setor ofensivo, vemos o porquê da carência. Lucas Pratto e Paolo Guerrero, considerados uns dos melhores centroavantes atuando em solo nacional, são estrangeiros, um argentino e o outro peruano, respectivamente. Temos também no brasileirão, entre outros centroavantes, Leandro Damião, Fred, Eduardo Sasha, Grafite e Ricardo Oliveira. Dos nomes citados, apenas Eduardo Sasha não defendeu a seleção principal. Grafite fez parte do grupo que disputou a Copa de 2010. Fred é conhecido de longa data da seleção, e foi muito criticado após a derrota na Copa de 2014. Leandro Damião teve chances com Mano Menezes, e quase jogou na Copa das Confederações de 2013, mas foi cortado devido a uma lesão na coxa. Ricardo Oliveira foi campeão na Copa América de 2004 e na Copa das Confederações de 2005. O centroavante santista voltou a ser lembrado pela seleção no final do ano passado, quando vivia boa fase.

Buscando algum centroavante brasileiro atuando no futebol internacional, aquele que mais se destaca é Jonas, do Benfica. Jonas teve uma de suas melhores temporadas da carreira, marcando 36 gols pelo Benfica, tornando-se um dos artilheiros da Europa.

O Brasil sempre foi considerado “uma fonte inesgotável de talentos”. Então, onde está todo este talento em nossos centroavantes? O problema pode não ser talento, mas sim formação. A categoria de base de um clube é claramente um reflexo do time principal. Se um determinado time tem como característica atacantes que atuam pelas beiradas do campo, os atacantes juvenis do clube serão moldados neste padrão. Muito também se perde na transição da categoria de base para o profissional. A diferença de nível técnico e físico é evidente, assim como a falta de paciência dos torcedores e da comissão técnica. Leva um certo tempo para um jogador adaptar-se à nova realidade, e este período torna-se cada vez mais curto, devido a pressão por resultados.

Há também uma questão de “sobrevivência” neste assunto. Como o “futebol moderno”, seguido por vários times do futebol mundial, exige que todos os jogadores participem efetivamente do jogo, mesmo sem a bola nos pés, um jogador mais lento e de menos marcação acaba sendo descartado do time. Ou seja, o futebol, de forma geral, irá selecionar aqueles que se adaptarem com mais facilidade e agilidade, excluindo os outros que não corresponderem. Uma ideia muito semelhante a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, na qual o meio seleciona o indivíduo mais apto a sobreviver.

A camisa 9 da seleção brasileira merece um representante digno de sua tradição, capacitado o suficiente para vesti-la e aguentar seu peso. Merece ser vestida por centroavantes como Pepe, da década de 50/60, Reinaldo e Roberto Dinamite, das décadas de 70 e 80, Casagrande e Careca, das décadas de 80 e 90, Romário e Ronaldo “Fenômeno”. Para isso, é preciso rever toda a trajetória que um centroavante percorre, desde seus primeiros passos nas categorias de base até se consagrar marcando gols históricos com este número.

Guilherme Papa
Guilherme Papa é estudante, de 21 anos, da turma do 5º semestre de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo. Completamente louco por futebol, tem como objetivo transmitir informações do mundo da bola da melhor maneira possível.

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