A princípio, a consistência do Fortaleza de Juan Pablo Vojvoda é formidável. Afinal, o Leão do Pici conseguiu cavar sua vaga no G4 e encerrou o 1º turno com a melhor campanha de um clube nordestino na história dos pontos corridos! Realmente não é pouca coisa. Por outro lado, a recente série de empates coloca as primeiras dúvidas sobre o trabalho de Vojvoda. A campanha do Tricolor de Aço no Brasileirão faz a torcida sonhar com a Libertadores. Contudo, algumas variáveis externas servem de alerta para o Fortaleza. O crescimento vertiginoso de Flamengo e Corinthians ameaça a vaga do Leão entre os quatro melhores. O desafio de Vojvoda é manter a performance da sua equipe em alto nível até o final do campeonato. Dessa forma, o fator competitividade fará toda a diferença.

A campanha histórica do Fortaleza

Antes de mais nada, o Fortaleza garantiu a melhor campanha de uma equipe do Nordeste na primeira metade do Campeonato Brasileiro. O formato atual (com 20 clubes e 38 partidas para cada um) foi implementado em 2006. Anteriormente, este recorde pertencia ao Vitória – o time baiano fechou o turno em 2008 ganhando 10 partidas, empatando du e perdendo 7. Hoje o Fortaleza soma 9 vitórias, 6 empates e apenas 4 derrotas. Apesar de ter vencido menos, o Tricolor do Pici fez um ponto a mais em 2021 (33 contra os 32 do Leão da Barra). Além disso, o Vitória terminou as 19 rodadas iniciais na 5ª colocação. Atualmente, o Fortaleza ocupa o 3º lugar na tabela de classificação – pode ser ultrapassado por Bragantino e Flamengo a depender do que houver nos jogos adiados.

Como o Fortaleza chegou até aqui?

Definitivamente, com muita entrega. O técnico argentino consegue extrair o máximo dos seus atletas e é reconhecido por isso. Vojvoda tem o respaldo da diretoria, da torcida e dos comandados. O paraíso de qualquer treinador. Seu estilo dedicado encontra um espelho dentro de campo. O Fortaleza não se intimida. Venceu quatro dos outros cinco times que hoje estão no G6 – a exceção foi o Flamengo. Nesse sentido, vale a pena rememorar também as goleadas sobre Internacional (5 x 1) e América Mineiro (4 x 0). Ademais, a campanha na Copa do Brasil é a melhor da história do clube. Uma possível classificação contra o São Paulo levaria o Tricolor de Aço a sonhar ainda mais alto. O desgaste natural da temporada e escassez de peças de reposição são um contraponto. Serão um problema?

3-4-1-2: o esquema tático do Leão

Eis um aspecto que costumo valorizar durante o meu processo de análise. Inicialmente, o Fortaleza conseguiu ter uma identidade jogando com três zagueiros (Tinga, Marcelo Benevenuto – o que ele faz dentro das quatro linhas não tem nome – e Titi). O técnico Juan Pablo Vojvoda mudou o padrão tático em apenas três ocasiões. Deu certo no 3-5-2 contra Atlético Mineiro (1 x 2) e Palmeiras (2 x 3). O alinhamento no meio-campo ajudou a solidificar a defesa e permitiu um enfrentamento. No entanto, o 3-4-3 não funcionou contra o Athletico Paranaense (2 x 1). Afinal, o meia de armação jogou mais adiantado – entre os atacantes – e isso prejudicou a transição na última faixa. No próximo parágrafo, vamos descrever como se estrutura a vocação ofensiva do Fortaleza na proposta que vingou.

A ideia de jogo proposta por Vojvoda

A rigor, o Fortaleza vem rendendo melhor quando David e Wellington Paulista jogam juntos. O armador Matheus Vargas é quem pensa as ações ofensivas. O vetor criativo que trabalha a bola até ela chegar nessas peças. A chegada de Lucas Lima pode dar mais concorrência a essa posição. Dessa forma, falta compreender a linha de quatro do Fortaleza. O lado esquerdo está muito bem servido com a disputa entre Yago Pikachu e Bruno Melo. A meu ver, o primeiro sobressai. Na ala direita, Lucas Crispim deita e rola. O miolo da meia cancha fica a cargo de Éderson e Felipe. A dificuldade de repetir essa dupla afeta muito o rendimento do Leão. Alternativas como Jussa e Ronald apareceram quando Vojvoda não pôde contar com os titulares.

Variáveis externas e a competitividade

Concluo este modesto “Raio X” do Fortaleza apontando que o segredo da equipe de Juan Pablo Vojvoda passa pela combinação de cinco fatores: velocidade lateral, alinhamento intermediário, transição ordenada, consistência defensiva e competitividade por entrega. Em síntese, o último deles pode dizer até onde a equipe cearense vai chegar nos torneios nacionais. Afinal, a resiliência diante do São Paulo na ida das quartas de final (2 x 2) provou que o psicológico está em dia. O elenco curto talvez não aguente o rojão do Brasileiro. O fortalecimento do Corinthians após as contratações de Giuliano, Renato Augusto, Willian e Róger Guedes ameaça a vaga no G4. Além disso, o Flamengo de Renato Gaúcho empilha goleadas a torto e a direito. É possível parar a ascensão de ambos? A ver.

Foto destaque: Divulgação/ Leonardo Moreira/ Fortaleza Esporte Clube

André Filipe
Apaixonado pela dimensão histórica do futebol e pela ciência da bola. Gremista desde a Batalha dos Aflitos para o que der e vier. Sinto na escrita o calor latente das minhas paixões profissionais. Historiador, jornalista esportivo e jogador de pôquer nas horas vagas.