Uma das grandes questões atemporais, dentro e fora de campo, se resume em: política e futebol podem se misturar? Esse tema gera muita polêmica na sociedade, e recentemente eclodiu por conta das manifestações antifascistas realizadas por torcidas organizadas. Sendo assim, a coluna Rasgando o Verbo traz um resumo do acontecimento e a opinião sobre o ocorrido.

MANIFESTAÇÕES PRÓ-DEMOCRACIA

A princípio, na tarde do último domingo (31), ocorreu uma manifestação na Avenida Paulista, SP, em prol da democracia e contra o atual Presidente da República, Jair Bolsonaro. Esta mobilização, reuniu torcidas organizadas e coletivos de torcedores, dos principais clubes paulistas: Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos. De máscaras por conta da pandemia do coronavírus, ecoavam gritos como “democracia”, “ditadura nunca mais” e até modificações de marchinhas, resultando em “Doutor, eu não me engano, o Bolsonaro é miliciano”.

O movimento reuniu torcidas rivais, entretanto, a violência não foi gerada entre si. Os manifestantes chegaram na avenida por volta do meio dia, e mais adiante havia uma junção de apoiadores do presidente. Logo após, houve uma discussão iniciada por uma mulher que possuía um taco de beisebol nas mãos, considerado uma arma branca, iniciou xingamentos aos de oposição a Bolsonaro. Por consequência, começou uma confusão com palavras de baixo calão, e a Polícia Militar tomou partido, dispersando-os com bombas de gás lacrimogênio. Ao mesmo tempo, os torcedores atearam fogo em lixos e escombros.

Segundo a Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil (Anatorg), foram registrados protestos semelhantes no Brasil em 14 Estados. Os participantes afirmam que não há um líder geral, são apenas grupos que se reúnem, e que compartilham dos mesmo ideais. Já há uma mobilização para um novo protesto pró-democracia, marcado para o dia 7 de junho e que promete ser maior do que o que ocorreu.

TORCIDAS ORGANIZADAS

A origem das torcidas organizadas se deu na primeira metade do século passado. Além do objetivo principal, apoiar o time e os jogadores, também foram criadas para o torcedor ter uma maior participação na política-administração dos clubes. Entretanto, ao longo dos anos foi construído um esteriótipo de que tais grupos praticavam a violência e corrupção. A manifestação paulista do dia 31, contou com: Gaviões da Fiel, Mancha Alviverde, Independente, Torcida Jovem do Santos, Palmeiras Antifascista, Democracia Corintiana, e Porcomunas.

A fundação da maior torcida organizada do Timão, a Gaviões da Fiel, aconteceu no período de ditadura militar, e que segundo Chico Malfitani, um dos fundadores, o próprio clube também passava por uma ditadura na dirigência. A Gaviões desde o início das eleições, se posicionou de maneira firme contra o atual Presidente da República, Bolsonaro. Já sobre as recentes manifestações, o então diretor de futebol do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, declarou que estranho seria se os corintianos não se manifestassem diante das ameaças anti-democráticas.

Já na cidade do Rio de Janeiro, cerca de 300 torcedores Rubro-Negros, de diversas organizadas, se reuniram no bairro de Copacabana para um protesto pró-democracia. Os flamenguistas, disseram que estavam realizando um “contra-ataque” aos protestos bolsonaristas. A Torcida Jovem do Flamengo já organiza uma próxima manifestação, também para o dia 7 de junho, onde marcharão rumo ao Maracanã.

OPINIÃO

Em primeiro lugar, é preciso repensar sobre as acusações e o preconceito que existem sobre as torcidas organizadas. De acordo com o sociólogo, Mauricio Murad, apenas 7% de tais torcidas são realmente violentas. O pesquisador também disserta sobre como esses problemas são gerados pela falta de amparo do Governo e suas divisões.

Sendo assim, refuta-se a ideia de que futebol é política. Tudo é política, o jeito como vivemos, convivemos, habitamos, discutimos. Tudo. Logo, as organizadas reencontram em tempos de crises o seu propósito inicial, que sempre foi implementar e valorizar a democracia. Resgatando seus valores iniciais, políticos e idealistas.

Desde o início da pandemia, observamos em noticiários manifestação pró-bolsonaro. Aliás, encontram-se cartazes e gritos dos apoiadores de Jair, pedidos de retorno aos tempos de ditadura militar, o retorno do AI-5. Recentemente, aconteceu a “Marcha dos 300” de Sara Winter, um protesto contra o STF. Houve uma marcha pela Esplanada com tochas, máscaras e roupas pretas, que foi comparada ao grupo supremacista americano Ku Klux Klan. 

Em suma, há muito tempo estão ocorrendo quebras na lei, infringimento da democracia brasileira. Contudo, a Polícia Militar em momento algum repreendeu os manifestantes, mesmo que façam alusão à movimentos que ferem a Constituição. Logo, o futebol, responsável pela paixão de milhares de brasileiros, toma a frente e marca um golaço. Dizer que futebol não é política, é não reconhecer a história do mesmo e ignorar toda a sua existência. 

Foto Destaque: Divulgação/FNV

Giovanna Monteiro
Giovanna Monteiro
Cursando o 4º semestre de Jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi, apaixonada por esportes desde os 7 anos e hoje com a cabeça e o coração encaminhados ao Jornalismo Esportivo.

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