Conca

Hoje a coluna Parabéns ao Craque homenageia o argentino Darío Conca. O jogador, ídolo do Fluminense e com passagem milionária pela China, se aposentou há pouco mais de um ano. Assim, conhecido por sua baixa estatura, mas técnica e agilidade diferenciadas, o meia-atacante se tornou um dos estrangeiros com maiores sucessos no futebol brasileiro.

COMEÇO NO RIVER

Nascido em General Pacheco, cidade localizada na província de Buenos Aires, Conca fez parte de sua base no Tigre, porém foi contratado, ainda nas categorias juniores, pelo River Plate. Torcedor declarado do Boca Juniors quando criança, começou sua carreira profissional no rival, o River, em 2002. Entretanto, o destino não quis que seu destaque fosse em seu país de origem.

APARIÇÃO NA CATÓLICA

Em 2004, o meia canhoto foi emprestado à Universidad Católica, do Chile, e lá iniciaria seu relacionamento com o Tricolor. Na Copa Sul-Americana do ano seguinte, o confronto das quartas de final foi decidido entre Católica e Fluminense. Conca, com 22 anos, era o craque do time. O camisa 10 tradicional conduzia a equipe ao ataque. Na ida, 2 x 1 para o clube das Laranjeiras em São Januário.

Entretanto, o jogo da volta que ficou marcado: 2 x 0 para o time chileno com show do argentino. No primeiro gol, desarmou Juan, com grande passagem pelo Flamengo, e encontrou Quinteros na meia-lua, que abriu o placar. Já no segundo tento, iniciou a jogada que terminou na finalização de Arrue e decretou a eliminação do Fluminense de Abel Braga. A atuação do meia-atacante habilidoso e com uma canhota afiada chamou a atenção dos brasileiros. Ele ainda seria campeão chileno (Clausura) neste ano.

RETORNO AO RIVER, NOVO EMPRÉSTIMO E CHEGADA AO BRASIL

No ano de 2006, seu contrato com a Universidad Católica expirou, e Conca teve que voltar ao River. No entanto, não foi aproveitado mais uma vez e foi novamente emprestado, dessa vez ao Rosário Central, onde também não teve grandes oportunidades de atuar. O Fluminense tentou sua contratação neste ano, porém não obteve sucesso.

Em 2007, finalmente chegou ao Brasil. O Vasco da Gama conseguiu seu empréstimo junto ao clube de Buenos Aires. Ao chegar em São Januário, tinha uma pressão a mais, um jogador que queria se colocar na história do futebol mais uma vez, disse se referindo a ele: “Esse aqui que vai me dar o passe para fazer o gol?“. Este jogador era ninguém menos que Romário, e o gol em que falava era o milésimo de sua carreira.

Assim, Conca iria atuar ao lado de um dos atacantes que mais marcaram sua infância. No Cruz-Maltino, teve bons momentos durante a temporada e seu novo empréstimo no ano seguinte foi disputado por outros clubes brasileiros, como São Paulo e Palmeiras. O River Plate não quis negociá-lo novamente com o Vasco, e o argentino, enfim, por não querer se readaptar a outra cidade, foi transferido ao Tricolor das Laranjeiras.

CHEGADA AO TRICOLOR E A LIBERTADORES DE 2008

No Fluminense foi onde tudo aconteceu. Chegou em 2008, um ano memorável para o torcedor tricolor. Reencontrou Renato Gaúcho, o técnico que um ano anterior o havia colocado no banco algumas vezes pelo Vasco, mas dessa vez o tratamento seria diferente. Desse modo, foi titular e decisivo na melhor Libertadores da história do clube, o vice-campeonato para a LDU.

Na competição deste ano, Conca fez gol em três das quatro fases mata-mata: no jogo de ida das oitavas de final contra o Atlético Nacional, na Colômbia, em vitória por 2 x 1; na volta da semifinal contra o Boca Juniors, no Maracanã, na vitória por 3 x 1; e na ida da final contra a LDU, no Equador, na derrota por 4 x 2. Além disso, o meio-campista formou dupla em sua posição com Thiago Neves, que se juntaram a Dodô e Washington, formando um dos times mais relevantes da história do Flu. Contudo, decisivos durante todo o torneio, Conca, Thiago Neves – que havia marcado três gols na noite – e Washington perderam os pênaltis na decisão, e tornaram, assim, a LDU campeã.

O NASCIMENTO DO “TIME DE GUERREIROS”

No ano seguinte, conseguiu finalmente se desligar do River Plate. O Tricolor garantiu a permanência de um dos principais jogadores de sua temporada anterior e adquiriu Conca por cerca de R$ 6,5 milhões, com ajuda de um grupo de investimentos, em um contrato de três anos. Todavia, o ano seria conturbado. Thiago Neves foi para o Al-Hilal, Dodô estava suspenso por ter sido pego no exame antidoping e só voltaria ao esporte em 2010, e Washington havia se transferido ao São Paulo. Entretanto, Conca não estava sozinho, pois o atacante Fred tinha chegado ao clube.

Hoje também ídolo tricolor, Fred sofreu com lesões durante a temporada de 2009, e coube ao argentino comandar a equipe que ainda era lembrada pela grande Libertadores do ano anterior. Porém, o Fluminense não encontrou seu futebol aquela temporada, sofreu diversas demissões de treinadores e a equipe degringolou no Brasileirão.

Cuca assumiu o clube que, faltando 11 rodadas para o término do campeonato, estava na lanterna da competição com 98% de chances de ser rebaixado, segundo o matemático Tristão Garcia. Conca carregou o Tricolor, que venceu oito e empatou três das últimas 11 partidas e escapou da queda. Ele marcou quatro gols e deu sete assistências nessa reta final. Foi o nascimento do “Time de Guerreiros”, que também foi vice-campeão da Copa Sul-Americana deste ano, perdendo mais uma vez um título internacional para a LDU no Maracanã.

A CONSAGRAÇÃO EM 2010

O esforço para manter o clube na elite do futebol brasileiro valeu a pena. 2010 seria o ano de Darío Conca: foi o melhor jogador do time campeão do Brasileirão, sob o comando de Muricy Ramalho. Além disso, com as constantes lesões de Fred, foi o capitão em grande parte da temporada. O argentino se tornou o segundo jogador de linha da história da competição a disputar todas as 38 partidas do campeonato.

O mais surpreendente foi ter conseguido o feito apesar das declaradas dores constantes no joelho que tinha. Ele contribuiu com nove gols e foi o líder isolado de assistências, com 18 passes para gol, no título do Campeonato Brasileiro que o Fluminense não conquistava há 26 anos. O camisa 11 entrou de vez para a história do Flu.

A temporada de 2010 foi o ápice de sua carreira. Dessa forma, Conca foi eleito o Craque do Brasileirão, pela CBF, o Bola de Ouro, prêmio dado pela Revista Placar, e ganhou, pelo segundo ano seguido, o Craque da Galera, prêmio de voto popular. O sucesso no Brasil chegou em sua terra natal. Assim, torcedores argentinos e a imprensa do país cobravam do então técnico e ídolo de Conca, Diego Maradona, sua convocação para a Copa do Mundo na África do Sul. No entanto, não foi suficiente, e o maior jogador da história da Argentina não fez a felicidade dos hermanos e tricolores, que torciam pelo seu ídolo. O jogador não atingiu a seleção de seu país na carreira.

IDA MILIONÁRIA À CHINA

Conca começou 2011 muito valorizado, recebendo sondagens do futebol europeu. Entretanto, optou pela renovação com o Fluminense, assinando um contrato de mais cinco anos. O argentino fez a esperada cirurgia no joelho e voltou mais rápido que o previsto. Estava tudo caminhando para mais um bom ano no clube. Contudo, o início de Campeonato Brasileiro não foi bom para o Tricolor, que não justificava o seu favoritismo devido a temporada passada. Além disso, era nítido que o jogador não estava na sua melhor forma física.

Em junho, Conca aceitou a terceira proposta feita pelo Guangzhou Evergrande, da China, e foi vendido por cerca de R$ 19 milhões. A partir daí, o argentino passou a ter cenário mundial, se tronando o terceiro jogador mais bem pago do mundo. Seu salário a partir daquele ano, cerca de R$ 2 milhões por mês, só não era maior que os de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. A transferência do meio-campista foi a maior da história da China na época, e ele foi um dos pioneiros à chegadas de grandes jogadores no país.

Além de milionária, não se pode dizer que a passagem pelo futebol oriental não foi vencedora. Lá o jogador conquistou, em seus três anos de clube, Campeonato Chinês (3x), Copa da China, Supercopa da China e a tão esperada, por diretoria e torcida, Liga dos Campeões da Ásia, marcando dois gols na final do torneio continental. No clube chinês, disputou 65 jogos, com 33 gols marcados e 29 assistências, média de praticamente um gol produzido por jogo. Conca ainda tinha lenha pra queimar.

Contratado pelo Fluminense, Conca se despede do Guangzhou ...

Reprodução/Amr Abdallah Dalsh/Reuters

RETORNO AO FLUMINENSE

Em 2014, conseguiu sua liberação do Guangzhou, e voltou ao seu time de coração. Assinou por três anos e, com 30 anos, esperava-se que fosse ficar no clube até a aposentadoria. O Fluminense fez uma belo Brasileirão neste ano, ficando com o 6º lugar, mas teve campanha irregular nas outras competições.

O clube passava por problemas extra-campo, pois a relação entre o presidente Peter Siemsen e Celso Barros, presidente da Unimed – patrocinadora master dos últimos anos vitoriosos do Flu -, estava se estreitando. Apesar disso, Conca reviveu a parceria com Fred, agora também consagrado, e juntos comandaram a equipe na luta por uma vaga na Libertadores do próximo ano.

VOLTA Á CHINA

2014 foi realmente o último ano da parceria gloriosa entre Fluminense e Unimed. No ano seguinte, com problemas financeiros e precisando se restruturar – Conca recebia R$ 700 mil mensais -, o Tricolor das Laranjeiras vendeu mais uma vez o meia-atacante ao futebol Chinês, dessa vez ao Shangai SIPG. O valor da negociação girou em torno de R$ 9,2 milhões e foi o mais alto da história do clube. Assim, ele receberia um salário um pouco maior que no Guangzhou (R$ 2 milhões). Conca manteve o alto nível técnico já apresentado na sua primeira passagem pelo país e fez um belo campeonato em 2015, com bons números individuais.

Já em 2016, teve, em agosto, uma lesão que significaria o início da fase final de sua carreira: uma ruptura do ligamento cruzado do joelho esquerdo. Dessa forma, o jogador ficou afastado dos gramados por 10 meses. No Shangai, o argentino fez 13 gols e deu 17 assistências em 46 jogos, porém não conquistou títulos dessa vez.

POLÊMICA VINDA AO RIVAL

Conca estava no meio da recuperação de sua lesão, e o Flamengo havia acabado de inaugurar seu Centro de Excelência em Performance no Ninho do Urubu. Desse modo, o Rubro-Negro conseguiu um acordo com o Shangai SIPG, em que ofereceria seu CT, não teria custos na operação e pagaria apenas parte do salário do meia quando ele voltasse a atuar. O argentino aceitou e assinou um contrato de empréstimo de um ano, o que revoltou a torcida do Fluminense.

O sucesso de Conca não se repetiria no Rio de Janeiro. Assim, ele voltou a atuar apenas em junho e estava bem longe da sua forma física ideal. O meio-campista entrou em apenas mais uma partida, e, ao todo, esteve em campo em apenas 27 minutos pelo Flamengo no ano de 2017. O Clube da Gávea não deu mais oportunidades ao atleta, que se diz arrependido de ter jogado no rival de seu clube do coração.

FINAL DE CARREIRA

Foi devolvido ao Shangai no fim do ano, onde pediu sua rescisão de contrato, dando a entender que estava perto de sua aposentadoria. Voltou a jogar apenas em setembro de 2018, quando foi contratado pelo recém-fundado Austin Bold, clube do Texas que iria disputar a segunda divisão americana. O argentino disputou apenas duas partidas e anunciou sua aposentadoria em abril de 2019, aos 35 anos.

A passagem de Conca pelo Flamengo não apaga sua história pelo Fluminense. O jogador participou de três anos emblemáticos do clube, com três histórias diferentes, sendo protagonista em todos eles, principalmente no título brasileiro em 2010. Ao todo, em quatro temporadas e meia, atuou em 207 partidas, marcou 29 gols e deu 55 assistências pelo Flu. O torcedor tricolor, de fato, jamais esquecerá daquele baixinho, argentino, canhoto, tímido e extremamente habilidoso com a camisa 11 nas costas.

Foto destaque: Reprodução/Agência Estado

Nestor Ahrends
Estudante de jornalismo (ESPM-Rio). 19 anos. Nascido e criado em Petrópolis-RJ. Apaixonado por futebol e amante de esportes em geral.

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