Ao desprezar história, novo escudo da Juventus comete um atentado contra o futebol

Legenda: Juventus trocou seu tradicional escudo por um “J” estilizado (Fonte: Reprodução / Bombify)

Em tempos de mudanças cada vez mais profundas na maneira como o mundo do futebol se comunica com seu público, fica cada vez mais difícil chocar. No entanto, a Juventus de Turim provou, na última segunda (16), que chocar ainda é possível sim, ao apresentar seu novo escudo (se é que podemos chamá-lo assim) em um elegante evento realizado no Museu da Ciência e Tecnologia, em Milão.

Vamos tentar ignorar o fato de um evento tão importante para o clube não ter acontecido em sua cidade-natal, mas em terras rivais (casa de Internazionale e Milan). O encontro, cujo mote principal era “Black and White and More”, foi apresentado pelo presidente bianconeri Andrea Agnelli. Para ele, a mudança marca o início de uma nova era. “Para crescer, devemos continuar a vencer e evoluir nossa linguagem para atingir um novo público. O novo logo define um senso de pertencimento, e um estilo que nos permite comunicar o nosso estilo de ser”, afirmou.

Legenda: Para o presidente Andrea Agnelli, mudança radical é o início de uma nova era (Foto: Reprodução / Juventus)

A impressão que fica, no entanto, é que ao tentar se comunicar com um “novo público”, o atual foi completamente esquecido. A mudança foi motivo de reação enfurecidados torcedores do clube, e de muita risada dos rivais, que fizeram circular memes e mais memes pela Internet com o “J” estilizado. A ridicularização chegou ao extremo de o novo escudo já recebeu até mesmo uma irônica acusação de plágio do tenista sueco Robin Soderling.

No site da Juventus, em meio a fotos, vídeos e hashtags aos montes em alusão à mudança, encontrei uma nota que traz a referência histórica usada pelo clube para justificar a troca. É uma frase, proferida por Gianni Agnelli: “mi emoziono ogni volta che vedo sui giornali una parola che inizia per J” (algo como “Eu fico animado toda vez que vejo nos jornais uma palavra que começa com J”).  Sinceramente, não parece o bastante.

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O novo “escudo” demorou UM ANO para ser criado, segundo a Juventus. Doze meses de trabalho árduo cujo resultado atende fielmente à tendência do design moderno, de extremo minimalismo (o famoso “menos é mais”). Pode funcionar para empresas, mas cabe em clubes de futebol? Seria a transformação definitiva do clube em negócio, do futebol em mero produto?

Mas o que realmente não consigo parar de pensar é: em que esse novo logo pode contribuir para a expansão da Juventus que o antigo logo não seria capaz de fazer? Por que raios o clube viu como necessária uma mudança tão radical, se outras equipes como Real Madrid, Barcelona e Manchester United são gigantes globais sem passarem por movimento similar?

Outros clubes mudaram seus logos recentemente, como o Manchester City em dezembro de 2015 e o Atlético de Madrid mês passado. No entanto, em ambos os casos houve o cuidado e de manter elementos históricos que eram essenciais para a identificação dos clubes – e mesmo assim houve quem fosse muito contra. Mas não deixou de ser um sinal de respeito em meio a uma suposta necessidade de modernização.

No caso da Juventus, não houve nada disso. Com seu aval covarde, a Interbrand (chefiada por Manfredi Ricca) passou como um trator por cima de uma história mais do que centenária e pretende, agora, convencer a todos de que é a coisa certa a se fazer. Nada menos que lamentável.

Elegante para alguns, moderno para outros, criminoso para muitos. Para nós, amantes do futebol, tudo o que resta é esperar é que esse desastre não encontre adeptos em outros clubes. Nosso esporte não merecia tanto desprezo.

Daniel Keppler
Daniel Keppler, 28 anos, aspirante a jornalista e apaixonado pelo futebol e sua rica história. Corinthiano incondicional, também acompanho de perto outros times como Corinthian-Casuals, Barcelona, Al-Ahly e Racing Club

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