Terá sido o Benfica o clube da ditadura de Salazar?

- Muitos debatem de um suposto favorecimento estatal no domínio benfiquista nos anos 60 e 70, tás a ver?
Salazar Benfica

Olá, amigos de Brasil! O Gajo está de volta e classificado para a Eurocopa na última Data FIFA. Infelizmente, não consegui fazer meu centésimo gol por Portugal, mas estou muito feliz por ajudar meus companheiros a saírem vencedores. Adeptos, aqui já trouxe as origens do futebol português e a trajetória do meu ídolo Eusébio. Essa semana, vou falar de um episódio triste na memória nacional que envolve o Pantera Negra e o “outro clube de Lisboa“. Assim, escolhi trazer para vocês as relações do Salazarismo com o Benfica e o dia em que Eusébio e sua equipe foram impedidos de jogar por questões políticas.

A DITADURA SALAZARISTA EM PORTUGAL

Antes de mais nada, para aqueles que não conhecem, o Salazarismo foi um regime ditatorial que teve espaço em Portugal entre os anos de 1933 à 1974, conhecido como Estado Novo. Sendo assim, o termo faz alusão à Antônio de Oliveira Salazar, que foi chefe da nação por 35 anos. Assim, com a implantação da República em 1910 e o envolvimento na I Guerra Mundial, nós passamos a conviver com vários problemas internos. Foi nesse contexto que o discurso conservador e autoritário foi encampado nas ruas de Portugal, resultando no Golpe de 28 de Maio de 1926.

Dessa forma, cinco anos mais tarde, Salazar chegou ao poder ao assumir o cargo de Presidente do Conselho dos Ministros, equivalente à Chefe de Estado. Em 1933, ele promulgou uma nova constituição e iniciou o período marcado pelo viés nacionalista, antidemocrático, antiliberal, corporativista, colonialista e conservador. Sendo assim, muitos associam o regime à corrente fascista. No entanto, atualmente, essa compreensão está sendo questionada por historiadores e ainda não se tem um consenso se realmente possuía tal perfil. Em 25 de Abril de 1974, o período teve fim com a Revolução dos Cravos e a reconstrução da democracia.

SALAZAR E O BENFICA

Mas vou deixar a história um pouco de lado e voltar a falar de futebol. Como dito semana passada, o Benfica surgiu para o mundo pelos pés do jovem Eusébio. Logo, nos anos 60, era o grande time nacional e exemplo maior do patriotismo português, muito pelas duas conquistas da Liga dos Campeões. Assim, como costume de governos populistas, o presidente não tardou para se associar e obter ganhos com as vitórias dos Encarnados. Mesmo com o inicio da televisão em Portugal, a final europeia teve transmissão nacional – apesar das interferências. E, durante o resto da semana, a partida foi retransmitida uma vez por dia.

Além disso, os vitoriosos foram recebidos com a medalha de honra desportiva das mãos do Presidente da República, Américo Thomaz, e do Conselho, Antônio Salazar. Assim, o homem forte do regime ainda teve uma conversa amistosa com a delegação demonstrando sua satisfação pela conquista – e pelo serviço prestado à pátria. Anos depois, com a consolidação do Pantera Negra e do Benfica, a equipe foi apelidada de “clube do regime” e Salazar chamado por Eusébio de “padrinho“. Nesse contexto, é famosa a história que o ditador proibiu a venda de Eusébio para evitar que o “patrimônio do Estado” deixasse a nação.

Eusébio e o “padrinho” Salazar (Reprodução: Tribuna Expresso Portugal)

Nesse período, o Benfica viveu os anos dourados de sua história, apesar das suspeitas de favorecimento estatal nas conquistas. A bem da verdade, durante os 40 anos da ditadura, os Águias foram 51 vezes campeões. Sendo assim, entre os principais títulos, conquistaram 20 campeonatos nacionais, 16 Taças de Portugal e duas Ligas dos Campeões, as únicas de sua história. Enquanto que nas demais temporadas de seus 115 anos, o clube de Lisboa faturou 63 títulos. Logo, em um recorte de 1/3 de sua trajetória futebolística, conquistou quase metade de seus títulos durante a Era Salazar.

O DIA EM QUE SALAZAR IMPEDIU O BENFICA DE EUSÉBIO DE JOGAR EM MOSCOU

Atualmente, eu vou à Rússia e marco quatro gols na Copa, no entanto naquela época era tarefa difícil. Pois, no auge da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o regime salazarista se aliou aos norte-americanos. Dessa forma, os contatos se resumiam a reuniões científicas e provas esportivas. Nesse contexto, um episódio chamou a atenção dos meus compatriotas em 1965. O Benfica ia fazer uma excursão à Moscou para um jogo amistoso contra o Spartak, pelo qual receberia quatro mil contos, ou 20 mil euros, nos dias atuais. Entretanto, foi impedido por Salazar.

Assim, na edição de seis de setembro do Diário de Notícias foi divulgado o convite de membros do Spartak para dois jogos amistosos contra o Benfica. No entanto, com uma advertência: “se for dada autorização superior“. Além dos jogos, a excursão levaria grupos culturais para apresentações em solo russo. De imediato, o governo português abriu inquérito para apurar o fato e dirigentes benfiquistas foram interrogados. Assim, para os Salazaristas, existia perplexidade por um clube local querer ir a um país com o qual Portugal não possuía relações diplomáticas. Sendo assim, a decisão final foi pela proibição da viagem.

Escrete benfiquista que viajaria à Moscou no duelo contra o Spartak (Reprodução: Arquivo Diário de Notícias)

A RESPOSTA BENFIQUISTA

Apesar disso, os dirigentes do Benfica marcaram posição contra o governo afirmando que “o Benfica não tem quaisquer razões para pensar que seja considerada impossível pelas competentes autoridades portuguesas a realização de um encontro de futebol entre a sua equipe e a de um clube russo“. Mas, o fato é que as partidas nunca foram realizadas. 52 anos depois, Antônio Simões, um dos destaques Benfiquistas, relatou que:

Os jogadores não se apercebiam da intervenção do regime, mas o certo é que era muito complicado obter vistos para ir a países do Bloco do Leste, dominado pela União Soviética, pois havia um controle muito grande. (a proibição da excursão) Vem provar que o Benfica nunca poderá ser catalogado como o clube do regime, (porque) acabou por marcar uma posição contra o regime de Salazar” – afirmou Simões.

O MITO DO “CLUBE DO REGIME”

Durante muitos anos, o Benfica carregou a alcunha associada à Salazar. No entanto, na esteira do que Antônio Simões recordou, é necessária uma desconstrução de argumentos. Os fatos atestam que houve uma associação, mas vinda de Salazar para o clube e não do clube para com Salazar. Primeiramente, a cor vermelha benfiquista, ligada a URSS, não seria bem vista em um governo anticomunista. Além disso, durante o regime, a presidência dos Encarnados foi majoritariamente presidida por oposicionistas ao Salazarismo. E foi durante a fase decadente da ditadura, nos anos 60, que o clube despontou como grande força nacional.

Ainda mais, o Benfica foi campeão europeu com jogadores que faziam parte dos movimentos de libertação das colônias, como Santana e Coluna. Algo que Salazar teve que aceitar se quisesse obter ganhos políticos com a conquista. Embora tenha interferido no hino do clube, que foi obrigado a trocar “Avante, Benfica” por “Ser Benfiquista“, pois indicava sinais de progresso particular. Mas isto é assunto para outro O Gajo conta.

Sobre isso, Alberto Miguéns, historiador do Benfica, frisa que:

A maior demonstração de que o Benfica nada tinha com a ditadura era o fato da seleção nacional somente ter jogado no Estádio da Luz, que era o maior do país, em 21 de abril de 1971, com a Escócia, nas Eliminatórias da Euro 1972, e por pressão da imprensa, que defendia que o fracasso nas Eliminatórias para a Copa de 70 se devia ao fato de Portugal não jogar no estádio onde pudesse ter mais público” – disse Miguéns.

Tenho dito…

Assim, amigos, por mais que eu não seja adepto do Benfica, não era o clube do regime como se ventilou. Salazar aproveitou-se da Era Eusébio para se promover e se credibilizar em um período em que os pilares de sustentação já começavam a ruir. Nada diferente de qualquer outro ditador, nada diferente de Pinochet com o Colo-Colo do Chile. Não foi o regime que remontou contra o Real Madrid, em Amsterdã, e goleou por 5 x 3 nas finais da Liga dos Campeões. Se o Benfica dominou nesse período, se deveu ao grande time formado pelo Pantera Negra, Coluna, José Augusto e companhia.

Foto Destaque: Reprodução / Reflexão Portista

Ricardo do Amaral

Sobre Ricardo do Amaral

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"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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