Rivalidade ideológica: clubes da Bundesliga têm ideais opostos fora dos gramados

Union Berlin e RB Leipzig possuem premissas diferentes, que refletiram em protestos nas arquibancadas
Union Berlin tem rivalidade ideológica com clubes da Bundesliga

No início da temporada 2019/20 da Bundesliga, o estreante Union Berlin recebeu o RB Leipzig em um dia de enorme expectativa. Jogando em casa, no Estádio An der Alten Försterei, o clube contou com a massiva presença da torcida, fiel companheira da jornada da equipe. Apesar da festa, os primeiros 15 minutos do confronto foram de enorme silêncio. Isso porque, de um lado do campo havia um time muito ligado aos seus princípios e aos movimentos sociais. Em contrapartida, o adversário conta com apoio financeiro da Red Bull. A relação entre multinacionais e clubes de futebol causa reprovação entre muitos dos torcedores alemães.

Forte nas arquibancadas, o protesto não foi unanimidade entre os jogadores. “O planejado boicote de vocês nos primeiros 15 minutos não é bom para nós, jogadores. Vocês podem fazer um coro ou fazer outra coisa. Nós, jogadores, juntamente com vocês, torcedores, devemos mostrar ao nosso oponente que é o nosso lugar, nossa casa”, declarou o goleiro Rafal Gikiewicz. Por outro lado, o zagueiro Neven Subotic acrescentou: “Há poucos protestos como esse. Nossos torcedores têm uma clara posição. E eu os apoio”. Conheça um pouco mais a respeito da história dos chamados Die Eisernen.

NASCIMENTO DO UNION BERLIN

Nascido como FC Olympia Oberschöneweide, em 1906, o clube passou por uma série de transformações ao longo dos anos. Fortemente ligado ao movimento operário, a equipe foi apelidada de Schlosserjungs – garotos metalúrgicos – devido ao kit azul, que remetia ao uniforme dos trabalhadores da região. Desse modo, tais raízes foram mantidas até os dias atuais, incluindo o apelido Die Eisernen – os de ferro. Passado a Segunda Guerra Mundial, as forças aliadas exigiram a dissociação de todas as organizações alemãs, incluindo clubes de futebol. Com isso, a reformulação e refundação do time veio só em 1966, quando – sob o nome de FC Union – adotou o uniforme vermelho na reforma esportiva da Alemanha Oriental.

RIVALIDADE

Com a necessidade de uma equipe de sucesso na capital, a República Democrática Alemã (RDA) promoveu a transferência do esquadrão do Dínamo de Dresden para o BFC Dínamo – um clube de polícia de Berlim. Assim, o Union agora tinha um poderoso rival. O novo plantel foi apoiado por inúmeros funcionários do Governo, incluindo o chefe da inteligência da RDA, Erich Mielke. Desse modo, com tamanho apoio, o Dínamo obteve carta branca para manipular a liga em seu benefício.

De propina aos árbitros a privilégios no mercado de transferências, o time conquistou 10 títulos consecutivos – de 1979 a 1988. Em contrapartida, os Garotos Metalúrgicos lutavam por fora, levando cerca de 20 mil torcedores aos estádios. A torcida mantinha-se firme contra o cenário local. Reflexo do clube, os apoiadores do Dínamo eram extremamente violentos, divertindo-se com os benefícios concedidos pelo Estado.

CRISES FINANCEIRAS

Passando por dificuldades, os clubes de Berlim – Hertha e Union – cogitaram a unificação entre as duas equipes. Contudo, o sonho falhou e os Die Eisernen tiveram de esperar mais alguns anos pela estabilidade financeira. Mesmo liderando a divisão regional nas temporadas de 1993 e 1994, o plantel não obteve permissão para disputar a 2.Bundesliga devido à falta de financiamento. Dez anos depois, o Union Berlin esteve à beira da extinção mais uma vez. Isso porque, a federação exigiu uma garantia de €$1,5 milhão – que acabou sendo paga pelo empresário Dirk Zingler, presidente da equipe até os dias atuais.

Além disso, os torcedores promoveram uma campanha denominada Bluten für Union – sangramento para Union – literalmente doando sangue e dinheiro ao clube, para compensar a diferença. Em 2008, um novo problema. O estádio dos Garotos de Ferro necessitava de reformas urgentes, mas o tempo era curto e o dinheiro mais ainda. Sendo assim, os fãs novamente provaram seu amor ao esquadrão e literalmente começaram a reconstruir a casa – que hoje é o maior estádio específico do futebol em Berlim.

TRADIÇÕES DO UNION BERLIN

Em meio a um cenário no qual as torcidas se importam bastante com grandes contratações e medem sucesso através de transações exorbitantes e inúmeros troféus, os Die Eisernen se mostram o oposto – mesmo nos dias atuais. Além disso, o clube preocupa-se ao extremo com a participação dos fãs nas tomadas de decisão. Ou seja, as principais escolhas dependem da aprovação da torcida. É justamente aqui que o Union Berlin se difere dos demais times. A exemplo do próprio RB Leipzig, o qual impede que funcionários não pertencentes à Red Bull se tornem membros votantes.

Questionado sobre o possível deslumbre ao disputar a Bundesliga pela primeira vez, o ex-chefe do departamento de fãs do clube de Berlim, Jacob Rösler, disse não estar sujeito às armadilhas. “Ser capaz de competir de acordo com nossos termos – mesmo com os clubes menores da primeira Bundesliga, muito menos dos melhores times ou da Europa – parece um objetivo bastante otimista no momento”. 

Foto destaque: Reprodução/ Getty Images

Maria Luisa Araki

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