Morte de jogador expõe infraestrutura precária e amadorismo no futebol uruguaio

Conhecido pela ampla tradição no cenário sul-americano, o futebol uruguaio vai de mal a pior
Morte de jogador expõe infraestrutura precária e amadorismo no futebol uruguaio

O futebol uruguaio vem passando por maus bocados nos últimos anos. Crises com direitos transmissivos, luvas e direitos dos atletas, insegurança da arbitragem, invasão de torcida em federação e, mais recentemente, a morte de um atleta de 17 anos do Boston River à beira do gramado, na última quinta-feira (26). Porém, o fato mais recente voltou a colocar em discussão o profissionalismo do campeonato local. Com exceção a Nacional e Peñarol, a infraestrutura das equipes uruguaias é precária. A começar pelos estádios, que são muito antigos e não trazem atração à mídia, torcida e estrangeiros, logo, a falta de recursos financeiros.

Mas o fato do país ser pequeno e contar com uma pequena população pode ser um fator que contribui para uma má evolução do esporte local. Entretanto, a monopolização dos dois grandes clubes, Nacional e Peñarol, também faz com que as outras equipes não consigam competir no mesmo nível. Dessa forma, o investimento de recursos nos times é mínimo e a tradição de chamar de “futebol raíz” ou de tratar o futebol do país apenas como formador de jogadores influi num baixo desenvolvimento do torneio.

Discussões sobre cobertura médica nos campos de futebol uruguaio

A morte do jogador de 17 anos, Agustín Martínez, zagueiro do Boston River, reativou as discussões sobre a cobertura médica e os buracos do futebol uruguaio, que está longe de ser profissional. Com isso, autoridades esportivas, médicos, jornalistas, torcedores e outros protagonistas discutem sobre o caso concordam que algo precisa ser feito rapidamente. Assim, o presidente da MUFP (Mutual Uruguaia de Futebolistas Profissionais), espécie do extinto Bom Senso F.C. do Brasil, onde cobram melhores condições de trabalho para os jogadores, Michael Etulain, lamentou o fato do futebol charrúa não poder contar a devida estrutura e ainda detalhou os motivos:

“Durante muito tempo foi analisada a possibilidade de cobertura de ambulância em cada partida de futebol profissional, séries A e B. Mas há algum tempo fomos informados de que era impossível pela forma social do Uruguai: temos mais de um milhão e meio de habitantes apenas em Montevidéu e a atividade de futebol do fim de semana é muito relacionada às ambulâncias disponíveis. Desde que assumimos o cargo de comitê diretor da Mutual, trabalhamos com o assunto, nos reunimos com todas as empresas de emergência móveis e isso é real: é muito complexo ter cobertura em todas as partes”. Portanto, é concreto e real: vai custar muito.

Reunião “pós-trauma” e opinião especialista

O alto custo para ter uma ambulância em cada estádio das duas principais divisões do futebol é um reflexo do que fora dito outrora no texto. Os pequenos clubes uruguaios não tem dinheiro para investir em algo altamente necessário. Dr. Edgardo Barbosa, membro da equipe médica da Seleção Uruguaia de Futebol, afirmou que terão uma reunião para acertar mudanças consideráveis:

“Teremos uma reunião amanhã, à qual Michael Etulain me citou. Será necessário estabelecer um movimento forte em todas as propriedades para tentar marcar um antes e depois dessa fatalidade. Também deve ser transferido para a OFI [Organização de Futebol do Interior], para não implementar apenas no futebol da capital. Eu já apresentei a OFI – através de Luis Matosas – e a Fernando Sosa, o neutro que representa o futebol do interior. Alguns mandamentos que devem ser seguidos, que vêm da FIFA e da Conmebol, e que em nosso país – por uma razão ou outra – acabou não sendo implementado. A recomendação é do Dr. Efraín Kramer, sul-africano, que argumenta que os testes físicos, como feitos pela Gol al Futuro, devem começar cedo nos jogadores de futebol”.

Gol al Futuro, programa da Secretaria Nacional de Esportes

Pablo Hernández, coordenador do projeto Gol al Futuro, um programa da Secretaria Nacional de Esportes, critica os clubes considerados profissionais. Também expõe uma série de exigências que precisariam ser atendidas para que um clubes seja aprovado para exercer o direito de jogar nas duas principais divisões do futebol uruguaio:

“Se um clube é considerado profissional, há várias necessidades que precisam ser atendidas. É essencial contar com um médico que seja referência para todas as equipes de base. Os clubes precisam cumprir certas diretrizes para obter uma licença na Conmebol. Obviamente, a parte médica deve ser atendida. Nós do programa contribuímos com uma série de elementos que, em muitos casos, os clubes não possuem”, desabafou o coordenador que ainda complementou:

Temos mais de 8 mil avaliações para a prevenção de morte súbita. Há meninos que foram operados, patologias que foram encontradas. O programa atende às (divisões) bases, os clubes são alcançados uma vez por ano. Quando um novo garoto chega ao clube, o que pedimos é que eles nos enviem as informações de cada um, é importante que nos notifiquem. Se esse jovem não foi avaliado em seu novo clube, ele tem a possibilidade de ir a qualquer outro (clube) que está levando a sério a evolução (do atleta)”.

A parte econômica precária

Tudo, ou quase tudo, é por falta de recursos econômicos. É fato que o futuro do futebol uruguaio depende muito da seriedade das entidades, mas também da injeção financeira. Porém, não se sabe de onde virá esta “iniciativa”. Por exemplo na morte de Nahuel Agustín Martínez, por conta de uma parada cardiorrespiratóriao atleta fora atendido por um médico imediatamente, mas a ambulância, que não tinha no estádio, levou 15 minutos para chegar. Até havia um desfibrilador, mas não estava em posição de ser usado. O Dr. Edgardo Barbosa citou exigências da FIFA para os estádios e expôs a precariedade do Centenário, por exemplo, principal estádio do país:

Estádios cardioprotegidos (com desfibriladores) são outra questão não apenas para os jogadores, mas para todos os que estão presentes. Tudo isso está sistematizado pela FIFA. A cada 1 mil espectadores deve ter um corpo médico formado e treinado para atuar em emergências que possam ocorrer na arquibancada. Não sei se o estádio do Centenário tem um grupo de pessoas treinadas a cada 1 mil espectadores. Em um clássico, por exemplo – e é estabelecido pela FIFA – deve haver cinco ambulâncias e há apenas uma”, declarou o médico da Seleção Uruguaia, respaldando o Boca Juniors, clube que foi  novidade em 2017 por ser o primeiro a contar com essa cobertura.

Papo reto quanto ao uso de desfibriladores

Michael Etulain expressou ao Referí medidas para situações de emergência após a morte de Agustín Martínez e revelou que o sindicato solicitará um protocolo de segurança para os jogadores de futebol reportem ao quarto árbitro os casos de emergência para que os passos sejam tomados. Porém, também lamentou o fato do tema só tomar repercussão após uma fatídica morte. A declaração de Etulain levanta inúmeras questões relacionadas ao futebol uruguaio e se está realmente preparado para enfrentar emergências em campo. E não apenas com os jogadores, mas também com os torcedores.

“Nós mesmos estamos em falta quanto ao uso de desfibriladores. Temos uma ignorância no assunto. Como sociedade, temos um alto grau de responsabilidade. Porque só agora que isso acontece, que tem visibilidade, é que grande parte de todos nós, como sociedade, prestamos atenção que pode acontecer conosco a qualquer momento e em qualquer lugar. É lamentável. Se algo acontecer amanhã no campo do Rampla ou em qualquer outro, ninguém sabe onde está o desfibrilador. É a verdade”.

Nesse sentido, o presidente da Mutual disse que na sede da Mutual existe um desfibrilador e apenas um funcionário sabe como lidar com isso em caso de emergência.

“Para nós, quando assumimos como uma nova diretiva, não nos ocorreu que precisávamos fazer um curso”, disse ele com total sinceridade e apontou outro detalhe importante referente à preparação das pessoas: “O dispositivo está indicando (como utilizar), mas em uma situação urgente nem todas as pessoas estão calmas  o suficiente para o operar”.

Prevenção, medidas e controle

Gaston Tealdi, Membro do Comitê Executivo da AUF (Associação Uruguaia de Futebol), afirmou que precisa ser feito um controle no uso dos desfibriladores. Além disso, é necessário fiscalizar a certificação de quem utilizará e garantir que as equipes tenham o equipamento.

“O que precisa fazer é controlar. Essa é a chave. Além do fato de regulamentar o uso do desfibrilador, precisamos estabelecer mecanismos de controle e inspeção. Há desfibrilador em todos os estádios. Se os cursos forem concluídos, as pessoas se prepararam, entregam os equipamentos a elas, mas precisamos garantir que continuem funcionando”.

Questionado sobre a versão de que não havia um médico no campo no dia da morte de Martínez, Tealdi respondeu dizendo que pediram um relatório para apuração, mas que ainda não tiveram retorno. Entretanto, salientou que é obrigatório que tenha um médico. Sobre o fato de não ter ambulância, Jorge Casales, também membro do comitê executivo da AUF, acrescentou que, ao conversar com um médico, se acontecesse com Martínez na porta do hospital, poderia ter o mesmo resultado, pois o caso é um em 100 mil. Casales também divulgou que não houve atraso no atendimento a Agustín Martínez. Mesmo com obras no complexo do Boston River, por conta de um alargamento na Avenida José Belloni, a ambulância levou 12 minutos para chegar e, dessa forma, cumpriu o protocolo máximo de 15 minutos.

Parecer de especialistas

Gaston Tealdi finalizou dizendo: “Muito médicos especialistas afirmaram que muitos casos de morte súbita são inevitáveis. Mas se houver uma chance mínima de que ele possa viver, é necessário aprofundar todas as medidas que podem ser tomadas”. Goleiro do Rampla Juniors, Rodrigo Odriozola, de 31 anos, em entrevista ao Ovación Digital, contou que está fazendo um curso de treinador e na aula de anatomia fez um curso de primeiros socorros:

“A professora explicou que no hospital as chances de salvar uma pessoa com parada cardiorrespiratória são de 50%, enquanto fora do hospital e sem pessoas treinadas para realizar a ressuscitação ou sem desfibrilador, o percentual é de 5%. Se houver um desfibrilador e houver pessoas que fizeram o curso, o percentual aumenta para 25%”.

Foto destaque: Reprodução/Bola VIP

Eric Filardi

Sobre Eric Filardi

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Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia. Sou Eric Filardi, paulistano de 25 anos, jornalista de formação e apaixonado por futebol.Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, sou Peixe, sou Palestra e sou Timão. Sou da Colina, Botafogo, sou Flu e sou do Mengão. Sou Brasil, sou Hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 a 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões, sou Clássico das Multidões. Sou sul, sou nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, sou Raposa, sou Bavi e sou Grenal. Sou Ásia, sou África, sou Barça e sou Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas, que o estádio incendeia, sou Futebol na Veia.


 

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