Memória Lusitana: José Águas, o Cabecinha D’Oiro do Benfica

- Eterno capitão benfiquista nas conquistas de Champions League, nosso gajo se notabilizou pelos golos de cabeça, tás a ver?!
José Águas

Olá, amigos e amigas de Brasil! Enquanto aqui já estamos a voltar às atividades desportivas, estive a cá a lembrar que, no mundo ideal, estaríamos todos a vivenciar as emoções de mais uma final de Champions League. Claro, eu estaria dentro do relvado. No entanto, se não podemos estar a experimentar tal coisa, revisitemos nossas lembranças. Assim, neste mês, a Memória Lusitana do O Gajo Conta volta as décadas de ouro do Benfica em que José Águas, o Cabecinha D'Oiro, esteve a levantar duas taças dessas cinco que o Papai Cris possui.

DESDE A ORIGEM, BENFIQUISTA

Dessa forma, o Grande Capitão do outro clube de Lisboa tinha no sangue a paixão pelo Benfica. Isso porque, desde gajo via no pai, Raul António Águas, o exemplo benfiquista, ainda na pequena cidade de Lobito, depois de saírem de Luanda, sua terra natal. Na parede do quarto, um pôster, já amarelo e gasto, mas que simbolizava o devotamento aos Encarnados que inspirava o moleque desde antes de pensar a jogar bola. No entanto, após a morte de Raul, José Águas viu a maturidade bater a porta e ter que trabalhar como datilógrafo para ajudar a mãe, agora viúva e com filhos para criar. E foi ai que o pequenino deu seus primeiros passos no futebol.

Pois, José Águas se tornou jogador da equipa da firma e passou a revelar seu futebol ofensivo. Rapidamente, já estava a representar o Lusitano do Lobito. Apesar disso, da metrópole vinham informações do feito do Benfica na Taça Latina de 50, assunto para outra coluna, e os olhos do gajo cintilaram. Ao ver estrelas como Rogério e Julinho desfilarem seu grande futebol, mal sabia ele que pouco tempo depois se juntaria não só ao elenco, mas também à galeria de grandes ídolos das Águias. Dessa forma, ainda sob efeito do título diante do Bordeaux, da França, o futuro capitão participou de um… como vocês chamam?… peneirão… e passou.

Leia mais:

UMA CARREIRA DEDICADA AO BENFICA

Assim, aos 20 anos, desembarcou em Lisboa em 18 de setembro de 1950. No entanto, sem nunca ter visto um relvado ou botas de pitões, nosso gajo estreou na Tapadinha e não encantou de cara com um empate em 2 x 2 diante do Atlético. Apesar disso, na partida seguinte, já mostrava sinais de arrebatamento com quatro golos na histórica goleada por 8 x 2 frente ao Braga, no Campo Grande. Dessa forma, iniciava uma incrível história de amor digna dos grandes jogadores que nasceram para atuar com um manto de uma equipa. Foram 13 anos de encantamento, de títulos e de golos.

Logo, a década de 50 foi o apogeu de José Águas. Isso porque, marcando golos de todas as formas possíveis, o gajo foi eleito, por cinco vezes, o melhor marcador do Campeonato Português com 288 golos em 281 jogos, tás a ver?! Números semelhantes à lenda Fernando Peyroteo, já trazido a cá. Apesar disso, o atacante se notabilizava nas jogadas aéreas. Pois, talvez tenha sido o mais elegante a marcar de cabeça da história da nossa competição nacional. Assim, se posicionava com perfeição na área e dava o salto no momento exato para arrematar de cabeça para a baliza. Enquanto o Homem-golo tinha a força nos pés, Águas trazia seu artífice na cabeça.

A braçadeira na Champions…

Além disso, como capitão do Benfica, foi duas vezes campeão da Liga dos Campeões, em 1961 e 1962, ao lado de outros ídolos da bola como Eusébio e Mário Coluna. No primeiro título, vestindo a camisola 9, foi artilheiro da competição com 11 golos. Já na época seguinte, foi o melhor marcador dos Encarnados com sete tentos. No entanto, teria estado na terceira final continental das Águias, se não fosse a escolha do treinador chileno Fernando Riera. Sobre isso, José Águas chegou a se manifestar:

Algum tempo depois, pediu-me desculpas por não me ter colocado a jogar. Disse-lhe que até ficaria satisfeito com os golos de Torres. Era a verdade, era a voz do meu coração de benfiquista, mas Fernando Riera parece não ter ficado muito convencido“, disse.

PÓS-BENFICA: ÁUSTRIA E TÉCNICO DE FUTEBOL

Após ser cinco vezes campeão português, duas vezes campeão europeu e participar de 25 jogos pela Seleção das Quinas com 11 golos marcados, José Águas se despediu de Lisboa. Pois, recebeu um convite do Áustria FK, de Viena, e atuou por uma época antes de abandonar os relvados por completo. Após, se aventurou como treinador, tendo passagens pelo Atlético, Leixões e Amora. Apesar da carreira brilhante dentro do relvado, na parte exterior dele não correspondeu e encerrou os trabalhos em 1974, aos 44 anos.

No entanto, antes de sair das Águias, fez uma revelação aterradora de tão surreal. Isso porque, o eterno capitão do Bicampeonato da Champions League afirmou que vestia o manto encarnado com “o mesmo espírito com que o operário veste o fato-macaco“. Pois, era assim que ganhava a vida, já que até “não gostava de jogar à bola“. Apesar disso, o fato é que os Benfiquistas nunca deixaram de lhe ter enorme gratidão.

Apesar dessa declaração final, José Águas fez o dever dentro do relvado. Com dedicação e empenho, ele carregou o 9 encarnado nas costas com lealdade. Foi um prestigiado capitão da equipa do Benfica e incrível ponta de lança que será eternamente lembrado pelos golos de cabeça. Há 20 anos, perdemos um dos grandes ídolos da bola que se tornou o primeiro português a ser artilheiro da Champions League. Algo somente alcançado pelo Pantera Negra, José Torres e por este que vos fala. Além dele, seu filho, Rui Águas, hoje auxiliar do mister Jesualdo no Santos, também foi o melhor marcador da principal competição europeia. Uma família de goleadores benfiquistas.

Uma lenda dos relvados, um dos três grandes, e não estou falando dos clubes, da história de Portugal. Mais um para sempre em nossa Memória Lusitana.

Foto destaque: Reprodução/Pinterest

Ricardo do Amaral

Sobre Ricardo do Amaral

Ricardo do Amaral já escreveu 436 posts nesse site..

"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

365 Scores

BetWarrior


Ricardo do Amaral
Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

Artigos Relacionados

Topo