Memória Lusitana: Fernando Peyroteo, o homem-golo

- Antes do Papai Cris aqui, a máquina de fazer gols atendia por outro nome, tás a ver?
Fernando Peyroteo

Olá, amigos, quarentenados, de Brasil! Como medida de contenção ao coronavírus, cá estou também em minha casa, em Funchal, na Ilha da Madeira, mas não deixarei vocês sem uma edição de O Gajo Conta. Assim, última quinta-feira de março é dia de revirar a Memória Lusitana. Logo, o nosso figura desse mês partiu precocemente aos 60 anos, todavia fez história com a camisola verde e branca de meu Sporting com a melhor média mundial de bolas na redes. Igualmente, falar de mim é falar de golos, mas, só dessa vez, irei deixar a modéstia de lado para também falar do avançado Fernando Peyroteo, o homem-golo. Pois, no começo desse mês, ele teria feito 102 anos de vida.

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A INFÂNCIA EM ANGOLA

Fernando Baptista de Seixas Peyroteo nasceu a 10 de março de 1918, em Humpata, em Angola, que naquela época era uma província ultramarina de Portugal. Assim, filho de José Vasconcelos Peyroteo e Maria da Conceição, teve que enfrentar a morte prematura do pai, vítima de um ataque cardíaco, e as duplas jornadas da mãe para sustentar uma família de 12 crianças, onde apenas os dois mais velhos trabalhavam e ganhavam pouco. Na escola, entre jogos com bolas de trapo ou de borracha, praticou vários esportes como natação, remo, tênis, equitação, esgrima, atletismo e tênis de mesa.

No entanto, foi no futebol que se encontrou, muito ajudado pela ginástica aconselhado pelo mestre Ângelo Furtado de Mendonça para ganhar físico. Em 1934, com 16 anos, frequentou o Liceu Diogo Cão e passou a jogar já na posição de avançado centro, onde se destacou com os golos que marcariam toda a sua carreira. Assim, dois anos depois, foi atuar pelo Sporting Luanda. Logo, as boas atuações no clube levaram-no ao Sporting de Lisboa, clube de seu coração e onde jogou toda a rápida carreira. Dessa forma, chegou aos Leões em meio a final do Campeonato de Portugal 1936-1937, no qual o Porto foi campeão.

SPORTING CLUBE DE PORTUGAL

Assim, Fernando Peyroteo estreou pelo Sporting em 12 de setembro de 1937 em um torneio no Campo das Salésias diante do principal rival Benfica. Com dois golos, nosso gajo contribuiu para a vitória dos Leões por 5 x 3. Logo, desde o início conquistou elogios efusivos da imprensa. No primeiro jogo oficial com a camisa verde e branca, marcou mais dois golos na goleada por 7 x 0 contra o Casa Pia. Dessa forma, Joseph Szabo, técnico à época, afirmou “Fernando, você tem qualidades bestiais para fazer-se no melhor avançado do mundo“. E ele não podia estar mais certo, pois foi o que aconteceu.

Isso porque, os golos foram seus companheiros em 12 temporadas como jogador profissional. Assim, foram com eles que ele se tornou o maior goleador português de todos os tempos, só sendo superado pelo Robozão que vos fala. Além disso, é detentor de vários recordes imbatíveis. Por todo tempo em que atuou, jogou pelo Sporting e sendo o melhor marcador da equipa em todas as temporadas. Logo, foram 540 golos em 332 jogos oficiais. Dessas partidas, 189 foram válidas pelo Campeonato Português com 309 golos, média de 1,6 por jogo, a maior até hoje em campeonatos nacionais. Esse é um dado da Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS).

Perfil do avançado…

Dotado de uma vocação incomparável para os golos, a principal característica de Peyroteo era o arremate fácil, forte e colocado, que aliado a um bom jogo de cabeça e oportunismo na área, além da capacidade física, lhe dava vantagem nas divididas de bola. Assim, o gajo era estudioso, sempre antes de se defrontar com uma equipa analisava o adversário, como ele mesmo disse:

A minha preocupação era sempre estudar o defesa que cabia defrontar. Seria rápido na antecipação?Saltaria bem na disputa da bola? Teria dois bons pés ou um melhor que outro? Fecha os olhos quando vai à bola? Jogará com sutileza ou força? Tentava explorar as suas fraquezas.

OS MÍTICOS “CINCO VIOLINOS”

Durante sua carreira, Fernando Peyroteo formou duas lendárias linhas de ataque. Assim, a primeira, menos conhecida, era formada com Adolfo Mourão, Pedro Pireza, Manuel Soeiro e João Cruz. Já a segunda, apelidada de “os Cinco Violinos“, era composta por Jesus Correia, Albano Pereira, José Travassos e Manuel Vasques. Eram assim chamados pela fama internacional de jogarem como uma orquestra, devido ao notável espírito coletivo e a eficácia de jogo. Ora pois, na temporada 1946-1947, o Sporting marcou 123 golos em um Campeonato Nacional com apenas 26 jornadas!! Uma média de 4,7 golos por partida, um recorde que até hoje é absoluto.

Em um dos grandes embates contra o “outro clube de Lisboa“, Peyroteo fez história ao ser o primeiro jogador a marcar quatro golos na casa do Benfica, no então Campo das Amoreiras. Mas um detalhe chama a atenção, apesar de ter passado a noite febril, ele entrou no jogo e ajudou o Sporting a vencer por 4 x 1 e conquistar a primeira Taça “O Século”, assunto para outras colunas.

RECORDES

Além dos golos, Fernando Peyroteo ficará marcado por recordes e uma ligação com o icônico Estádio Nacional. Pois, na final da Taça Império, espécie da Supercopa do Brasil de vocês, nosso gajo marcou dois golos. Assim, registrando o primeiro tento do histórico relvado e ajudando o Sporting a ser campeão diante do Benfica por 3 x 2. Após, no primeiro jogo internacional do estádio, novamente marcou dois golos por Portugal contra a Espanha no empate em 2 x 2. Este jogo ficou marcado pela maior multidão que o local presenciou em uma partida de futebol. Além disso, em apenas um Campeonato Nacional, o avançado marcou 43 golos, recorde que durou 25 anos. No entanto, em média por partida ainda não foi superado.

Pela nossa esquadra portuguesa, o goleador nacional estreou já na primeira temporada pelos Leões e participou de 20 jogos marcando 13 golos e sendo um dos capitães. Parece pouco, mas ele atuou em uma época onde não havia muitas competições internacionais. Além disso, devido a Segunda Guerra Mundial, a Seleção Portuguesa ficou sem realizar partidas de janeiro de 1942 a março de 1945. Assim, Cândido de Oliveira, um de seus treinadores, confessou:

Pude acompanhar de perto quase toda a carreira de Fernando Peyroteo. E de jogo para jogo, de época para época, o fui seguindo, observando e admirando cada vez mais (…) não sei que mais me habituei a apreciar em Peyroteo: se a permanente fidelidade ao seu único clube, se a sua irrepreensível conduta em campo ou seu extraordinário mérito como avançado-centro

O ADEUS PREMATURO DOS RELVADOS

Todavia, pegando a todos de surpresa, Fernando Peyroteo decidiu se aposentar dos relvados com apenas 31 anos, em 1949. Para muitos, isso contribuiu para a perda do Campeonato Nacional de 1949-1950, que teria dado o tetracampeonato para o Sporting e um possível octacampeonato, posteriormente. Assim, as dívidas com sua loja de artigos desportivos teriam motivado sua retirada do futebol.

Ora pois, era costume à época, a realização de um jogo de despedida que proporcionava algum dinheiro aos jogadores. No entanto, não foi suficiente e as crises persistiam. Algo que lhe fez retornar para Angola. Já no fim de sua vida, uma lesão grave em uma partida de veteranos contra a Espanha, acarretou problemas de circulação após a cirurgia e o jogador teve que amputar a perna direita que tantas alegrias lhe deu.

Dessa forma, Fernando Peyroteo foi um homem que irradiava simpatia, culto, bom conversador, correto e de distinto porte. Nos deixou aos 60 anos, em 28 de novembro de 1978, vítima de um ataque cardíaco, em Lisboa. No entanto, será sempre lembrado como um dos heróis imortais do Sporting Clube de Portugal, sendo o terceiro maior campeão da história com 19 títulos. Seus golos e conquistas serão sempre uma saudosa recordação para aqueles que o viram jogar. Ele é mais um que estará para sempre na nossa Memória Lusitana.

Jamais poderei esquecer as lágrimas que chorei ao dar a última volta ao retângulo de jogo, acompanhado por Manuel Soeiro, Vitor Guilhar, João Cruz, Mariano Amaro e Alfredo Valadas despedindo-me e agradecendo a todos – àquela massa compacta de gente que enchia, por completo, o velho Estádio José Alvalade” – Fernando Peyroteo.

Foto Destaque: Reprodução / Camarote Leonino

Ricardo do Amaral

Sobre Ricardo do Amaral

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"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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