Manga: a vida salva pelo amor de uma torcida

Esquecido pelos brasileiros, o ex-goleiro é idolatrado no Uruguai
Manga - ACERVO OGLOBO

Desclausurando o Uruguaio é uma coluna semanal com o intuito de explorar histórias, curiosidades e tudo o que envolve o futebol bicampeão mundial. Por certo, o tema dessa semana será a comovente história de Haílton Corrêa de Arruda, popularmente conhecido como Manga. Campeão em todas as equipes que jogou, ficou marcado por um erro e foi esquecido pelo futebol brasileiro. Mas no Uruguai, onde conquistou o mundo, Manguita teve seu reconhecimento e a vida salva pelo amor de uma torcida.

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DO RECIFE PARA O MUNDO

Proveniente de uma modesta casa de palha localizada em Recife, capital de Pernambuco, Haílton Corrêa de Arruda, ou apenas Manga, nasceu no dia 26 de abril de 1937 e iniciou sua trajetória futebolística em um campo de terra próximo a sua residência. Além do futebol outra coisa também marcou, literalmente, a sua infância: a varíola. Atualmente a doença é declarada extinta pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mas durante os anos de 1930 e 1940 ela ainda era uma ameaça. E foi nesse interím que Manga adquiriu a infeção. Graças a precariedade no atendimento médico, o garoto recifense ganhou marcas da varíola em seu rosto. A saber, foram dessas marcas que Haílton recebeu o apelido de Manga.

Manga atuando pelo Sport - Foto por José Eustáquio

Manga atuando pelo Sport – Reprodução/José Eustáquio

Segundo o próprio ex-arqueiro, enfrentar atacantes era pouco para quem lutou e venceu uma grave doença. Toda essa bravura debaixo da traves, já era apresentada nas categorias de base do Sport. A primeira grande prova de sua qualidade foi no Campeonato Pernambucano de Juniores, em 1954. Naquela oportunidade, Manga não sofreu nenhum gol durante o certame, e o Leão da Ilha ganhou a competição. Desse modo, o goleiro rapidamente subiu para o elenco principal, fazendo sua estreia com apenas 18 anos de idade.

ÍDOLO EM GENERAL SEVERIANO

Todavia, Manga assumiu a titularidade em 1957 quando o Sport excursionou pela Europa e Oriente Médio. Absoluto na meta pernambucana, o camisa 1 ficou por lá até 1959. No mesmo ano o arquero recebeu o convite para atuar em um dos melhores clubes da época, o Botafogo.

Durante os 10 anos em que Manga vestiu as cores do Fogão, dividiu o vestiário com grande nomes do futebol. Alguns deles como: Garrincha, Didi, Amarildo, Zagallo, Gérson, Nilton Santos e Jairzinho dispensam apresentações. Em uma entrevista concedida ao portal Globo Esporte em 2018, Manga falou um pouco sobre sua passagem no Botafogo.

“Jogar com Garrincha era 50% de chance de vitória. Tinha também o Didi, folha seca, o Zagallo, formiguinha e tinha Quarentinha que jogava em qualquer posição. Nós ficavamos tranquilos porque em dez partidas, nós ganhávamos oito”. 

Ex-goleiro do Botafogo. Foto: Revista do Esporte

Manga no Botafogo – Reprodução/ Revista do Esporte

Toda essa confiança aumentava quando o adversário da equipe de General Severiano era o Flamengo. De acordo com relatos, dias antes desses duelos, Manga dizia que gastava o “bicho” no mercado antes mesmo da partida acontecer, pois a vitória sobre o Fla era certa. Os quatro canecos do Carioca e três do Rio-São Paulo não foram conquistados apenas pelo galático ataque do Botafogo, mas também pelos milagres operados por Manga debaixo das traves. Amplamente conhecido por se recusar a usas luvas, o destemido arquero também impressionava por sua grande elasticidade e saídas arrojadas. Todas essas qualidades, o credenciaram para defender as cores da seleção brasileira em 1965, e posteriormente em 1966 na Copa do Mundo, realizada na Inglaterra.

 COPA DE 66 E TIRO DE SALDANHA

A princípio Manga foi convocado apenas para ser o suplente de Gylmar, titular incontestável e àquela altura já havia ganho duas Copas. O primeiro jogo ocorreu como esperado, 2 x 0 encima da Bulgária. Todavia, a derrota diante da poderosa Hungria, ainda na fase de grupos, somada a lesão de Gylmar dos Santos Neves colocou em cheque o seu posto de titular. Dessa maneira, o técnico Vicente Feola escolheu o Manga para iniciar o crucial duelo contra Portugal.

Garrincha, Manga, Djalma Santos e Valdir - Foto/Arquivo pessoal de Valdir de Moraes

Garrincha, Manga, Djalma Santos e Valdir em 1966 – Foto/Arquivo pessoal Valdir de Moraes

Logo no início, a Seleção das Quinas já mostrava qual seria sua tática: caçar o Pelé. Com o camisa 10 anulado, bastava caprichar no ataque. Tarefa simples, já que Eusébio comandava a ofensiva portugesa. Ao mesmo tempo, Manga não estava inspirado, o guarda-metas brasileiro se atrapalhava em lances relativamente fáceis. Como resultado, o Brasil concedeu três gols a Portugal e foi eliminado ainda na fase de grupos.

Depois das falhas na Copa, o camisa 1 parou de ser selecionado para vestir a amarelinha, e o clima piorou. No Rio, quando Manga foi acusado por João Saldanha de tentar vender o título da Taça Guanabara de 1967. As discussões passaram de ameaças, para uma agressão de fato. Saldanha atirou nos pés do arqueiro com uma arma. Felizmente o tiro não acertou o alvo. Manga fugiu, pulou um muro e caiu em Montevidéu.

DE RESERVA PARA A IMORTALIDADE

Indicado por Zezé Moreira, então técnico do Nacional do Uruguai, o ex-goleiro de General Severiano foi contratado pela diretoria Bolso. Todavia, deveria brigar com outros três arqueros pela posição. O seu rival direto era o argentino Rogelio Domínguez, experiente, seguro, mas com problemas no joelho. Decerto, Domínguez ganhou o embate com Manga. Até que em uma excursão para a Argentina, o Nacional sofreu uma sonora goleada diante do Boca Juniors. Assim sendo, Zezé acionou Manguita, apelido de Manga durante sua passagem pelo paisito. Manguita recebeu o buso 1 para o duelo contra o Santos de Pelé. Por certo, o goleiro sem luvas deu conta do recado, parou os Meninos da Vila com defesas de encher os olhos. Daí em diante não saiu mais do arco uruguaio.

Pernambucano de origem, com mais de 1,80m de altura, e dedos tortos em virtude da profissão, Haílton, ou apenas Manga, fez história com as cores do Nacional. Afinal, as suas defesas contribuíram e muito para a conquista da Copa Libertadores de 1971. Levou apenas quatro gols no decorrer do certame. Além de ter detido o Estudiantes de Carlos Bilardo e Pachamé, àquela altura tricampeão continental, na decisão. Manguita também ajudou os Bolsos no triunfo da Copa Intercontinental de 1971 e no tetracampeonato uruguaio consecutivo (1969, 1970, 1971 e 1972). Todas essas honrarias transformaram o arquero em ídolo incontestável do Nacional.

Elenco do Nacional campeão da Libertadores em 1971 - Foto/Reprodução CONMEBOL

Elenco do Nacional campeão da Libertadores em 1971 – Foto/Reprodução CONMEBOL

SALVO POR UMA TORCIDA

Considerado por muitos como o maior goleiro da história tricolor, Manga deixou o Uruguai após cinco temporadas na equipe do Nacional. Atravessou a fronteira e seguiu rumo a Porto Alegre para jogar no Internacional. Tempos depois passou pelo Operário-MS, Coritiba-PR e Grêmio-RS e em 1982 decidiu encerrar sua carreira no Barcelona do Equador, onde resolveu morar após pendurar as luvas. Haílton Manga Corrêa de Arruda viveu em Guayaquil até dezembro de 2019.

No entanto, o ex-atleta perdeu grande parte do dinheiro ganho ao longo de sua brilhante carreira, e passava necessidades médicas no Equador. Só para ilustrar, Manga desenvolveu disfunção na próstata, lhe causando sérios problemas renais. A falta de capital impediu o tratamento da enfermidade em um hospital particular, forçando-o a utilizar do precário sistema de saúde público. Desesperada com a situação de seu marido, Cecilia Cisneros resolveu pedir ajuda ao consulado uruguaio no Equador.

A ligação surpreendeu o cônsul Mateo D’Costa, outra coisa que pasmou foi o desejo de Manga de morrer no Uruguai. Prontamente, Mateo contatou seu amigo Enrique Singlet, que faz parte junto a outros 16 hinchas do coletivo Campeón Para Toda La História, afim de preservar a história futebolística charrua. Desse modo, Manga teve suas passagens aéreas pagas e também ganhou um lugar para morar. O local foi um quarto cedido por Matías Montiel, adepto Bolso que ofereceu a sua casa pelo fato de não poder contribuir financeiramente para as arrecadações.

“Ele (Manga) acabou adiantando sua viagem em dois dias, então só terminei de pintar o quarto às 2h da manhã, com a ajuda do meu filho (Cristiano), e às 3h fomos para o aeroporto buscá-lo.”

Manga sendo recepcionado por torcedores no aeroporto - Foto/Reprodução Globo Esporte

Manga sendo recepcionado por torcedores no aeroporto – Foto/Reprodução Globo Esporte

Salvo que Manga foi recepcionado no dia 11 de setembro de 2019 por Matías e um grupo de torcedores no Aeroporto Internacional de Carrasco, Montevidéu. Torcedores esses que contataram o jornalista Jorge Silveira para divulgar a situação do eterno ídolo Bolso. Silveira acionou a associação mutualista de saúde Asociación Española e a instituição concordou em arcar com todos os gastos no tratamento de Manga. Gastos com comida e outras dispesas mais, foram pagos por “vaquinhas”, doações, vendas de souvenirs e rifas feitas pela torcida do Nacional.

Recuperado de seus problemas renais, Manguita permaneceu Uruguai, assistiu a 12 jogos do Nacional no Estádio Gran Parque Central, mas no dia 14 janeiro de 2020, Manga e sua esposa Cecilia resolveram regressar ao Equador, onde possuem filhos e netos. Por fim, o ídolo esquecido pelos brasileiros, mas querido pelos uruguaios, finalmente teve seu reconhecimento. A retribuição pelos serviços prestados não foram apenas um agradecimento, mas sim um enorme gesto de amor.

Foto destaque: Reprodução/Agência O Globo

Luciano Massi

Sobre Luciano Massi

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Me chamo Luciano Massi, tenho 20 anos, sou paulistano. Estou no 6º semestre do curso de Jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi. Desde criança fanático pelo futebol dentro e fora das quatro linhas, histórias que vão além do esporte. Produzo o Derbicast, podcast voltado ao futebol alternativo, dando enfâse aos esquecidos. Entretanto, nunca me dei bem com a bola...

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