Malandragem não é corrupção

Gol de mão. Claríssimo. Deveria ter sido anulado, se o árbitro tivesse tido a coragem de anular – a não ser, claro, que estivesse desatento. Não era para o Corinthians ter vencido no último domingo, embora tenha desperdiçado várias boas oportunidades, o que é sinal de nervosismo ou incompetência, não de merecimento. Time que cria e não marca, perde. O detalhe de pôr a bola para dentro não é um detalhe, é o mais importante.
Para muitos jogadores, o mais difícil é fazer o que parece mais fácil. Por isso correm, driblam, lançam, tabelam, mas, cara a cara com o goleiro, chutam pra fora. Quando marcam, é o gol improvável: a batida de fora da área que poderia ter subido demais, mas numa tarde ideal, resvala no travessão e entra. Nos prováveis, quando estão livres de marcação e só dependem de si, pegam mal na bola. É por isso também que Romário era foda. Ele era o melhor no mais importante atributo do futebol. Perdeu gols, claro, assim como Pelé, mas o seu índice de acerto era excepcional. Os gols fáceis que Romário fazia, a maioria os perderia.
Dito isso, vamos a algumas ponderações sobre a polêmica de Jô. Relacionar uma vitória com gol irregular aos desvios bilionários de recursos públicos me parece, no mínimo, um exagero. Desviar dinheiro é muito mais grave. Óbvio. Vencer roubado é feio, mas no esporte isso não é tão anormal, sobretudo no futebol, que permite uma lata margem de interpretação arbitral. Sempre foi assim e continuará sendo até que a tecnologia interceda, o que não quer dizer que o favorecido não venceria de outro modo. Alguém diria, por exemplo, que o bicampeonato mundial da Argentina foi manchado por causa da mão de Maradona? Alguma dúvida que ela era a melhor seleção do mundo em 86?
Um time que fica invicto 34 jogos – durante todo o primeiro turno do torneio – algo fez para merecer, ainda que seja o preferido da imprensa e que tenha sido, ao longo da história, muitas vezes beneficiado pela arbitragem, como de fato o foi. Ocorre que neste mesmo campeonato também houve erros em desfavor ao Corinthians, como os gols mal anulados do próprio Jô contra Flamengo e Coritiba, além da mão de Luís Adriano no duelo de ida contra o Vasco em São Januário, apesar deste não ter interferido no resultado. O Timão ainda não conquistou o título, e se continuar com tanta dificuldade para fazer gol, possivelmente não conquistará, mas a folga na liderança obtida até o momento não se deve à arbitragem, senão aos adversários que não encurtaram a diferença quando tiveram três chances para tal.
De volta a “La mano de Dios”, não quero comparar o Corinthians à Argentina, mas sim os lances irregulares, ambos cruciais, em situações distintas. O que quero dizer é que a tentativa de estender ao futebol o drama da vida em sociedade evoca uma simplificação equivocada. A sociedade é muito mais complexa que o futebol. Menos mal que seja.
Nenhum esporte, independente da sua dimensão, sintetiza um país. Simboliza, no máximo, uma imagem, às vezes distorcida, por meio da qual é possível se identificar com algum dos seus aspectos culturais. Ao contrário do que muitos sugerem, o futebol não é a metonímia do Brasil. Quando a seleção joga, milhões a ignoram. E não é só porque ultimamente ela não tenha empolgado – o que não é verdade – mas sim porque sempre houve milhões de brasileiros que não gostam de futebol.
Não pretendo diminuir o papel do futebol no tecido social brasileiro. Ele é, de fato, um elemento forte da nossa cultura – não por conta dos cinco êxitos mundiais, mas pelo fato de não haver um único vilarejo no Brasil onde não haja um campinho, mesmo improvisado, que propicie uma forma espontânea de convivência e interação. Se tantas pessoas o escolhem como lazer predileto, e se ele é assunto constante nas mais variadas situações cotidianas, é porque ainda oferece algo aos fãs, que, suponho, dificilmente se arrependem do tempo precioso que lhe é dedicado – na pelada ou em frente à TV.
Ao longo da história, o futebol conseguiu unir clãs inimigos, interrompeu guerras e trouxe algum alento, mesmo momentâneo, a regiões tão sofridas, haja vista o caso atual da Síria, que pela primeira vez disputará a repescagem da Copa do Mundo. Em São Paulo, a Copa dos Refugiados reúne todos os anos povos diferentes, que aqui compartilham dos mesmos sonhos, dos mesmos ideais, num torneio em que o resultado é o propósito menor. São alguns exemplos, dentre tantos, que comprovam que o esporte vai além da competição.
Também não é verdade que o futebol esteja numa bolha desconectada da realidade, embora muitas vezes os seus protagonistas o fazem parecer. Porém, daí a achar que ele é um retrato fiel da realidade, um reflexo da sociedade, é forçar a barra. O futebol não é a causa nem muito menos a solução para os problemas nacionais, que estão em outro campo passional.
A comparação com a atitude de Rodrigo Caio, apesar de válida, é desproporcional. A reversão de um cartão amarelo não exige a mesma honradez que a de um lance capital. Como Rodrigo Caio agiria neste segundo caso ninguém sabe. Suponho que muitos fariam o mesmo que Jô. A despeito de uma certa falsidade na justificativa dele, não admitir que a bola tocou no braço é um ato criticável, sem dúvida, mas muito distante de qualquer forma de corrupção. Se fosse, poderíamos chamar de bandido o camarada que faz um gato para assistir o seu time de coração porque não tem grana para pagar a conta abusiva das operadoras telefônicas, que, aliás, entregam um serviço aquém daquele ofertado antes da venda. Jô tirou proveito de uma situação às custas de um juiz que não o penalizou. O prejudicado em questão foi o Vasco, não a sociedade brasileira.
A justiça que almejo para o país não é a mesma que quero ver aplicada, ipsis litteris, ao futebol. Ele não está tão preso aos códigos. Está sempre sujeito ao improviso e às falhas, que são próprias de qualquer ambiente lúdico. Ao impor uma norma de conduta racional nos gramados, o espetáculo fica mais previsível e sem graça. No jogo que eu amo, a emoção massacra a razão, o oposto do que se espera de um tribunal. Estou disposto a perdoar os erros que eliminam o Brasil contra a Argentina, porque sem eles até pode haver justiça, mas jamais haverá a mesma vibração.
Caio Araújo

Sobre Caio Araújo

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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