#MaisRespeito: entrevista exclusiva aponta os ingredientes necessários para trilhar uma carreira no futebol feminino

Se existisse uma receita com ingredientes para construir uma carreira no futebol feminino no Brasil, certamente estaria entre eles doses gigantes de determinação, foco e força de vontade. Não que para outras profissões esses itens sejam desnecessários, pelo contrário. Mas no futebol feminino brasileiro, todo dia é necessário nadar contra a maré.

Letícia Seabra, 21, meio-campista do São José (SP), ainda teve que lidar com outra questão bem delicada para cavar uma vaga nesse mundo: provar que tamanho não é documento. Confira nessa entrevista exclusiva como ela tem feito para estabelecer uma carreira sólida e que tem deslanchado, mesmo diante das adversidades.

1) Desde criança você sonhava em ser jogadora de futebol?
Desde que comecei a jogar futebol, aos cinco anos de idade, na rua de casa, eu sempre desejei jogar futebol nos EUA, ser profissional e ir pra seleção.

2) O que te levou a escolher essa profissão?
É algo que me acalma, que me mostra que sou forte e inteligente, mesmo não sendo fisicamente. Quando percebi que mesmo em momentos difíceis da carreira, como lesão, banco, críticas, eu continuava me dedicando nos treinos e saindo satisfeita comigo mesma, foi quando eu percebi que era a profissão certa, que passaria por qualquer problema para ser jogadora profissional.

3) Lembra da primeira vez que você entrou em campo para defender uma equipe?
Tenho várias memórias de primeiro jogo com todas as equipes que passei. A primeira mesmo foi jogando futsal, eu tinha sete anos de idade e treinava em uma escolinha de futsal perto de casa. Jogava com meninos, pois não tinha time feminino para minha idade. Lembro que estava muito ansiosa, dormi mal e não via a hora de chegar o jogo. Entrei em quadra, aqueci, deixei o nervosismo de lado e joguei super bem.

Foto: Arquivo Pessoal

4) Quanto tomou a decisão de ser jogadora, você teve e tem apoio de sua família e de seus amigos para seguir essa carreira?
Meus pais sempre me apoiaram! Meu pai é meu fã número 1, e por ele ter tido uma carreira interrompida por uma briga por falta de apoio, ele torce e luta por mim em tudo que pode. Minha família, no começo, não aceitava minhas ausências em festas e por ter restrição a algumas coisas, para ter uma vida de atleta, mas depois se acostumaram. Amigos sempre me apoiaram e são fãs particulares.

5) Você teve alguma dificuldade no início de sua carreira?
Minha maior dificuldade enfrento até os dias de hoje, que é a questão da altura e porte físico. Muitos técnicos analisam atletas pelo corpo e altura, e é algo que não tenho (peso 44kg e tenho 1,55 de altura). Então, sempre existe a tal da dúvida, se vou dar conta, se consigo marcar, se consigo bater de igual para igual com as jogadoras grandes e fortes. Enfrentar as críticas é algo fácil para mim. Mas teve um momento difícil da minha carreira. Saindo do Sub-20, onde eu tinha muita moral com o time, todo mundo me admirava como atleta, tivemos a oportunidade de fazer um teste para subir para a categoria adulta. Eu treinei super bem, mas o técnico não quis ficar comigo por causa do porte físico, por conta da dúvida. Foi um baque e tanto, fiquei no Sub-20 e tive que me reerguer.

Foto: Arquivo Pessoal

6) Você já atuou (e atua) por equipes com tradição no futebol feminino. Como foi até chegar a esse nível?
Comecei minha base no Centro Olímpico, passei pelo Rio Preto, onde fui campeã paulista e vice Brasileira, e atualmente estou no São José Esporte Clube. Meu primeiro ano como profissional no Rio Preto foi muito difícil e árduo. Disputei poucos jogos, atuei fora da minha posição, não tive feedback, e fui me virando sozinha. Tive que tirar lições e aprimorar minhas qualidades em meio aos momentos ruins. Este ano, pelo São José, tive a oportunidade de jogar maior parte das partidas como titular e vi minha evolução a cada jogo. Hoje me dou conta que os momentos árduos que passei no Rio Preto me fizeram uma atleta mais forte mentalmente, mais preparada.

7) Como você enxerga o futebol feminino no Brasil, atualmente?
Estamos em evolução a cada ano, e nós, atletas, temos consciência de que devemos nos empenhar ao máximo todos os dias por conta própria, sem esperar retorno, pois sabemos que a visibilidade e apoio do país à modalidade não é algo forte. Acho que a CBF e as Federações, passo a passo, vem dando algum apoio a nossa modalidade, mas é totalmente desigual ao masculino em relação à diferença de estrutura, dinheiro investido e visibilidade de competições.

Foto: Arquivo Pessoal

8) Se pudesse, o que mudaria no futebol feminino brasileiro?
Para as atletas, eu aconselharia uma mentalidade mais profissional. Se queremos ser vistas com respeito e profissionalismo, devemos ser mais profissionais, em todos os lugares e todas as atletas, sem exceções. Para a logística, eu buscaria ex-jogadoras de seleção e times para fazerem parte das comissões dos times brasileiros, como coordenadoras, auxiliares ou até mesmo preparadoras físicas, mas que estivessem próximas à realidade e sugerissem coisas que só quem passa ou já passou pelo futebol feminino sabe.

9) Olhando por tudo que você passou e já conquistou, além dos desafios das próximas temporadas, sente que valeu a pena encarar os desafios do futebol feminino, ou se pudesse voltar atrás, se dedicaria a outra profissão?
Não me arrependo de nada que passei no futebol para estar onde estou hoje. Tudo veio como aprendizado e me fez forte, e com certeza ficarei mais forte para superar os próximos desafios.

10) Quem te inspira no futebol?
A Formiga, pela dedicação ao futebol feminino, a paixão que fica estampado no rosto e a total entrega dentro de campo, independente de CBF, visibilidade, dinheiro e infraestrutura.

Foto: Arquivo Pessoal

11) Se, hoje, você mesma encontrasse a Leticia Seabra com 14 anos de idade, sonhando em ser jogadora, qual dica você daria para ela?
Para continuar treinando forte e ser um diferencial todos os dias nos treinos, continuar correta, sem migué.

12) Sente que ainda existe preconceito em relação às garotas que desejam jogar futebol?
Sempre terá, hoje é mais escondido, mas existem pessoas que não aprovam e que diminuem a mulher no esporte, principalmente pelo fato do futebol ser tão machista. Às vezes, há preconceito dos pais, outras vezes de homens que nunca acompanharam o futebol feminino e dizem que é horrível, que a mulher deveria ficar na cozinha.

Foto: Arquivo Pessoal

13) Com todas as evoluções e deficiências do futebol feminino brasileiro, acredita que o Brasil oferece estrutura suficiente para que surjam atletas que joguem em alto nível, como Marta, Cristiane, Andressa, Formiga e cia.?
Essas jogadoras citadas chegaram aonde chegaram por empenho e dedicação ao extremo, e claro, a qualidade individual. Elas não tinham nada do que temos hoje, e se temos hoje em dia, devemos usar a nosso favor e ser melhores do que elas são.

PERGUNTA BÔNUS

14) Conte uma história inusitada e divertida que você vivenciou em sua carreira.

Para conhecer a história divertida e inusitada da Letícia Seabra, clique aqui.

Anderson Lima

Sobre Anderson Lima

Anderson Lima já escreveu 47 posts nesse site..

Anderson Marin Lima é jornalista de carteirinha, apaixonado por jornalismo esportivo e amante de futebol e vídeo-game. Tem 30 anos de idade, sendo 11 de jornalismo, passando por assessoria de imprensa, rádio, TV e site.

BetWarrior

Anderson Lima
Anderson Lima
Anderson Marin Lima é jornalista de carteirinha, apaixonado por jornalismo esportivo e amante de futebol e vídeo-game. Tem 30 anos de idade, sendo 11 de jornalismo, passando por assessoria de imprensa, rádio, TV e site.

Artigos Relacionados

Topo