Léa Campos: a Rainha da Arbitragem

Jornalista quebrou barreiras e preconceitos para conseguir o diploma de árbitra
Léa Campos

O Rainhas da Bola dessa semana traz a história de Léa Campos. A mineira que desde criança era apaixonada por futebol, mas por preconceito e leis da época não podia jogar. Mesmo assim, lutou por seus direitos e também para expedir o seu diploma de árbitra, negado pela Confederação Brasileira de Desportos. Sendo assim, se tornou a primeira árbitra de futebol do mundo.

INFÂNCIA E JUVENTUDE

Primeira de quatro irmãos, Asaléa de Campos Micheli nasceu na cidade de Abaeté, Minas Gerais em 1945. Assim, ficou três anos na cidade, e logo se mudou para Belo Horizonte. A paixão pelo futebol parecia ter nascido com Léa, já que desde pequena brincava com a bola de meia que o pai havia feito. Como bola de futebol e menina nessa época era algo inapropriado, o pai colocou a filha em aulas de canto e arte dramática, mas mesmo assim, o gosto maior era por esportes. Sendo assim, chegou a jogar no time de vôlei da cidade, o Sparta Voley Club.

“Eu jogava no recreio da escola, e a diretora implicava que não podia, porque eu estava jogando com os meninos.” disse em entrevista no Museu do Futebol.

Aos dez anos de idade, dando continuação aos estudos, Léa solicitou para o então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, uma bolsa de estudos. E assim, aconteceu. Mais tarde, no auge de sua juventude, a fiel torcedora do Cruzeiro, participou de vários concursos de beleza. Dentre eles, foi coroada Rainha do Carnaval, Rainha do Exército e ainda Rainha do Cruzeiro Esporte Clube. Sendo representante de seu clube, posteriormente começou a viajar com a delegação realizando trabalho voluntário na área de Relações Públicas, foi daí que sua paixão pelo esporte se aflorou, tendo a vontade de aprender mais sobre.

Leia Mais

O JORNALISMO

Profissionalmente, Léa decidiu seguir o Jornalismo Esportivo. Dessa forma, não cansava de lutar pelos seus direitos e consequentemente quebrar barreiras e preconceitos. Portanto, ao trabalhar na Rádio Jornal, se tornou uma das primeiras repórteres de campo, e assim ganhando mais destaque na carreira. Logo depois, partiu para a Rádio Mulher. Como diz o nome, a bancada era composta só por mulheres, e lá a jornalista dava suas opiniões acerca da arbitragem dos jogos masculinos.

Antigamente, era muito comum os jornalistas esportivos entrarem nos vestiários para entrevistar os jogadores – algo que não é visto hoje em dia. Muitas vezes, os atletas estavam trocando de roupa ou tomando banho. Por ser mulher, era praticamente impedida de entrar e conversar com eles, porém Léa não deixou barato e foi atrás de resolver essa situação. No final das contas, as comissões técnicas e os jogadores não mais se incomodavam com a presença dela nos vestiários. Se tornou algo natural.

Lea Campos e o jornalismo esportivo
Léa Campos como jornalista / Arquivo Pessoal – (Site Terceiro Tempo)

 “Existe algum homem aí dentro que é operado e não é mais homem? Ou existe alguma mulher aí dentro fazendo o que não deve?”. Ora, estou exercendo a minha profissão!”, contou em entrevista ao Globo Esporte

DENTRO DOS GRAMADOS

Como parte de seu trabalho, a jornalista dava opiniões e comentários sobre as decisões dos árbitros de futebol tomadas nos jogos. Em um desses comentários, foi duramente criticada, e o burburinho que se ouvia era a facilidade de criticar quando não se está dentro do campo. Depois desse episódio, Léa decidiu se matricular no curso de arbitragem da Federação Mineira de Futebol, em 1967. Foram oito meses de curso, incluindo os treinamentos para fazer a prova final e pegar seu diploma.

O jogo decisivo à sua admissão, foi entre árbitros e jornalistas, e assim foi bem avaliada. Apesar da boa nota, a Confederação Brasileira de Desportos impediu sua admissão, se baseando na Lei 3199, Artigo 54, de 1941. Assim, o Artigo diz: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompátiveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.” Insatisfeita com tal decisão, decide ir pessoalmente conversar com João Havelange, presidente da CBD, esse com quem travou uma grande briga por quatro anos.

Antes de tudo, Léa já tinha feito vários exames e todos vieram a ser anulados. Ao se encontrar com Havelange, ele a disse que a estrutura óssea feminina era inferior à masculina, portanto não faria sentido autorizá-la a ser árbitra. Sendo assim, depois de novos exames, foi constatado a igualdade óssea masculina e feminina. Por sua vez, Havelange dificultava todas as possibilidades de Léa, que na época da Ditadura Militar, resolveu apelar para entidade máxima do país. Emílio Garrastazu Médici.

Léa 1970
Léa como árbitra em partida, 1970 / Arquivo Pessoal – (Site Terceiro Tempo)

MÉDICI E LÉA X HAVELANGE

Sem mais saber o que fazer para conseguir seu tão sonhado diploma, em 1971 Léa recebeu um convite irrecusável para apitar. Se tratava da segunda edição do Campeonato Mundial de Futebol Feminino, que aconteceria no México. Sem a admissão, não poderia ir, até que surgiu a ideia de conversar com o presidente Garrastazu Médici que estava de passagem por sua cidade Belo Horizonte.

De primeiro momento, entregou a ele um bilhete onde dizia para o presidente ordenar Havelange a liberação de seu diploma para ir ao México. No mesmo instante, ele a convidou para um almoço, em que discutiriam a situação. Portanto, com a coragem que sempre teve, foi de Belo Horizonte até Brasília para o seu encontro mais importante.

“Se eu tivesse ido a pé para o Japão, acho que teria chegado mais rápido, nunca que chegava a tal de Brasília”, brincou em entrevista ao ESPN.

E o que ela mais queria aconteceu. Médici, entregou uma carta escrita a mão que autorizava a expedição do seu diploma de árbitra. E tinha mais. Então, mostrou-a algo que ela jamais imaginou acontecer. Seu filho era um grande fã da mesma, e em seu quarto colecionava fotos, revistas e tudo que tinha relação com a futura árbitra brasileira. Além disso, a mandou de avião das Forças Armadas para o Rio de Janeiro entregar pessoalmente a carta para João Havelange. Detalhe: era o dia em que Pelé dava adeus a Seleção Brasileira. 

Ao entregar a carta para o presidente da CBD, depois de quatro anos de tentativas e quatros anos sendo negada por ele, o mesmo fez o discurso para a imprensa que na opinião de Léa era totalmente falso. Segundo a jornalista, João Havelange disse que era com imenso orgulho que na gestão dele, saiu a primeira mulher árbitra de futebol do mundo.

O TRABALHO E O ACIDENTE

Léa então conseguiu pegar seu diploma e viajar para o México fazer os jogos do Campeonato Mundial. Seu primeiro jogo foi entre Itália x Uruguai, curiosamente, nessa partida, colocaram o hino nacional brasileiro para homenageá-la. De volta ao Brasil, apitou diversos jogos, mas por ser torcedora fanática do Cruzeiro nunca trabalhou em um jogo do time. Entretanto, Léa sofreu um acidente que a tirou dos gramados. A saber, em 1974 teve as duas pernas fraturadas após o ônibus no qual viajava chocar com um caminhão com materiais de construção. Após anos de tratamento, decidiu dar como encerrada sua carreira de árbitra.

ATUALMENTE

Atualmente, Léa é casada com o jornalista colombiano Luis Medina e vive nos Estados Unidos desde 1993. Não abandonou o futebol, continuou indiretamente pelo jornalismo. Além disso, é colunista no jornal Brazilian Press. Em 2001, seu marido escreveu um livro sobre ela chamado “As Regras Podem Ser Quebradas”.

“Não me arrependo de nada que eu fiz, me arrependo daquilo que deixei de fazer. Mas eu penso que eu poderia ter feito mais”.

Léa Campos
Léa Campos / Revista Oficial do Cruzeiro – (Site Terceiro Tempo)

Foto destaque: Arquivo Pessoal (Site Mídia Ninja)

Mariana Dias

Sobre Mariana Dias

Mariana Tolentino Dias já escreveu 80 posts nesse site..

Meu nome é Mariana Tolentino Dias, sou goiana, tenho 19 anos e curso Jornalismo na PUC-GO.Não me vejo fazendo outra área a não ser o esportivo. Futebol e NBA são minhas paixões. Torcedora roxa do Goiás Esporte Clube e do Houston Rockets

365 Scores

BetWarrior


Mariana Dias
Mariana Dias
Meu nome é Mariana Tolentino Dias, sou goiana, tenho 19 anos e curso Jornalismo na PUC-GO.Não me vejo fazendo outra área a não ser o esportivo. Futebol e NBA são minhas paixões. Torcedora roxa do Goiás Esporte Clube e do Houston Rockets

Artigos Relacionados

Topo