Hungria-Uruguai: a estratégia magiar e a raça charrua

Húngaros e uruguaios possuem laços desde os primórdios do futebol profissional
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Desclausurando o Uruguaio é uma coluna semanal com o intuito de explorar histórias, curiosidades e tudo o que envolve o futebol bicampeão mundial. Por certo, o tema dessa semana será a ligação entre Uruguai e Hungria, duas grandes potências futebolístcas do século XX. A saber, o vínculo veio à tona quando o jogador húngaro Krisztian Vadócz foi adquirido pela equipe do Peñarol em janeiro de 2020. Todavia, Vadócz  não foi o primeiro magiar a se aventurar na terra de Cavani e Suárez.

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A ADMIRAÇÃO PELOS HÚNGAROS

Sem dúvida, nas décadas de  40, 50 e 60 o futebol magiar viveu seu auge. Afinal, foi nessa época em que todo o mundo se encantou com as táticas e estratégias implantadas pelos húngaros. O jogo apresentado era vistoso e trazia grandes resultados. Em 1938 o selecionado nacional chegou a final da Copa do Mundo, que foi realizada na França, mas sucumbiu na decisão para a lendária Itália de Giuseppe Meazza e Silvio Piola. Contudo, a equipe húngara já mostrava seu poderio ofensivo, terminando com a artilharia do torneio. Entretanto, a admiração sul-americana pelo futebol europeu começou antes mesmo de 1938, e da inigualável geração de Ferenc Puskás, Zoltán Czibor, Lászlo Kubala e Sándor Kocsis.

Com o intuito de ganhar experiência fora do Velho Continente, equipes como Ferencváros (FTC), Honvéd e MTK Budapest atravessaram o Oceano Atlântico e desembarcaram na América Central. Lá os húngaros atuaram no México e em Cuba. Posteriormente, desceram o continente americano, chegando na parte sul. Até que em 1929, o Ferencváros chegou ao Uruguai para enfrentar a seleção nacional, que naquela altura já possuia duas medalhas de ouro nas Olímpadas. A saber, o FTC era chefiado por Imre Szigeti, personalidade influente no futebol húngaro e que ajudou na profissionalização da modalidade em seu país. A equipe de Szigeti bateu a mítica celeste por 3 x 2 e encantou os uruguaios com a atuação.

AMÉRICO SZIGETI, O PIONEIRO MAGIAR

Após um tour muito bem sucedido pela América do Sul, Szigeti retornou a Hungria, mas prometeu voltar ao futebol sul-americano. Dito e feito, Imre Szigeti reapareceu no Uruguai em 1933 durante a disputa do Campeonato Uruguaio. O destino de Szigeti foi a equipe do Nacional, e a missão era reconquistar o Uruguaio, torneio que os Bolsos não ganhavam desde 1924. Mesmo com todo o apelo futebolístico, o magiar queria estreitar mais ainda os laços com o povo charrúa. Desse modo, “sul-americanizou” o seu nome de Imre para Américo.

Imre Szigeti em de seus raros registros fotográficos (Reprodução/Tempofradi)

O técnico assumiu o Nacional rodadas antes do término da competição. Por certo, os Bolsos lideraram boa parte do certame com tranqulidade. Todavia, nos últimos jogos o gás parecia ter acabado. Tropeços diante do Sudamérica, Racing e Montevideo Wanderers, permitiram que o Peñarol igualasse com Nacional em número de pontos, forçando uma final para decidir o caneco. A primeira partida, estipulada para o dia 27 de maio de 1934 permaneceu sem gols.

Até que na marca de 21′ da 2ª etapa, o brasileiro  João Almeida, vulgo Bahia, invadiu a área do Nacional e chutou. A pelota iria para fora, mas ela rebateu no kit de primeiros socorros do cinesiologista Bolso, que estava ao lado das traves, voltou para a cancha, Braulio Castro aproveitou o rebote e conferiu. Revoltados, os atletas do Nacional foram até o juiz e reinvidicaram o gol. Telésforo Rodríguez não apenas validou o tento, como também expulsou dois jogadores: José Nassazi e Juan Labraga. As reclamações seguiram até o início da noite em Montevidéu, forçando o adiamento do jogo pelo fato do Estádio Centenário não possuir um sistema de iluminação.

De acordo com a história, a Associação Uruguaia de Futebol (AUF) decidiu em retomar a partida no dia 25 de agosto e o gol de valija, que em espanhol significa maleta, bolsa ou nesse caso kit de primeiros socorros, não foi válido. Contudo, o Nacional deveria recomeçar com apenas nove atletas, por causa das expulsões de Nassazi e Labraga. Dessa maneira, El húngaro Szigeti armou sua equipe com um esquema despojado para a época, afim de neutralizar o poderoso ataque carbonero. A ideia deu certo, e o duelo terminou empatado em 0 x 0, forçando outo embate. O terceiro jogo transcorreu de maneira usual, e com o triunfo do Nacional pelo placar de 3 x 2. Imre Américo Szigeti foi o primeiro treinador europeu campeão do Campeonato Uruguaio na era profissional.

DAS TRINCHEIRAS PARA AS CANCHAS

O enorme sucesso de Américo, conseguiu ser replicado por seu compatriota, e xará, Imre Hirschl. Em 1929 o húngaro desembarcou no continente sul-americano como massagista do Hakoah All Star, equipe austríaca. O clube disputou inúmeras partidas amistosas no Uruguai, Argentina e Brasil. E foi em terras tupiniquins que Hirschl resolveu montar seu acampamento. Afinal, as notícias que vinham da Europa sobre a  Segunda Guerra Mundial não eram das melhores. A saber, o judeu húngaro havia participado da guerra com apenas 14 anos de idade. Décadas depois, sua filha Gabriela afirmou que seu pai possuia marcas e cicatrizes das batalhas.

No Brasil, Imre Hirschl teve seu nome trocado para Emérico, similarmente ao caso de Szigeti. Após algum tempo em território brasileiro, o húngaro recebeu o convite para auxiliar seu compatriota  Jenő Medgyessy no comando do Palestra Itália. Posteriormente, Hirschl decidiu permanecer na América do Sul, só que em outro país: Argentina. No solo dos hermanos, o ex-auxiliar do Palestra finalmente teve sua primeira experiência como técnico, onde assumiu o Gimnasia La Plata.  Já no ano de 1936 o europeu deixou o clube platense para comandar o todo poderoso River Plate na conquista de dois Campeonatos Argentinos consecutivos.

HIRSCHL-GHIGGIA-PEÑAROL/REPRODUÇÃO INFOBAE

Hirschl, Schiaffino e Varela (Reprodução/Infobae)

Depois de duas temporadas na batuta dos Millonarios, Emérico retornou ao Brasil com o intuito de dirigir o modesto Cruzeiro-RS. As boas atuações no Rio Grande do Sul lhe renderam a proposta para ir ao Uruguai e treinar o Peñarol. Em seu primeiro ano no futebol charrua, o húngaro mostrou mais uma vez qualidade e conquistou o Campeonato Uruguaio de 1949 de maneira invicta. Nomes como Alcides Ghiggia, Oscar Míguez, Juan Schiaffino e Obdulio Varela, quatro pilares de La Máquina, apelido do Peñarol após o título, também serviram de base para a celeste uruguaia no título da Copa de 1950. Já consolidado no cenário uruguaio, Hirschl conquistou outro campeonato com os carboneros em 1951.

O “PÁ,PÁ, PUM!” DO REI DA EUROPA

Considerado como alternartiva a Aymoré Moreira e Oswaldo Brandão, Béla Guttmann foi chamado para o cargo de treinador do São Paulo após as recusas dos dois brasileiros. Já integrado a equipe paulista em 1957, o húngaro iniciou seus trabalhos apenas comoo observador. A ideia de Guttmann era acompanhar jogos e treinamentos do clube para se familiarizar com o plantel. Depois de semanas de muitas análises e observações, o treinador europeu  finalmente assumiu o comando do São Paulo, juntamente a Vicente Feola.

Todavia, os treinamentos táticos e de fundamentos implantados por Béla Guttmann não causaram boa impressão nos jogadores brasileiros. Para piorar o fato do húngaro não falar português dificultou ainda mais a transmissão de suas ideias. Segundo relatos da época, a onomatopeia “pá, pá, pum!” foi um dos métodos utilizados pelo comandante em seus treinos. Contudo, a língua não impediu o sucesso de Guttmann no São Paulo. No mesmo ano em que o gringo assumiu o tricolor, a equipe conquistou o Campeonato Paulista de 1958. Além disso, a sua pioneira formação 4-2-4 foi replicada por Feola na Copa do Mundo de 1958, onde o Brasil levantou a Jules Rimet.

Após a aventura tupiniquim, Béla Guttmann retornou ao Velho Continente, dessa vez para comandar o Benfica. Em sua segunda temporada nas Águias, o húngaro levou a equipe ao mais alto patamar na Europa: o título da Copa dos Campeões, percursora da UCL. Não satisfeito, Guttmann conquistou mais uma vez o certame no ano seguinte. Diferentemente do primeiro caneco, em 1961, o bicampeonato de 1962 teve a ilustre ajuda de Eusébio, que na época era um jovem garoto. Mas nem tudo era flores para Guttmann, afinal o seu contrato junto ao Benfica estava prestes a expirar. Além da renovação, o magiar também pediu um aumento salarial, que foi negado pelos cartolas portugueses. Assim, o húngaro arrumou as malas e partiu para o Uruguai. Entretanto, dias antes de seu embarque, o magiar fez uma declaração, ou melhor, uma maldição que ainda perdura.

“Sem mim, nem daqui a cem anos o Benfica conquistará uma taça continental.” 

Posteriormente a sua forte declaração, Béla Guttmann desembarcou no Uruguai, para assumir o comando do Peñarol. Em contrapartida, a primeira missão do magiar em terras charruas era diante do Nacional, o eterno rival carbonero. Para dificultar ainda mais, o duelo ante os Bolsos valia uma vaga na final da Copa Libertadores de 1962. Desse modo, o Peñarol sucumbiu pelo placar de 2 x 1 na ida. Dez dias depois, com Guttmann mais familiarizado com o ambiente da equipe, o Peñarol aplicou 3 x 1, forçando uma partida de desempate. O tira-teima terminou empatado em 1 x 1, ou seja, os carboneros avançaram para a decisão.

Carteirinha de Béla Guttmann durante sua passagem pelo Peñarol (Reprodução/AUF)

Se engana quem pensa que o maior desafio de Béla Guttmann foi o Superclásico nas semis. Pois na final o adversário do Peñarol era nada mais nada menos que o mítico Santos de Pelé, Pepe e Coutinho. Conforme especulado pela CONMEBOL, a partida de ida ocorreu no dia 28 de julho de 1962, no Estádio Centenário. Decerto, os Meninos da Vila levaram a melhor em Montevidéu e venceram por 2 x 1. A revanche marcada para o dia 2 de agosto, na Vila Belmiro, teve como vencedor o Peñarol, pela contagem de 3 x 2.

Portanto um terceiro duelo deveria ser realizado para definir o “dono da América”. O palco escolhido foi o Estádio Monumental de Nuñez, cancha neutra. Sobretudo, nesse duelo o Santos passou por cima do uruguaios, Caetano e Pelé, duas vezes, fizeram os gols da vitória e sacramentaram o título da Libertadores para os brasileiros. Mesmo com o revés na Liberta, Béla Guttmann deu a volta por cima e conquistou, ainda em 1962, o Campeonato Uruguaio. A saber, este foi o quinto caneco ganho de maneira consecutiva pelos carboneros. Por fim, o último ato do magiar sob o comando do Peñarol foi uma acachapante goleada de 4 x 1 sobre o Nacional.

VADÓCZ, O ÚLTIMO MAGIAR

Em janeiro de 2020, os torcedores e adeptos do Peñarol foram pegos de surpresa com a notícia de que o húngaro reforçaria sua equipe do coração. O nome em quetsão era o de Krisztian Vadócz, meio-campista que na época possuia 34 anos. Por certo, a transferência de Vadócz se deu pelo fato de Diego Forlán, técnico recém-chegado aos carboneros, havia compartilhado o vestiário com o magiar no Kitchee e Mumbai City, clubes de Hong Kong e Índia, respectivamente. Logo após o desembarque em Montevidéu, Krisztian Vadócz mostrou vontade de seguir o legado de Szigeti, Hirschl e Guttmann.

Vadócz no Peñarol (Divulgação/Peñarol)

“SE DIEGO FORLÁN LIGAR PARA VOCÊ, VOCÊ NÃO PODERÁ DIZER NÃO. A PROPOSTA ME SURPREENDEU, MAS ACEITEI LOGO EM SEGUIDA. CLARO QUE É UMA GRANDE RESPONSABILIDADE, PORQUE EU TAMBÉM REPRESENTO MEU PAÍS AQUI NO URUGUAI, E QUERO DEIXÁ-LO (HUNGRIA) BEM VISTO POR AQUI.”

Foto destaque: Montagem/FNV

Luciano Massi

Sobre Luciano Massi

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Me chamo Luciano Massi, tenho 20 anos, sou paulistano. Estou no 6º semestre do curso de Jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi. Desde criança fanático pelo futebol dentro e fora das quatro linhas, histórias que vão além do esporte. Produzo o Derbicast, podcast voltado ao futebol alternativo, dando enfâse aos esquecidos. Entretanto, nunca me dei bem com a bola...

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