A história do Real Madrid começa por aqui: Santiago Bernabéu

Um dos maiores nomes da história do maior clube de futebol de todos os tempos de uma forma que você não conhecia: não é "apenas" o nome do estádio

De fato, todos os amantes de futebol conhecem este nome: Santiago Bernabéu. É o famoso estádio do Real Madrid. Mas quem foi Santiago Bernabéu? Vamos chegar lá e você vai saber quem de fato foi este monstro sagrado do futebol e lenda do Real Madrid.

A ORIGEM DO CRAQUE

Santiago Bernabéu Yeste, nascido em Almansa, um município da Espanha, na província de Albacete, uma comunidade autônoma de Castela-Mancha, no dia 8 de Junho de 1895. Mudou-se com a família ainda jovem para Madrid. Se você sabe alguma coisa sobre paixão futebolística, se já viu alguns jogadores demonstrarem amor a camisa, esqueça tudo, ele está num nível superior! Este homem dedicou sua vida ao clube merengue por puro amor, talvez até devoção!

Começou no juvenil do Madrid em 1909, aos 14 anos, aos 17 já estava no profissional e pouco tempo depois já se tornara capitão. Jogava como atacante e tinha como principais características em campo a garra, liderança, força física e, como todo bom atacante, faro de gol. Chegou a marcar 194 gols em 495 partidas pelo time merengue, algo que, para a época, foram números exorbitantes. Segundo dados do site do Real Madrid, o atacante marcou 70 gols em 80 jogos oficiais (lembrando que naquela época não haviam tantos campeonatos como hoje). Esteve como jogador por 16 temporadas e sempre em seu clube do coração. Aposentou-se em 1927.

Foto: Real Madrid / Santiago Bernabéu vestindo o manto do Madrid

A BATALHA DA REESTRUTURAÇÃO

Em 1936, ocorreu a Guerra Civil Espanhola, algo que paralisou o futebol espanhol. A crise política e econômica se instalou no país e acabou por impactar no Real Madrid, que à época não tinha o poderio financeiro que tem hoje. Totalmente desestruturado, prestes a falir, funcionários e dirigentes mortos ou desaparecidos e troféus roubados. Este era o cenário do time madridista pós-guerra, da qual Bernabéu também lutou. Sem ajuda do governo, o time contou com a determinação incansável de Yeste, que procurou ex-dirigentes e ex-jogadores do clube, que sobreviveram à guerra, para tentar reerguer o time da capital espanhola. Obviamente que conseguiu.

Anos mais tarde, numa partida contra o maior rival, o Barcelona, isso já em 1943, as torcidas tiveram um embate violento. Pela falta de segurança necessária, o governo espanhol decidiu que os presidentes dos dois times fossem destituídos do cargo. Para ser o novo presidente do time merengue, ninguém do conselho pensava em outro nome além do grande jogador e homem responsável pela restruturação do time, Santiago Bernabéu. Assim sendo, saiu o presidente Antonio Santos Peralba e Bernabéu foi eleito o novo presidente do clube.

O estádio do Real Madrid, até então, era o Estádio Chamartín, construído em 17 de Maio de 1924, sendo a primeira propriedade na história do clube e que tinha a capacidade para 15.000 espectadores. Com o passar da crise e a chegada de Bernabéu e outros dirigentes, veio a ideia que partira do ex-presidente do clube e agora dirigente Santos Peralba da criação de um novo estádio, com uma maior capacidade de público e mais moderno. A capacidade sugerida era de 40 mil lugares. Algum tempo depois, Bernabéu adotou a ideia e foi ainda mais audacioso e bradou: “Senhores, precisamos de um estádio muito maior, e iremos construí-lo!”. Então assim foi feito, de 40 mil lugares sugeridos, o presidente aumentou para 75 mil lugares, já visando o tamanho que o clube viria a se tornar.

Projetado por Luis Alemany Soler e Manuel Muñoz Monasterio, o novo estádio teve o início das obras em 27 de Outubro de 1944. A inauguração aconteceu em 14 de Dezembro de 1947, numa partida entre Real Madrid e Belenenses (Portugal), com o nome de Estádio Chamartín (no caso o Novo Estádio de Chamartín) que detinha a capacidade de 75.145 espectadores. A cerimônia de inauguração também teve uma série homenagens a Santiago Bernabéu e outros membros que tinham financiado a construção. Em 4 de Janeiro de 1955, depois de mais uma modernização e de uma reunião com membros de relativa importância, o estádio passou a ter o nome atual, em homenagem ao ex-presidente do clube e principal idealizador da construção do estádio.

Foto: Real Madrid / Estádio Charmatín

A GENIAL IDEIA QUE REVOLUCIONOU O FUTEBOL

A fim de transformar o futebol em algo internacional, literalmente, colocando times de países distintos para jogarem entre si e ver quem é o melhor do mundo, a exemplo das Olimpíadas, em 1927, as federações de Hungria, Áustria, Tchecoslováquia e Iugoslávia, organizaram o primeiro grande torneio entre clubes europeus, a Copa Mitropa. O nome Mitropa é uma variação do alemão de “Mitteleuropa”, que significa “Europa Central”. Naquela época, era também chamada de “Copa da Europa”. Dois anos depois adentrou a competição a Itália, e posteriormente Suíça e Romênia.

Com o surgimento da Copa do Mundo em 1930, o interesse por esse tipo de competição aumentou. Foi então que, após o término da 2ª Guerra Mundial, e também depois que os clubes puderam se reestruturar, surgiu a Copa Latina em 1949. Esta competição foi semelhante a Mitropa, com clubes europeus disputando o torneio entre si, mas, desta vez, por clubes da França, Itália, Espanha e Portugal. Foi um dos mais importantes torneios europeus, organizado pelas respectivas federações nacionais envolvidas. Fora criada por Jules Rimet, então Presidente da FIFA e da FFF (Federação Francesa de Futebol), e Ottorino Barassi, Vice-Presidente da FIFA e Presidente da FIF (Federação Italiana de Futebol). O torneio foi outro precursor da Champions League.

Eis que então surge a genial ideia de Santiago Bernabéu e Gustav Sebes (técnico finalista da Copa do Mundo de 1954 com a Hungria e criador do “futebol socialista”, com ideias novas de futebol) de criar a Liga dos Campeões, hoje administrada pela UEFA. Na época, era chamada de Copa dos Campeões da Europa, na qual apenas o campeão de cada liga nacional podia participar na competição. Mais tarde, em 1998, houve uma reformulação no regulamento, tornando o que é hoje, com os times mais bem qualificados em seus respectivos campeonatos nacionais. Este torneio foi criado em 1955.

A NOVA ERA E A CHEGADA DA REALEZA

Presidente do Real Madrid, com estádio novo, clube reformulado, faltava apenas uma coisa para tornar o time de Bernabéu numa referência europeia e, futuramente, mundial: títulos! Então, o presidente foi às “compras” e tratou de trazer a “nata” da época para o Madrid.

Em 1948, trouxe Miguel Muñoz, zagueiro espanhol destaque do Celta de Vigo, para ser o capitão do time que brilharia anos mais tarde sob sua liderança. Muñoz foi 4 vezes campeão da Champions League como jogador e mais duas como treinador; tudo sob a gestão de Yeste. Mas, para fazer os gols precisaria de craques. Foi então que, em 1953, tratou de trazer Francisco Gento, jovem promessa espanhola de apenas 19 anos, que havia feito poucos jogos pelo Racing de Santander. Gento deu muito certo. Venceu a Champions 6 vezes, além de 12 espanhóis e de ser o 7º maior artilheiro da história do Real Madrid com 182 gols em 599 jogos (É considerado um dos jogadores mais rápidos de todos os tempos, pois podia correr 100 metros em 10 segundos carregando a bola, índice próximo ao de um velocista em uma prova de 100 metros rasos).

Para formar o ataque junto ao espanhol, Bernabéu foi malandro gênio e tratou de “atravessar” uma negociação do rival Barcelona com o River Plate (clube que detinha o passe) para contar com o matador argentino Alfredo Di StéfanoLa Saeta Rubia (A Flecha Loira), como era alcunhado, iniciou no futebol defendendo o River Plate-ARG, com média de 0,74 gols por jogo (66 jogos e 49 gols); passou por Huracán-ARG (25 jogos e 10 gols); se consagrou no Millionários-COL com média de 0,90 gols por jogo (294 jogos e 267 gols), antes de vir ao Real Madrid, já com 27 anos, experiente, onde se tornaria lenda. Pelo time merengue foram 396 jogos e 308 gols, sendo o maior artilheiro da história do time por anos, até ser superado pelo espanhol Raúl, em 2009 e posteriormente por Cristiano Ronaldo, em 2015 (maior artilheiro da história do time com 406 gols). Di Stéfano tem média de 0,77 gols por partida, atrás apenas de CR7 com média de 1,03 gols por jogo. Don Alfredo é considerado o maior ídolo da história do Real e conquistou 5 Liga dos Campeões, além de inúmeros outros títulos e prêmios individuais.

Em 1954, chegou Héctor Rial, argentino vindo do Nacional-URU, a convite de Di Stéfano e pessoalmente negociado por Raimundo Saporta, diretor do Real e braço direito de Bernabéu. Rial marcou duas vezes na final do 1º título da Champions dos galácticos e uma vez no 3º título, vencendo em 5 oportunidades. E a cada ano entravam mais craques no time. Em 1956, chegou o francês Raymond Kopa, vindo do adversário da primeira final da Champions, o Stade Reims. Ao chegar no Madrid, venceu os 4 títulos europeus seguidos com o time dos sonhos. Em 1957, veio José Santamaría, defensor uruguaio com mais de 200 jogos pelo time madridista e que conquistou 3 Champions. E por fim, fechando o time de galácticos da década de 50 e 60, veio Ferenc Puskás, maior jogador da história húngara e vice-campeão da Copa do Mundo de 1954. Chegou em 1958, após 13 anos no Honvéd, da Hungria, clube onde iniciou a carreira e teve a incrível marca de 1,03 gols por jogo (341 jogos e 352 gols). Foi a cereja do bolo de um Real Madrid imbatível naquele época. Venceu 3 Champions e marcou 242 gols, sendo o 5º maior artilheiro da história do Real. Esta foi a era da realeza, quando o time tornou-se gigante com tantos craques e títulos.

Time campeão da Champions League de 1957-58 – Em pé: Juan Alonso, Ángel Atienza, José Santamaría, Rafael Lesmes, Juan Santisteban e José María Zárraga. Agachados: Kopa, Joseito, Di Stéfano, Héctor Rial e Gento.

ALÉM DO FUTEBOL: OS GALÁCTICOS TAMBÉM DO BASQUETE

O basquete no Real Madrid teve início na década de 30, mais precisamente em 8 de março de 1931, quando o espanhol Angel Cabrera, trouxe a modalidade à Madrid, após praticá-lo na Argentina. Seus argumentos foram bons o suficiente para fazer o time galáctico apostar. Cabrera se tornou 1º secretário da Federação Espanhola de Basquete e, posteriormente, primeiro técnico da Seleção Espanhola de Basquete. Lembrando que o esporte já era praticado na Catalunha, mas talvez este espanhol quem tenha o difundido.

Eis que em 1952, durante a festa de bodas de ouro do Real Madrid, Santiago Bernabéu “mita” novamente. A fim de promover ainda mais o basquete, conversou com o presidente da Federação Espanhola de Basquete (FEB), Jesús Querejeta, pois queria um assessor que organizasse um torneio de basquete. O presidente da FEB então o aconselhou a falar com o jovem turco Raimundo Saporta, de apenas 26 anos, seu vice e que tinha exímia habilidade para a gestão econômica e esportiva. A chegada de Saporta transformou o basquete espanhol. Ele conseguiu fazer um quadrangular com rivais internacionais, o que fez com que Bernabéu comprasse suas ideias e o contratasse. O turco ficou responsável pelo basquete e, com suas habilidades administrativas, foi subindo de cargo, até ser diretor esportivo, cargo no qual tomava conta dos contratos, abriu contas poupanças à cada jogador, tratava das renovações e contratações de atletas também do futebol, como as de Di Stéfano e Héctor Rial.

Saporta se tornou fundamental no time madridista e no basquete espanhol em geral, pois foi ele quem tanto insistiu na criação da Liga Espanhola de Basquete, em 1957 e a Taça dos Campeões Europeus, em 1958, posteriormente chamada de Euroliga (principal competição europeia da modalidade, similar a Liga dos Campeões do futebol), competições estas na qual os galácticos reinaram, trazendo (novamente) os melhores jogadores para o time blanco. A influência no time madrilenho foi tamanha que se tornou presidente do Real Madrid Baloncesto, os merengues do basquete. Nesta nova fase, o presidente do Baloncesto trouxe para o cargo de treinador da equipe, Pedro Ferrándiz, em 1959, que deu 12 Ligas Espanholas, 11 Copas do Rey e 4 Euroligas ao Real em 13 temporadas, absurdo não?! Foi a era galáctica que contou com algumas das primeiras estrelas do panorama nacional, como Emiliano Rodríguez, Clifford Luyk, Lolo Sáinz, Wayne Brabender, Walter Szczerbiak, Milhares Aiken, Rafael Rullán e Juan Antonio Corbalán. Alguns destes craques buscados por Ferrándiz nos Estados Unidos, onde sempre ia para trazer novas ideias e táticas para implantar no elenco e, obviamente, dava certo. Seu talento foi tamanho que está no Hall da Fama do Basquete Americano e Mundial. Na atualidade o Real tem 9 Euroligas, 5 Mundiais de Clubes, 31 Nacionais e 24 Copas do Rey. Os jogos eram mandados no Pavilhão do Estado do Real Madrid, uma arena desportiva indoor usada particularmente para partidas de basquete do Real Madrid. Em 1999, foi renomeada para Raimundo Saporta Pavilion, em homenagem ao ex-presidente da equipe de basquete do Real Madrid, falecido em 1997. Foi demolido em 2004.

Foto: El Mundo / Pedro Ferrándiz (à direita) sendo homenageado no Real Madrid

Ferrándiz está para o basquete do Real Madrid, o que Di Stéfano está para o futebol e Saporta está para o basquete do Real Madrid, o que Bernabéu está para o futebol. Claro que dadas as sua devidas proporções e a devoção dos amantes de cada esporte.

Chegamos enfim a parte final. Agora você sabe quem foi Santiago Bernabéu. Sabe da dimensão que tem este gigante do futebol. Jogou pelo Real Madrid, foi capitão por lá, tirou o Real Madrid do buraco após a guerra espanhola, financiou o estádio, criou a Liga dos Campeões, trouxe o jogador que seria o maior ídolo do clube, contratou alguém que mudaria a história do basquete europeu e do Madrid. Bernabéu é uma lenda. Sua história se confunde com a do próprio Real Madrid. Ele construiu este gigante clube. Construiu o maior time do mundo. Tudo isso por amor. É um ser que deve ser respeitado, amado e idolatrado. Não só pelos torcedores madridistas, mas por todos os amantes de futebol do mundo. Deveria ser construído um busto colossal em sua homenagem. Obrigado Sr. Yeste!

Estátuas de Santiago Bernabéu Alfredo Di Stéfano em sala do Real Madrid

Sobre Eric Filardi

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Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia.Sou Eric Filardi, paulistano de 25 anos, jornalista de formação e apaixonado por futebol. Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, sou Peixe, sou Palestra e sou Timão. Sou da Colina, Botafogo, sou Flu e sou do Mengão. Sou Brasil, sou Hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 a 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões, sou Clássico das Multidões. Sou sul, sou nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, sou Raposa, sou Bavi e sou Grenal. Sou Ásia, sou África, sou Barça e sou Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas, que o estádio incendeia, sou Futebol na Veia.

Eric Filardi
Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia.Sou Eric Filardi, paulistano de 25 anos, jornalista de formação e apaixonado por futebol. Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, sou Peixe, sou Palestra e sou Timão. Sou da Colina, Botafogo, sou Flu e sou do Mengão. Sou Brasil, sou Hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 a 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões, sou Clássico das Multidões. Sou sul, sou nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, sou Raposa, sou Bavi e sou Grenal. Sou Ásia, sou África, sou Barça e sou Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas, que o estádio incendeia, sou Futebol na Veia.
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