Fantasma de Carson: a maldição que levou ao título olímpico

O dia em que o povo mexicano se sentiu amaldiçoado mesmo após golearem por 5 x 1
Fantasma de Carson: a maldição que levou ao título olímpico

A coluna Papo Azteca desta semana traz a história de uma suposta maldição, segundo imprensa e torcedores mexicanos, num duelo entre as seleções olímpicas de México x Haiti, num pré-olímpico, que daria vaga a próxima Olimpíada, em Pequim, 2008. Denominada Fantasma de Carson, o evento acabou por ser considerado uma “tragédia” futebolística na ocasião, mas serviu de inspiração para buscarem um título importante para a geração quatro anos depois.

Fantasma de Carson

O Fantasma de Carson é o apelido que recebe a eliminação do time da Seleção Mexicana Sub-23 no torneio pré-olímpico de Concacaf. O certame valia a vaga para o próximo Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. O nome foi dado pela junção desta tal “maldição” com o fato da partida ter sido realizada em 16 de março de 2008, na cidade de Carson, na Califórnia, nos Estados Unidos, e foi considerada uma maldição esportiva até 2012. Para que entenda o caso, a Concacaf estipula o pré-olímpico como filtro classificatório para as Olimpíadas. Assim, realizam-se etapas até a disputa final.

Estados Unidos, México e Canadá já se classificaram para a última rodada, porque nas edições anteriores os países daquela região dominaram o torneio. Além disso, os Estados Unidos sediariam a última rodada da competição. Países da América Central (UNCAF – União Centro-Americana de Futebol) receberam três vagas para a última rodada. Assim, Guatemala, Honduras e Panamá foram os qualificados após disputa com outras equipes da confederação. No Caribe (CFU – Caribbean Football Union) 22 países do Caribe competiram na primeira fase, distribuídos em quatro grupos de quatro e dois de três países. Após muitos jogos, Cuba e Haiti avançaram para a fase final.

Fase final

Na última rodada, as oito equipes classificadas anteriormente competiram em dois grupos, onde os dois primeiros colocados de cada grupo disputariam as semifinais entre si e os vencedores garantiriam vaga nas Olimpíadas de Pequim 2008, além de fazerem a final. Embora apenas duas equipes tenham se qualificado para as Olimpíadas neste esporte, houve uma disputa de 3º lugar para que este garantisse vaga no próximo pré-olímpico direto a fase final. Honduras foi a seleção campeã e os Estados Unidos o vice. O 3º lugar ficou com a Seleção Canadense. Ué, mas e o México?

O que aconteceu com o México?

No grupo B da fase final, os mexicanos iniciaram os jogos contra o Canadá, empatando em 1 x 1. No segundo jogo, frente a Guatemala, perderam por 2 x 1, o que complicou o último jogo, afinal, a Guatemala já havia se classificado e os outros três disputavam a 2ª colocação. O Haiti já tinha três pontos e um empate poderia bastar, caso o Canadá não vencesse por goleada. Para o Canadá precisava torcer para empate do Haiti ou derrota do mesmo, mas vencer com maior diferença de gols que o México. Resumindo, o Canadá goleou os guatemaltecos por 5 x 0, empurrando a pressão aos mexicanos, que deveria vencer por 6 x 0 para se classificar.

Embora parecesse um resultado muito volumoso, o México tinha um bom histórico contra os rivais da Concacaf, justamente o que gerou o apelido Pelota Quadrada: uma soberba mexicana (especialmente com equipes do Caribe), que sugeriam que era um obstáculo “alcançável”. A equipe mexicana venceu a equipe haitiana por 5 x 1. No entanto, precisariam vencer por 6 x 0 para se classificar para as semifinais. Assim, foram eliminados na fase de grupos.

A equipe tricolor perdeu mais de 10 chances claras de gol, perdeu um pênalti e não aproveitou o fato de o Haiti ter nove jogadores em campo.

A participação mexicana foi considerada “um fracasso” e culminou na demissão do então técnico, e ídolo, Hugo Sánchez, na frente da equipe nacional no dia 1º de abril de 2008, e não era mentira. A base do time era da geração que venceu o Mundial Sub-17, no Peru, em 2005. Entre eles: Enrique Esqueda, Juan Carlos Silva, Patricio Araujo, Edgar Andrade e César Villaluz. Em alguns casos, esse evento marcou a carreira de vários jogadores de futebol mexicanos que participaram do torneio, como Santiago Fernández, que se aposentou do futebol aos 24 anos. Santiago perdeu um chute a quase dois metros do gol sem goleiro e foi incapaz de chegar à bola várias vezes em cruzamentos de seus companheiros de equipe.

O jogo

O México começou bem e marcou o primeiro gol aos 17 minutos, através do meia César Villaluz. Aos 27 minutos, o Haiti ficou com 10 jogadores em campo, devido à expulsão de Judelin Aveska. No entanto, os atacantes mexicanos não marcaram. Dessa forma, aos 36 minutos, o técnico Hugo Sánchez colocou em campo o atacante Santiago Fernández. A equipe perdeu mais três jogadas claras de gol, então o jogo chegou no intervalo com 1 x 0 e uma total pressão. No 2º tempo, Sánchez colocou um terceiro atacante, Luis Ángel Landín. Aos 15′, o volante Édgar Andrade marcou o segundo gol do México. Dois minutos depois, o haitiano Leonel Saint-Preux venceu o goleiro Guillermo Ochoa para por o 2 x 1 no placar.

Agora o México necessitava fazer mais quatro e vencer por 6 x 1, pois assim igualaria em saldo com o Canadá. Mas venceria no critério de desempate por gols pró. Aos 23′, os aztecas marcaram seu terceiro gol através de Santiago Fernández. Aos 31 minutos, César Villaluz desperdiçou um pênalti. Na sequência, mais oportunidades desperdiçadas por Fernández. Aos 37 minutos, o atacante Enrique Esqueda conseguiu 4 x 1 e, um minuto depois, o Haiti ficaria com nove homens em campo pela expulsão de Paulin Jean. Nos últimos minutos, a equipe mexicana, aos 44 minutos, com Ladin, conseguiu o quinto gol, mas foi insuficiente. Ainda aos 48′, Landin perdeu um chute frente a frente com o goleiro, liquidando qualquer oportunidade tricolor.

Trauma do Fantasma de Carson

As carreiras de futebol de César Villaluz, Luis Ángel Landín e Enrique Esqueda foram afetadas. Villaluz deixou a Cruz Azul e assinou contrato com San Luis e Chiapas, onde não conseguiu superar o trauma e acabou na Liga de Ascenso. Landín passou por alguns bons clubes e até jogou pelo Houston Dynamo, da MLS e, depois de passar por várias equipes da Liga de Ascenso, assinou em 2016 com o Perez Zeledon, da Costa Rica. Por outro lado, Esqueda passou por Pachuca, Atlas, Tigres e Veracruz, assinando em 2017 com os Jaguares de Chiapas. Mas nenhuma carreira tão afetada quanto a de Santiago Fernández, que se aposentou do futebol aos 24 anos. Em 2009, o crucificado atacante Santiago Fernández afirmou:

“Definitivamente esse jogo marcou minha carreira no futebol. Lembro que, voltando daquele período pré-olímpico e de estarmos em Toluca, visitamos o América, no estádio Azteca. José Pekerman entendeu a pressão que eu estava passando e decidiu colocar-me no 2º tempo. É difícil para um jovem receber tantos xingamentos. Tudo o que me restava era seguir em frente como sempre fiz e como me ensinaram desde pequeno”.

A volta por cima azteca

A eliminação do México em 2008 foi uma pressão extra para Luis Fernando Tena, então técnico da nova Seleção Olímpica. Tena declarou, em 20 de julho de 2012: “Não há fantasma de Carson. Pelo menos eu não senti isso aqui. Temos jogadores com qualidade e personalidade“. No pré-olímpico de 2012, o México liderou o grupo B, composto por Panamá, Honduras e Trinidad e Tobago. Avançou às semifinais depois de derrotar seus três oponentes. Na partida de qualificação, o México venceu o Canadá por 3 x 1, obtendo seu passe para Londres 2012. Ainda mais, terminou o torneio como campeão pré-olímpico ao derrotar Honduras por 2 x 1.

Nas Olimpíadas, chegaram até a final, onde conquistaram o ouro olímpico ao derrotar o Brasil por 2 x 1. Com dois gols de Oribe Peralta e uma tenebrosa partida do lateral direito Rafael, ex-Manchester United. Este que ficou tão marcado quanto Santiago Fernández. Principalmente por se tratar de uma final e do único título que o Brasil não tinha.

Foto destaque: Reprodução/AS México

Eric Filardi

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Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia. Sou Eric Filardi, paulistano de 25 anos, jornalista de formação e apaixonado por futebol.Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, sou Peixe, sou Palestra e sou Timão. Sou da Colina, Botafogo, sou Flu e sou do Mengão. Sou Brasil, sou Hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 a 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões, sou Clássico das Multidões. Sou sul, sou nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, sou Raposa, sou Bavi e sou Grenal. Sou Ásia, sou África, sou Barça e sou Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas, que o estádio incendeia, sou Futebol na Veia.


 

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