Argélia: da colonização ao futebol

- Descubra as relações entre França e Argélia e, os impactos no mundo da bola
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França e Argélia, dois países e muitos relatos, separados apenas pelo Mar Mediterrâneo. Ambos possuem muitas ligações e um passado que, pode ser considerado sombrio. O período de colonização francesa e, o processo de independência foi muito violento. Assim, as relações tornaram-se extremamente delicadas e os eventos trazem consequências sociais até hoje. Dessa forma, o assunto também se integra ao futebol e conta histórias dentro de campo.

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História

O século 19 foi marcado pelo domínio europeu em diversas partes do mundo, no continente africano não foi diferente. Assim, a área que corresponde, atualmente, à região da Argélia se tornou colônia da França, em 1830. A tomada do país se deu por meio de massacres contra civis, destruição de cidades e expropriações de terra. Além disso, todo conflito continuou no período compreendido entre 1885 e o fim da Primeira Guerra Mundial, afinal, as formas de exploração mudaram e aconteceu a Partilha da África. A ocupação francesa aconteceu de forma total após 30 anos, matando um terço da população local.

Mapa França e Argélia (Foto: Reprodução/Google Maps)

Já em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, diversos movimentos nacionalistas e favoráveis à independência das colônias começaram a surgir na África. Nesse mesmo contexto, os países europeus queriam reconstruir-se e estabelecer uma nova ordem. Assim, no contexto da Guerra Fria, o mundo encontrava-se dividido: o primeiro bloco possuía orientação capitalista e era comandado pelos Estados Unidos, por outro lado, o segundo bloco era comunista e liderado pela União Soviética. Dessa forma, a Frente de Libertação Argelina contava com apoio soviético.

Processo de Independência

Num grande clima de tensão, a guerra de independência aconteceu entre 1954 e 1962. Com a insurgência do movimento para independência, a França deu autonomia para o Exército agir sobre a colônia. No entanto, a desvantagem do lado argelino era evidente e, a batalha foi extremamente sangrenta. Além disso, haviam mecanismos de repressão para pessoas que apoiavam o movimento. Mais tarde, já em 2018, Emmanuel Macron, atual presidente da França, reconheceu formalmente um sistema de tortura utilizado nesse período. A Argélia afirma que, nesses confrontos 152 mil soldados argelinos, além de 1 milhão de civis. Porém, os franceses não concordam com o cálculo e apontam que 10 mil soldados de seu lado também morreram.

Antigos departamentos da Argélia Francesa (Foto: Reprodução/Wikipedia)

Ao final da guerra, em 1962, os países entraram num acordo e, a França reconheceu a Argélia como país soberano. Além disso, após a legitimação da independência, uma grande onda de emigração aconteceu. Assim, os “pied-noirs” – descendentes de franceses e argelinos – que, moravam no continente africano, foram para a França e outros pontos da Europa. O que mais tarde também traria consequências em aspectos sociais.

Momento Atual

Atualmente, existem mais de três milhões de argelinos e seus descendentes vivendo na França. Porém, existe muito preconceito por parte dos franceses. Quando os movimentos migratórios começaram ainda no século passado, um dos principais motivos além de fugir do cenário de guerra, era o trabalho. Afinal, a França que, estava em expansão econômica, precisava de mão-de-obra e, pagava salários superiores aos da Argélia.

Originalmente a mesquita de Ketchaoua, foi convertida em Catedral de Argel, um local de culto cristão durante a ocupação (Foto: Reprodução/Biblioteca Digital Mundial)

A princípio, a população local aceitava os imigrantes. No entanto, com movimentações políticas da direita radical, uma forte campanha foi criada, afirmando que os argelinos estavam roubando os empregos dos franceses. Além disso, o fato da maior parte da população da Argélia ser composta por muçulmanos também foi utilizado num discurso preconceituoso que, foi crescendo cada vez mais, ignorando completamente o fato de que, quando chegaram ao país africano, converteram a principal mesquita em Catedral de Argel, impondo suas características aos povos locais.

Juntamente com essa situação, os ataques terroristas no final da década de 90 e na virada do século, foram relacionados aos imigrantes muçulmanos que, correspondem à seis milhões de habitantes (incluindo, além de argelinos, tunisianos, marroquinos e povos da região subsaariana). Assim, a onda de preconceito e discriminação aumentou e segue presente no país. Contudo, ainda existe esperança nos jovens que, fazem parte dos 75% da população com menos de 40 anos. O que se espera é que implantem novas ideias, e preocupem-se com questões que vão além da economia francesa.

E o futebol?

Um clube argelino foi formado durante o período da guerra pela independência. Assim, a Equipe de Futebol Frente de Libertação Nacional foi criada com um clube amador, pois o país não tinha autorização da FIFA para atuar como seleção. O objetivo era mostrar o comprometimento com a revolução e, indicar que era o povo da Argélia que participava desse momento. Mesmo com a separação da colônia, os elos entre os países nunca se quebraram

Sede da Equipe de Futebol Frente de Libertação Nacional (Foto: Reprodução/SporTV)

Mais tarde, com a mistura de povos e as imigrações, os descendentes de argelinos, nascidos na França, começaram a atuar no futebol e brilharam pela seleção, como o caso de Zinedine Zidane, de Marselha e, Karim Benzema, de Lyon. No entanto, essa questão causou um problema para Argélia que, perdia seus jogadores. Dessa forma, através de uma iniciativa argelina em 2003, a FIFA passou a permitir que os jogadores representassem a seleção júnior de um país diferente, mas com um limite de idade para acontecer a mudança do país representado. Com isso, Antar Yahia, foi o primeiro franco-argelino, da seleção sub-18 dos Bleus, a cumprir sua internacionalização para a Argélia, passando a representar as Raposas do Deserto em janeiro de 2004.

Relação dos jogadores com as Seleções

Já em 2009, o limite de idade deixou de existir e, a seleção argelina intensificou a prospecção de jogadores incluídos na diáspora, com foco nos atletas nascidos na França. Consequentemente, no Mundial da África do Sul – em 2010 – a Argélia possuía oito jogadores que nasceram e foram formados na França e, no Mundial do Brasil – em 2014 – esse números subiu para 16.

A França, por outro lado, continuou aproveitando os talentos e incluindo-os em seu elenco. Existe uma via de mão dupla e quando a porta dos Bleus está fechada, os jogadores atendem pelas Raposas. Porém, a seleção francesa possui uma grande multiculturalidade. No último Mundial que, aconteceu em 2018 na Rússia e deu coroou o país com o título, 16 dos 23 convocados possuíam origens diversas, incluindo descendentes de argelinos: Fekir e Mbappé.

Fekir tem pais argelinos; Já Mbappé, tem pai camaronês e mãe argelina (Foto: Reprodução/Reuters)

Porém, com a existência dos discursos de ódio, os filhos de imigrantes começaram a se identificar mais com os países que remetem às suas origens que com o local em que vivem. Um exemplo desse atrito é o meia Younes Belhanda que, defendia a seleção do Marrocos e, recebeu críticas de um jornalista francês quando foi emprestado para o Nice, alegando que o jogador “rezava demais”, ou seja, criando uma relação sem fundamento entre futebol e islamismo.

Outro caso emblemático de preconceito na França aconteceu em 2011. Tendo a participação do ex-jogador e ex-técnico da seleção, Laurent Blanc, com áudios vazados de uma reunião em que, defendia que a FFF (Federação Francesa de Futebol) criasse cotas para imigrantes nas seleções de base.

Principais jogadores franco-argelinos

Zinedine Zidane

Filho de argelinos, Zinedine Yazid Zidane, carinhosamente chamado de Zizou, nasceu em Marselha, em 1972 e desde pequeno acompanhou o time de sua cidade, o Olympique. Começou pelas categorias de base do US Saint-Henri, quando tinha apenas 10 anos. Em 1987 assinou com o Cannes e, na temporada 91/92 foi negociado no Bordeaux. Nesse clube, conquistou seu primeiro título profissional e, conseguiu chegar à final da Champions. Na sequência, em 1994, teve sua primeira convocação para Seleção da França.

O jogador chegou à Juventus em 1996. Lá conquistou dois Campeonatos Italianos, uma Supercopa Italiana, uma Supercopa da Europa e um Mundial de Clubes. Mais tarde, em 1998, conquistou a Copa do Mundo, numa final contra o Brasil e, em 2000, foi coroado com a Eurocopa. Assim, nas duas situações também foi eleito o Melhor Jogador de Mundo pela FIFA.

Depois desses triunfos, chegou ao Real Madrid, em 2001. No clube espanhol também conquistou importantes títulos: uma Liga dos Campeões, um Campeonato Espanhol, duas Copas do Rei da Espanha, uma Supercopa da Europa e um Mundial de Clubes. Além disso, foi na equipe merengue que, Zizou encerrou sua carreira em 2006, mesmo ano em que atuou por sua última Copa do Mundo. No entanto, continuou próximo ao futebol, já que agora, atua como técnico, também do Real Madrid.

Karim Benzema

Também filho de argelinos, Karim Benzema – conhecido como Coco – nasceu em Lyon, em 1987. O jogador passou a maior parte de sua infância num bairro conturbado. Assim, teve que vencer diversas situações, além do preconceito religioso, Karim sofreu gordofobia.

https://twitter.com/Benzema/status/1217162023819186182

Mesmo assim, o jogador conseguiu se encontrar no futebol e, jogando pelo clube de seu bairro, foi descoberto pelo Lyon, onde atuou nas categorias de base, além de ganhar destaque para a seleção. Pelos Bleus, atuou com o grupo sub-17 e venceu o campeonato que, aconteceu em 2004. Depois que subiu para o time principal do Lyon, seguiu destacando-se e, acabou ganhando atenção do Real Madrid, clube em que joga hoje.

Kylian Mbappé

Com mãe da Argélia e pai de Camarões, Kylian Mbappé nasceu em 1998, no subúrbio de Paris. Sua carreira começou cedo e teve influência direto de sua família. Afinal, até os 13 anos jogou pelas categorias de base do AS Bondy, time de sua cidade, no qual seu pai era o treinador. Quando foi jogar profissionalmente, dispensou às propostas de Real Madrid, Chelsea e Bayern de Munique, porque queria estar perto de sua família. Dessa forma, iniciou como profissional no Mônaco.

Um ano antes do Mundial da Rússia, ainda dependia de sua mãe para levá-lo aos treinos. Além disso, nesse mesmo período escolheu novamente ficar perto de sua família, pois no início da temporada 2017/18, assinou com PSG, recusando ir para Madrid, jogar com o Real. Em 2018, foi revelação na Copa e chegou até a ganhar parabenizações de Pelé, por ser segundo jogador com menos de 20 anos a marcar dois gols numa fase final do Mundial – o primeiro havia sido o próprio craque brasileiro.

Foto Destaque: Reprodução/Freepik

Emanuelly Cardoso

Sobre Emanuelly Cardoso

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Emanuelly Cardoso, 18 anos. Estudante de jornalismo, apaixonada pelo mundo da comunicação. Gosto de levar a vida com alegria e leveza. Sempre tive interesse por esportes, cultura e questões sociais. O futebol foi o tema que meu coração escolheu para falar sobre meus interesses e dar voz ao que me conecta com o universo.

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