Vélez Sarsfield

Salvo raríssimas exceções, é escassa a quantidade de mantos alternativos que carregam um significado e, assim, geram a empatia do torcedor. Isso porque, na virada do século, e, portanto, inserido na sociedade do espetáculo, o esporte se tornou indústria. Dessa maneira, nas palavra do escritor uruguaio Eduardo Galeano, “condena tudo aquilo que é inútil, e é inútil tudo aquilo que não é rentável”. Nesse sentido, as camisetas se transformam na galinha dos ovos de ouro tanto dos cartolas quanto dos empresários, sempre atentos ao esporte das massas. Em um contexto social-econômico mais delicado que o do Brasil ou qualquer outro país da Europa, o futebol argentino não foge à regra. No entanto, assim como algumas hinchadas, alguns clubes resistem, mas um especificamente cumpre com maestria esse papel: o Vélez Sarsfield, com sua camiseta “italiana”.

VÉLEZ SARSFIELD, O CLUBE DOS ITALIANOS?

Primeiramente, deve-se desmistificar a falácia de que o Vélez havia sido fundado, em 1º de janeiro de 1910, exclusivamente por ítalo-argentinos. Estima-se que, na América Latina, entre 1870 e 1970, a Argentina, com 2,9 milhões, foi o país que mais recebeu imigrantes vindos da Itália. Dentre aqueles que debandavam da velha bota estava Julio Guglielmone. Além dele, compunham também o grupo de fundadores Nicolás Moreno, Martín Portillo, Plácido Marín, Luis Barredo, Adolfo Barredo, Alejandro Doldán, Fidel Rodríguez, Vicente Pozo, Rodrigo de la Hoz e Julio Money.

Quando a equipe ainda dava seus primeiros arremates dentro das quatro linhas, ou melhor, pontapés, era composta por nomes como José Luis Boffi, o primeiro jogador do Fortín a ser convocado pela Seleção Argentina. Além dele, “La Muralla”, histórico sistema defensivo do clube entre os anos 1917 e 1919, tinha também Juan Fontana, Atilio Badaracco, Acacio Caballero e Miguiel Fontana. No entanto, o principal personagem nos primórdios dá nome ao estádio do clubes, no bairro de Liniers, em Buenos Aires: José Luis Amalfitani.

“Don Pepe” se associou em 7 de fevereiro de 1913. Dessa maneira, foi presidente do Vélez por mais de 30 anos, nos períodos entre 1923 a 1925 e 1941 a 1969. Sendo assim, foi o retrato inverso dos cartolas atuais. Honesto e compromissado com a instituição, a ponto de, certa vez, hipotecar a própria casa para angariar fundos com o objetivo de afastar a grave crise financeira que assolava o Vélez e que quase o fez fechar as portas, após rebaixamento em 1940.

https://twitter.com/Velez/status/1100894696342278144

CAMISA TRICOLOR

Foi em 1914 que os primeiros fardamentos “italianos” começaram a ser utilizados. Entretanto, as cores se tornariam oficiais somente dois anos mais tarde, mais precisamente no dia 14 de março. Desse modo, a semelhança com com a camisa do Fluminense renderia uma amizade entre as torcidas. Aliás, segundo o próprio site oficial do Fortín, em 1969, na partida frente ao Santos de Pelé, que terminou empatada em 2 x 2, e marcou a inauguração da iluminação artificial do estádio, o Vélez de fato usou camisas do Fluminense.

Recentemente, os torcedores argentinos reforçaram esse vínculo com o Flu ao pintarem os escudos de ambos os clube na porta de um estabelecimento nas redondezas do José Amalfitani, algo também realizado pelos cariocas nas imediações do Maracanã. No início do ano, quando a mais nova versão do uniforme foi divulgada, inúmeros torcedores do Fluminense rasgaram elogios a camisa. Além disso, é comum integrantes da “La Pandilla”, a principal barra brava do Fortín, utilizarem camisetas de torcidas organizadas ligadas ao Tricolor das Laranjeiras. Algumas faixas da união entre as duas torcidas também são frequentemente vistas no setor da barra

Em alguns modelos, entretanto, as faixas grossas eram brancas e verdes, com as vermelhas sendo as finas, por exemplo. Detalhes à parte uma coisa é fato: a camisa tricolor foi o fardamento número 1 até 1933. A partir de então, a tradicionalíssima La V Azulada foi adotada. Ambas já foram também “mescladas”. Seja com modelos nas listras tricolores que incluem também a faixa em V, ou então com a própria faixa em V nas cores italianas, manto envergando na partida em que o clube venceu o Clausura 1993, ponto de partida para os anos mais dourados do Vélez Sarsfield.

https://twitter.com/youngfluoficial/status/1182753660121563142

HÉCTOR DRUFUKA

Entretanto, cabe ressaltar, apesar da irmandade, somente um jogador defendeu tanto o Vélez Sarsfield quanto o Fluminense: Héctor Drufuka. O atacante foi avaliado nas Laranjeiras em 1951, quando guardou dois no empate em 4 x 4 contra o Bonsucesso em um jogo-treino. Então, os cariocas quiseram o contratar. Entretanto, Drufuka preferiu retornar à Argentina, onde era a estrela da base do Sportivo Dock Sud. Antes disso, em 1949, havia defendido o Vélez em duas ocasiões, sob contrato de emergência, após greve geral – aquela que, não atendida, faria muitos astros, como Alfredo Di Stéfano, rumarem ao Eldorado Colombiano.

https://www.instagram.com/p/B4Xm_bgpiJA/?utm_source=ig_web_copy_link

Pedro Ferri
Pedro Rodrigues Nigro Ferri, 19, nascido em Assis-SP. Jornalista em formação pela Faculdade da Cásper Líbero e um fiel devoto. Católico? Protestante? Não, corinthiano. Sou mais um integrante do bando de loucos e nunca me conheci sem essa doença. Frequentador de arquibancada, sou apaixonado por torcidas. Sabe aquela música do seu time? É, eu canto ela no chuveiro. Supersticioso ao extremo e disseminador da política "NÃO GRITA GOL ANTES DA BOLA ENTRAR!".

Artigos Relacionados