Tu és o nosso rei, Eusébio!

Olá, tá bem, gurizinhos?! Papai Cris na área de novo. Adeptos, todos sabem que eu sou o maior jogador da história do futebol português – minhas cinco Bolas de Ouro falam por si. No entanto, no O Gajo conta dessa semana escolhi falar de uma pessoa tão incrível quanto com quem gostaria de ter jogado ao lado na seleção: The Legend Eusébio. Não somente um símbolo de Portugal, o Pantera Negra foi o embrião do nosso atual, e campeão, selecionado nacional. Assim, o Pelé luso surgiu em uma época em que o futebol português não tinha a relevância que possui hoje. Além disso, vestindo a camisola rubra, revelou o Benfica para o mundo.

Assim, como nasci anos depois de sua época, eu vi muitos vídeos dele, arquivos e imagens, era um exemplo como jogador. Atualmente, muitos discutem quem é melhor: Eusébio ou eu. Mas, te digo, quem tem mais de cem prêmios individuais e dois títulos por Portugal é o Robozão aqui. Entretanto, não vamos falar de mim, falemos do primeiro grande craque lusitano.

A INFÂNCIA POBRE EM MAPUTO

Eusébio da Silva Ferreira nasceu em 25 de janeiro de 1942, filho de um angolano com uma moçambiquenha. Naquela época, Moçambique ainda era colônia de Portugal e como tal a vida era marcada por extremas dificuldades financeiras para os habitantes de Maputo. Aos oito anos, nosso gajo perdeu o pai para o tétano. Dessa forma, quem assumiu o controle da casa foi a mãe, Elisa, mulher guerreira que conseguiu criar quatro filhos quase sozinha. Nesse contexto, o jovem Eusébio costumava matar aula para jogar futebol nos campos de terra de Mafalaia, mesmo contrariando as ordens da matriarca.

Em um desses jogos, um olheiro de nome Chico viu no garoto o grande jogador que um dia iria despontar. Sendo assim, junto com outras crianças, formaram o time “Os Brasileiros“, onde cada uma carregava o nome de um jogador tupiniquim. Eusébio recebeu a alcunha de Nenê, meia da Portuguesa. Assim, com 15 anos, tentou entrar para o time local de Lourenço Marques, associado ao Benfica. Mas foi recusado por ser muito magro e pequeno. Após receber recusa do Ferroviário, defendeu o filial do Sporting, em Lourenço Marques, onde marcou 30 gols e foi campeão, já na primeira temporada. Nos três anos no clube, marcou 77 gols em 42 jogos.

UM BENFIQUISTA

No entanto, a paixão pelo Benfica, time do pai, o levou à Lisboa em 1961, não sem antes de uma tumultuada transferência. Superada as dificuldades iniciais, a jovem promessa estreou pelos Águias em maio daquele ano marcando três gols no Atlético de Lisboa. Na primeira temporada, anotou 31 gols em 29 jogos e tal desempenho lhe rendeu a primeira convocação para a Seleção Portuguesa. Apesar de não ter classificado para a Copa do Mundo de 1962, conquistou seu maior título, a Liga dos Campeões diante do Real Madrid, em Amsterdã, na Holanda, por 5 x 3.

Nas temporadas seguintes, o perfil velocista, mesmo com o domínio da bola, e o chute forte que empregava nos arremates lhe tornou essencial no Benfica e na Seleção. Sem Eusébio, o “outro clube de Lisboa” não teria dominado o futebol português nas décadas de 60 e 70. Com atuações impecáveis e números estratosféricos para o período, foi colecionando prêmios individuais como artilheiro da Liga dos Campeões e dos campeonatos nacionais. Foi nesse contexto que ganhou sua única Bola de Ouro, em 1965. Então veio a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, onde chegou a ser comparado à Edson Arantes do Nascimento, o Eusébio do Brasil.

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A Copa do Mundo de 1966

Dessa forma, Portugal chegou à Copa com a base do Benfica, e claro, nosso craque estava na convocação. Após passarmos com 100% de aproveitamento na primeira fase, inclusive vencendo o Brasil de Pelé e Garrincha com dois gols de Eusébio, veio o mata-mata. Nos quartos, o Pantera Negra fez quatro gols e comandou a virada histórica por 5 x 3 contra a Coréia do Norte. Nas meias finais, enfrentamos os anfitriões, que mudaram o campo de jogo para Londres, evitando que tivéssemos torcida favorável. Infelizmente, com arbitragem tendenciosa, perdemos por 2 x 1, mesmo com o gol de Eusébio, naquele que ficou conhecido como o jogo das lágrimas.

Mas, do choro, ele se levantou, ora pois, foi o artilheiro da copa com nove gols em seis jogos – algo que nem eu consegui alcançar, mesmo após 17 partidas. Terminamos em terceiro lugar, melhor participação em copas, muito pela brilhante atuação de Eusébio e, assim, o mundo se rendia a uma nova majestade. A bem da verdade, eu quase alcancei o feito com a seleção de Felipão em 2006. O desempenho na copa lhe deu o prêmio de craque do Mundial. Em seguida, foram mais nove anos defendendo as cores rubras até a despedida em 1975 com 638 gols em 614 jogos.

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FIM MELANCÓLICO

Pelo Benfica, conquistou 17 títulos e 11 participações em Champions League, em uma época em que somente os campeões nacionais e o atual vencedor da Liga dos Campeões conquistavam vaga. Inclusive, com quatro finais seguidas, levantando o troféu em uma. Um feito memorável. No entanto, uma série de lesões no joelho foram diminuindo sua intensidade e velocidade, marca de seu estilo de jogo. E assim, ainda tentou jogar pelo Boston, Monterrey, Las Vegas e Toronto até retornar à Portugal para o Beira-Mar e União de Tomar, mas com 37 anos teve um fim de carreira melancólico.

Por Portugal, foram 41 gols em 64 jogos, algo que lhe tornou o terceiro maior artilheiro da nossa seleção e, apesar dele não ter gostado, eu o superei nessa questão. Nos 23 anos em que atuou, marcou 733 gols em 745 partidas – algo que ainda vou alcançar. Dessa forma, amigos de Brasil, sugiro que tu assistas a dois documentários: Eusébio, a Pantera Negra e Eusébio – História de uma Lenda. Um produzido à época em que jogava e o último mais atual, inclusive com minha participação. Não vais se arrepender, gurizinho.

Sendo assim, há quase seis anos, perdemos o filho da África negra, vítima de uma insuficiência cardíaca. Como seu último pedido, queria, e foi, homenageado em pleno Estádio da Luz, local de grandes conquistas. O ato: uma volta olímpica ao redor do relvado junto com seus adeptos. Um dia emocionante que tu podes assistir no vídeo abaixo. Dessa forma, estará sempre na memória de um país que se hoje tem sua representatividade e relevância no cenário mundial, deve muito ao Pantera Negra. Obrigado, Eusébio!

És melhor do mundo, és melhor do mundo. Não, não sou, eu sou só, simplesmente, jogador da bola” – Eusébio.

Foto Destaque: Reprodução / Finance Football

Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 29 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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