Alex: “Não sinto falta nenhuma de jogar futebol

Alex retornou ao Coritiba em 2012, mas já estava apalavrado com o clube do coração desde 2010. Ao presenciar novamente o futebol brasileiro no dia a dia, o meia viu que muita coisa não caminhava direito. Crítico e líder em grande parte da carreira, Alex não poderia ter sido diferente no fim dela. Junto de dezenas de jogadores renomados como Paulo André, Dida, Rogério Ceni e tantos outros, criou o Bom Senso, um movimento que luta por melhorias para os jogadores de futebol, telespectadores e torcedores.

No terceiro e último capítulo da entrevista, Alex fala sobre a estrutura do futebol brasileiro, a luta do Bom Senso e a cultura dos jogadores. Além disso, o ex-jogador ressalta o poder da mídia, da televisão e de pessoas, relembra a ausência na lista da Copa de 2002, chama a CBF de gangue (e ganha aplausos dos presentes), elogia a atual seleção brasileira, o técnico Tite e diz que Neymar pode bater todos os nomes do futebol brasileiro.

Confira a última parte da entrevista:

Futebol na Veia: Em uma das partes do livro você diz uma frase que é muito emblemática, em que revela que não queria encerrar a carreira como um velho jogando em time do interior. Atualmente, quem são esses velhos?

Alex: Vários, vários, vários… Uma coisa que eu discuti comigo mesmo durante muito tempo era o seguinte: “Eu vou parar. Ninguém vai me dizer quando eu devo parar”. A imprensa tem um poder grande de passar para o torcedor a hora de cada um parar e muitas vezes eles conseguem. Comigo foi ao contrário. Eu podia jogar mais um pouco e consegui montar uma estratégia na minha cabeça e cumpri à risca para que ninguém me parasse. Parei jogando bem, parei jogando em bom nível e parei com a cabeça muito boa. Hoje eu olho para trás e não sinto vontade nenhuma de jogar futebol, prefiro jogar tênis do que futebol.

FNV: Ao longo do livro você fala muito sobre suas passagens por todos os times. Tem uma passagem rápida pelo Flamengo, em que você fala da estrutura que encontrou por lá. Passados aí dez anos, um pouco mais, desde que você saiu para estourar no Fenerbahce e voltou, como você avalia a estrutura do futebol brasileiro?

Alex: Depende, a gente tem que separar. Se for olhar para clubes de futebol sempre se deve fazer uma escala. Existem clubes, por exemplo, o Cruzeiro, que é grande em termos estruturais e administrativos há muito tempo. Então, se você for ver, as duas Tocas da Raposa são situações espetaculares. Outros times foram crescendo. O Palmeiras que eu joguei, em termos estruturais, é bem menor que o Palmeiras de hoje, que é primeira linha. O próprio Flamengo que eu joguei, que na época não tinha nada, hoje tem uma estrutura muito boa. Mas o futebol brasileiro como estrutura realmente é falho, porque as pessoas só conhecem a primeira e a segunda divisão. As séries C e D, as equipes que não tem divisão e equipes do interior são completamente esquecidas, e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tem boa participação para que a coisa não melhore para esse pessoal.

FNV: Além das histórias bonitas você conta alguns momentos tristes no livro. E o fato de ter ficado fora da Copa de 2002 é um deles, tanto que você disse que nem quis assistir à final. Olhando para trás, valeu a pena esse sentimento, foi a coisa certa no momento?

Alex: Em relação a não ver a Copa, é aí que eu digo que você não consegue dissociar a vida pessoal e profissional, porque quando sai a lista [da convocação da Copa] e eu não estou, eu chego em casa e a minha mulher, tentando amenizar a história, diz que está grávida, e era a segunda gravidez, porque ela já tinha tido um aborto espontâneo meses antes, em 2001. Naquele momento eu fico satisfeito, mas 15 dias depois começa a Copa do Mundo e ela perde o bebê de novo. Então, é uma junção de duas coisas.

O único jogo que eu tive condição de ver foi Brasil e Inglaterra, enquanto eu estava no hospital com ela fazendo a curetagem desse aborto. Então, se me disser: “Ah, você não viu a Copa porque estava chateado?”, até podia ser, mas ainda tinha essa situação da minha esposa que agravou um pouco a situação na qual demorou um pouquinho de tempo para que eu e ela pudéssemos nos recuperar.

FNV: Qual a sua opinião sobre o Felipão? Por que você acha que não entrou naquela seleção?

Alex: O motivo de eu não ter entrado na lista eu não sei, isso só ele quem sabe. O meu trato com o Felipão é de duas formas. Como treinador ele foi um cara que me ajudou bastante, aprendi muito com ele. A gente tinha um entendimento bom naquele período nosso de Palmeiras, tanto que quando ele sai para o Cruzeiro ele tenta me levar para lá e depois na Europa ele me indica ainda para alguns clubes. Então, enquanto treinador eu o respeito demais. Agora, como pessoa ele foi um cara que falhou comigo e eu já disse isso para o próprio Felipe (Felipão). A gente tinha uma relação pessoal e nessa relação ele falhou. Mas segue, não carrego rancor, não carrego mágoa nenhuma.

FNV: Depois disso você volta à Seleção e chega a ser o capitão do Parreira na Copa América de 2004. No livro você até faz um comentário de que jogou bem durante a competição, mas como o Adriano fez o gol de empate no último minuto, todo mundo foi em cima dele…

Alex: É porque funciona assim. No Brasil, principalmente com o peso que tem a Globo, com o peso que tem o Galvão Bueno, funciona desse jeito. Eu lembro que eu fui em 2001 para a Copa América e nós perdemos para Honduras, aí escolheram dois ou três como os culpados e esqueceram dos outros. Em 2004 eu fiz uma boa Copa América, num nível até acima do que eu esperava, só que o Adriano fez sete gols, fez o gol da final quando o jogo já estava acabando contra a Argentina, e isso realmente tem um peso maior. É merecido? É óbvio que é merecido, só que não pode ter o esquecimento de quem foi coadjuvante ali do lado. O mesmo vale quando perde, quando se escolhe alguns e os muitos outros que estão ali são esquecidos. O futebol permite isso. Acho que é o único esporte que você pode não jogar nada, não saber nada, mas consegue jogar 20 anos, porque nunca se fala daquele jogador, mas ele está ali, participando, sendo campeão, cai de divisão e nem lembram que ele caiu, que ele foi campeão, mas ele participou. Então, quando vem um elogio, ele vem forte, mas quando a pancada vem, ela vem forte também.

FNV: Foi nesse jogo contra Honduras que seu pai teve um começo de infarto?

Alex: Não, não. Isso aí foi em 1999. Eu não joguei nada e o Galvão meteu o pau em mim durante 85 minutos, mas assim, feio mesmo, e eu acho que eu só não saí do jogo porque o treinador era o Luxemburgo, se fosse outro treinador me tiraria, porque realmente eu estava mal, mas o Vanderlei sempre teve uma confiança extra em mim, achava que em algum momento poderia acontecer alguma coisa. E aconteceu. Eu fiz o gol da vitória faltando dois ou três minutos, e nessa, meu pai passa mal e fica dois meses sem poder acompanhar futebol, principalmente jogos meus. Mas é isso que eu disse, é o peso da paulada, quando ela vem é forte e quem vive disso aos poucos tem que ir se acostumando.

FNV: E como foi ganhar a Copa América de 2004 pela seleção?

Alex: Existia uma expectativa grande no que aquele time poderia fazer. Diferentemente da Argentina e do Uruguai, que foram com os times principais completos, equipes fortes e de muita qualidade, os principais nomes do Brasil preferiram não jogar, então o Parreira acabou levando alguns jogadores que participavam do time dele, mas que não eram titulares na época. Sofremos contra o Uruguai, mas conseguimos vencer, e com a Argentina passamos um sufoco, o gol do Adriano levou a decisão para as penalidades e acabamos vencendo.

Ser campeão com a seleção é algo extraordinário, e tendo a oportunidade de ser o capitão, um fato que me surpreendeu porque eu não tinha nenhuma relação com o Parreira e normalmente o capitão do time tem uma relação boa com o técnico, é uma responsabilidade ainda maior. Fui premiado em poder levantar a taça que, abaixo da Copa do Mundo, é o segundo campeonato em importância. Realmente foi uma satisfação muito grande que me traz alegria até hoje.

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FNV: Em 2014 surgiu o Bom Senso Futebol Clube, em que você e outros jogadores começaram a questionar medidas, tanto dentro dos próprios times, como com a CBF, com as televisões… Como está o Bom Senso hoje?

Alex: Ah, não tá, né! Os jogadores não querem participar, não querem se posicionar, mas isso é um exemplo do que vive a nossa sociedade. Muitos reclamam, mas se colocar à frente do negócio e correr algum risco poucos querem. Nós fizemos em 2013 e 2014, mas muita coisa mudou. Alguns já se despediram, como é o meu caso; outros saíram do Brasil e outros sofreram retaliações fortes, como é o caso do Paulo André, que achou um refúgio no Atlético Paranaense. O modelo ainda existe, mas é uma representatividade dos jogadores e hoje, infelizmente, a maioria deles é egoísta, ficam olhando para si próprios. Então, dificilmente vai ter aquela movimentação que teve em 13 e 14.

FNV: Muito se fala sobre o fim dos estaduais no Brasil. Vocês do Bom Senso já conversaram sobre a possibilidade de se ter um modelo de campeonato com várias divisões, sendo que as últimas seriam campeonatos nacionais mais regionalizados?

Alex: Nossa ideia é essa. A primeira coisa que o grupo defendia era não acabar com os estaduais, porque existem vários níveis profissionais, e isso não é demérito para ninguém. Existem jogadores para jogar em Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras e existem jogadores que jamais vão atingir esse nível, até mesmo porque é impossível ter um volume tão grande jogando nesse escalão. E fora isso tem os profissionais que ali trabalham. Tem a “tia” da cozinha, tem massagista, roupeiro e todo mundo que gira em torno do clube. Então, a primeira ideia do grupo é não acabar com isso.

O grande “X” da questão é que o grupo [Bom Senso] foi montado, atingiu situações legais, fomos recebidos por muita gente, visitamos a Dilma em Brasília, enquanto presidente, chefe da Casa Civil, deputados, senadores, que são quem assinam. Mas a gente perdeu onde eu imaginava que perderia: nosso poder de execução é nenhum, a única medida que poderia ser feita era uma greve geral, mas algo assim, da maneira como nosso jogador é educado, dificilmente vai acontecer porque ele tem muito medo de sofrer alguma coisa lá na frente. Mas é possível fazer essas mudanças sim, depende dos clubes grandes puxarem a fila e terem o entendimento de que os clubes menores são importantes para formarem jogadores, por exemplo, como já foram um dia, mas que hoje já não acontece tanto.

FNV: O que você tem achado da nova fase da Seleção? Conseguiria vestir a dez ainda?

Alex: Nem na pelada (risos). Se me chamarem para uma pelada, se for às 11h eu chego às 11h50. Não sinto falta nenhuma de jogar futebol, realmente quem quiser brincar comigo tem que me chamar para jogar truco, jogar outra coisa, porque futebol já ficou um pouquinho para trás.

A Seleção vive um momento muito legal porque tem bons jogadores, tem o Neymar, que é fora de série, é aquilo que só aparece de vez em quando no futebol, e ele tá querendo muito, tem muito desejo, já percebeu que pode bater todos os nomes do futebol brasileiro e só depende dele e do que ele continuar fazendo. E junto disso tem jogadores de qualidade e um treinador (Tite) que deu uma organização e ofereceu confiança aos atletas. É um bom time organizado que vive um momento mágico do qual tem dado prazer de ver jogar.

Jogo rápido agora, sem pensar muito, responda com apenas uma palavra ou frase:

Coritiba?

Minha vida.

Cruzeiro?

Segunda chance.

Fenerbahce?

Paixão.

Palmeiras?

Oportunidade.

Seleção brasileira?

Sonho.

Ricardo Teixeira?

Aproveitador.

CBF?

Gangue (aplausos e gritos da plateia).

Futebol?

Vida.

Impeachment ou golpe?

Política.

Daiane (esposa)?

Em uma palavra é complicado, tem um monte de amigos dela aqui que eu estou vendo, depois os caras me entregam (risos). Mas em uma palavra… “parceiraça”, ela é uma grande parceira.

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Giovanni Froeming
Jornalista formado na UniCesumar, em Maringá (PR), é viciado em esportes, café e churrasco. Apaixonado por futebol, assiste qualquer jogo que lhe for possível, independentemente de time, campeonato ou região. É autor do livro “Três sets: os desafios do vôlei profissional de Maringá” e atacante do Tonelada Futebol Clube. Acredita, às vezes até de maneira ingênua, que pode, de alguma forma, utilizar o jornalismo para fazer do mundo um lugar melhor.

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