Santo Time: fé e futebol jogam juntos em busca da Champions Clero

- Nessa pérola da comédia, o futebol é responsável por uma revolução em um mosteiro
Santo Time retrata a revolução do futebol em um mosteiro (Foto: Divulgação / Morena Films)

Quem foi que disse que religião e futebol não podem ser temas de discussão e ainda mais baterem uma bolinha? Pois, é o que acontece no divertidíssimo Santo Time, filme espanhol do diretor Curro Velázquez. Lançado em 2017 pela produtora Morena Films, a obra apresenta, ainda que de forma humorada, o efeito de transformação que o futebol é capaz de causar na pessoas. Dessa forma, disponibilizada pela Netflix, o filme é a recomendação da coluna Futflix dessa semana.

Em seus 95 minutos, Santo Time nos apresenta a Salvador, um padre que busca evangelizar crianças na África através do futebol. No entanto, seus métodos nada cristãos para escapar das milícias armadas levam ele a ser punido com a estadia em um mosteiro. Assim, para impedir a venda do local e a construção de um hotel em seu lugar, o religioso treina um grupo de monges para um campeonato de futebol. Em jogo, impedir a demolição do prédio e voltar ao seu sonho. No caminho, vidas são mudadas pela força do esporte.

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Quem nunca fez aquela promessa para seu time ganhar um campeonato? Quem nunca rezou para seu “santo goleiro” antes de uma disputa por pênaltis? Logo, religião e futebol sempre estiveram ligados. Ela encontra presença no sentimento de pertencimento do torcedor a um clube de futebol, em que alguns mais emotivos alegam fazerem parte de uma religião. Além disso, inclusive, quando uma agremiação declara a existência de sua própria religião, como aconteceu com o Corinthianismo disseminado pela Fiel de Andrés Sanchez. Assim, também não são poucos os exemplos de jogadores tidos como atletas de Cristo e de clubes declaradamente católicos.

No entanto, há quem peça a sua separação, afirmando que a fé não combina com o esporte. Um desses expoentes é o técnico Levir Culpi, que prefere deixar a crença para as arquibancadas, acreditando na racionalidade como meio para conquistar sucesso nas quatro linhas. Todavia, e quando não é o futebol que se insere na religião, mas sim o contrário? O resultado é um filme que faz refletir, entretém e, minimamente, nos ensina o poder transformador da bola.

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER SPOILER. CASO NÃO QUEIRA PERDER SUA EXPERIÊNCIA, ASSISTA O FILME E VOLTE DEPOIS PARA LER.

SANTO TIME SANTO

Apesar de uma introdução um tanto demorada, perdendo muito tempo para nos ambientar, quando Santo Time chega no que tem de melhor, a narrativa flui com leveza. Desde então, é fácil torcer pelos personagens na tela em sua busca por destaque e sucesso coletivo. Cada qual com seu perfil caricato e já consagrado em filmes de comédia: o gordinho, o desajeitado, o nerd e o craque de vigor físico. Dessa forma, todos coordenados pelo padre Salvador, principal fio condutor da fita que conquista pelo tom humorado.

Assim, mesmo acompanhando a jornada de Salvador, a obra “dá campo” para os coadjuvantes, em especial o personagem Simón. Interpretado por Joel Bosqued, o menino encontra-se confuso entre sua vocação ao monastério e a paixão por uma amiga de infância. Enquanto que outro que ganha terreno é o sonhador Ramón, de El Langui, responsável pelos melhores insights de comédia. Falando de um filme com religião, o craque do time não poderia ser outro que não, literalmente, Jesus, em uma mistura de Léo Gamalho e Loco Abreu.

Logo, todos encontram seu lugar no mundo através da bola. No entanto, quem melhor discute os contrastes entre o conservadorismo religioso e a inovação revolucionária do futebol é o padre Munilla, de Karra Elejalde. Assim, refém da hierarquia eclesiástica e temendo perder o sonho de sua vida, o personagem aborda, inclusive, as práticas de simonia presentes em algumas estruturas do clero. Dessa forma, encara as diferenças chutando uma bola. Apesar de um final previsível, você não deixa de se alegrar com a resolução da situação.

CONQUISTA PELA LEVEZA HUMORADA

Todavia, como todo filme despretensioso, Santo Time comete falhas pelo caminho. Assim, peca em uma transição de atos corrida demais, em que o expectador não sente a evolução técnica do time de descoordenados de Salvador. Isso porque, da estreia desastrosa, o grupo já consegue criar competitividade na partida seguinte apenas pela vontade de fazer diferente. Além disso, trata seus subnúcleos paralelos sem a profundidade necessária para um bom desenvolvimento e conquista por parte de quem ver.

Ainda assim, os erros são superados por uma fotografia que complementa o tom caricaturado da narrativa e por um texto que arranca sorrisos. Não há como não rir com as referências ao futebol e a analogia da Champions Clero com a Liga dos Campeões da UEFA. No fim, Santo Time deixa o sabor de quero mais com a competição mundial.

Dessa forma, a obra é uma dessas produções escondidas no streaming Netflix, que apenas por uma busca mais específica em filmes de esportes para se encontrar. Assim, despretensioso em sua essência e engraçado em sua construção, Santo Time é uma pérola do desporto que conquista pela leveza de sua narrativa. Ao final da sua uma hora e meia, você terá outra visão dos mosteiros. Logo, com um papa torcedor do San Lorenzo, será que Deus tem time para torcer também? O Vaticano tem em seu “temível Fosso“…

Foto Destaque: Divulgação / Morena Films

Ricardo do Amaral

Sobre Ricardo do Amaral

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"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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