SAFs: o suspiro de Botafogo e Cruzeiro

Nas últimas semanas de 2021, saiu a notícia bombástica de que Ronaldo Nazário, o Fenômeno, havia adquirido 90%(noventa por cento) do Cruzeiro pelo valor de 400 milhões. O Cabuloso, então, se tornava um clube-empresa. Além disso, o Botafogo também passou por processo semelhante e retorna a Serie A em 2022 com novo projeto. As SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol) são baseadas na Lei 14.193, que institui uma série de normas tributárias e administrativas para que as instituições sem fins lucrativos possam ser transformadas em empresas.

A ideia das SAFs e o processo de transição

Os rumores da entrada de capital novo, em clubes brasileiros, começaram no ano de 2019, com declarações de Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente do Botafogo. Ele garantia a transformação do clube em empresa. Mas só em 2020, ano de rebaixamento e da pior campanha na história dos pontos corridos, é que isso começou a se mostrar mais concreto. Muito se falou dessa mudança e de como o Botafogo seria de uma vanguarda que chegaria para “profissionalizar” o futebol brasileiro.

O Cruzeiro, pouco havia repercutido até mesmo porque o clube entrou em uma sequência consecutiva de anos caóticos. Isso, legado que uma administração amadora e sem responsabilidade fiscal que afundou o clube de Minas Gerais. Diferentemente do Botafogo, a transição foi feita de uma estrutura totalmente amadora, para uma totalmente profissional, e isso explica alguns empecilhos e rumores nas decisões do presidente do clube e o, agora sócio majoritário, Ronaldo Nazário.

As SAFs como um suspiro

Fato é que a imprensa ficou dividida e apresentou argumentos que defendem e outros que criticaram de forma clara essa transformação dos clubes de futebol brasileiros. Botafogo e Cruzeiro fazem parte do grupo dos clubes com 1 bilhão de reais em dívidas e que por conta de administrações sem nenhuma responsabilidade fiscal, esse passivo só aumenta. A transformação dessas instituições em empresas não é luxo, mas sim uma última cartada ou um último suspiro.

As SAFs não são para enriquecer os clubes com grande importância no cenário do futebol sul-americano. Essas equipes já possuem diversos mecanismos de responsabilidade fiscal atrelados a quem os administra. A função dessas transformações é romper com o amadorismo administrativo que fez com que diversos clubes chegassem o bilhão em dívidas.

Os últimos anos desses clubes foram marcados por execuções e penhoras quase que diárias referentes a dívidas trabalhistas criadas em gestões passadas. Isso impedia que os clubes se mantivessem minimamente saudáveis. Por isso não conseguiam participar dos campeonatos sem atrasar salários ou criar mais pendências.

A fala da atual presidente do Palmeiras, Leila Pereira, sendo totalmente contrária a transformação do clube palestrino se dá justamente porque, hoje, o Palmeiras conseguiu instituir uma série de medidas legais no estatuto do clube que impedem a criação de dívidas e garantem a estabilidade financeira da instituição, por isso ela é contrária.

Botafogo e Cruzeiro não têm outra saída, precisam de capital investido urgentemente. A equipe de Minas Gerais ainda mais, pois está na série B e com diversas ações na FIFA, referentes à contratação de jogadores que pode causar até mesmo o rebaixamento, caso não haja o pagamento dessas pendências.

Cruzeiro SAF e Ronaldo

Ronaldo aparece em reunião após Cruzeiro virar SAF
Foto: Reprodução/XP Investimentos

O Cruzeiro, há menos de quatro anos (em 2018) foi campeão da Copa do Brasil pela sexta vez em sua história e dessa vez bicampeão de forma consecutiva. Sem muita dúvida, o Cruzeiro é facilmente um dos clubes brasileiros mais importantes deste século. Outro ponto a se considerar é a torcida, mesmo desacreditada apoia sempre de forma incondicional. E de fato, e quer ver o seu time figurando os lugares de destaque do Brasil, onde passou tanto tempo. 

Sobre o investidor

Ronaldo é dono de um clube na Espanha, o Real Valladolid. Mesmo com a profissionalização e redução das dívidas, o desempenho em campo ficou a desejar. Dessa forma, o clube foi rebaixado, após três anos na primeira divisão. O torcedor do Cruzeiro, não quer ver o time equacionando as dívidas e permanecendo na Série B. O desempenho em campo tem que seguir conforme a grandeza do clube.

Portanto, Ronaldo talvez não tenha sido o comprador ideal para o Cabuloso. Talvez tenha sido o mais corajoso de assumir a dívida do clube. Nesse momento o clube não podia mais perder tempo. Ronaldo não era o ideal, mas era o melhor dentre as opções.   

Botafogo SAF e John Textor

O Botafogo teve sua última grande conquista há 27 anos. Desde então acumula fracassos em competições nacionais e eliminações vexatórias na Copa do Brasil. Fato é que o Botafogo, clube que mais cedeu jogadores à seleção brasileira, tem grande importância para o futebol brasileiro e mundial. Porém, há bastante tempo que o clube só aparece na grande mídia com questões relacionadas a dívidas ou atraso de pagamentos. 

Em 2017, o Botafogo fez uma ótima Copa Libertadores e perdeu para o Grêmio, nas quartas de final. Durante toda a competição a torcida fez o seu papel, mostrando que não precisava de muito para acreditar e apoiar até o final. Esse apoio voltou a se destacar na campanha para a conquista da Série B. No ano passado, o número elevado de interações nas redes sociais, chamou atenção. Mesmo estando na segunda divisão, o clube sempre aparecia no Top 10 de interações.

Sobre o investidor

John Textor, o principal investidor da Eagle Holding, fundo que negocia com o Botafogo, é também investidor do Crystal Palace, da Inglaterra. O Palace, assim como o Botafogo, tem uma torcida fanática mesmo sem muitas conquistas. Há algum tempo o clube vem se reestruturando e isso é notável quando se analisa o desempenho em campo nas últimas temporadas. Com um investimento modesto, em comparação aos demais concorrentes na liga, o Palace vem fazendo campeonatos sem sustos. Assim, figura no meio da tabela há algumas temporadas.

Textor entende a carência do torcedor alvinegro por títulos. Em contrapartida, a torcida também entende que tentar ganhar a qualquer custo foi o que fez de Botafogo e Cruzeiro, clubes com 1 bilhão em dívidas. Portanto, é mais importante organizar a casa, para depois começar a sonhar voos mais altos. O investidor, em algumas entrevistas. já mostrou ter esse perfil, o que faz da escolha, caso o negócio se concretize, uma escolha acertada.

Foto destaque: Divulgação/Vítor Silva/Botafogo

Bernardo Monteiro

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