Roberto Carlos: o lateral-esquerdo dos gols impossíveis

No ano de 2012, Roberto Carlos, um dos maiores laterais-esquerdos de sua geração, despediu-se dos gramados. Com gols impossíveis, títulos de peso, um futebol diferenciado e nome de Rei, até os dias atuais, o craque é um dos jogadores mais marcantes do Brasil. Assim, nesta semana, a coluna Nostalgia Brasileira conta um pouco da grandiosa história do lateral.

INÍCIO DA VIDA

Natural da cidade de Garça, interior de São Paulo, Roberto Carlos chegou ao mundo no dia 10 de abril de 1973. Filho de lavradores, sua infância se desenhou nos campos de uma fazenda de café, e seu nome é uma homenagem ao cantor Roberto Carlos. Aos 8 anos, foi morar em Cordeirópolis, também no interior paulista. Posteriormente, foi onde deu seus primeiros passos no futebol.

Inicialmente, começou atuando em um clube amador de uma fábrica de aguardentes. Junto a sua equipe, foi convidado pela prefeitura da cidade a participar dos Jogos Abertos do Interior. Contudo, somente sete anos depois, em 1988, começaria sua trajetória oficial no futebol, pelo União São João, da cidade de Araras, em São Paulo.

O COMEÇO DE UM SONHO

O jovem rapaz tinha apenas 16 anos quando, enfim, estreou em seu primeiro clube oficial. Sua posição inicial foi na lateral-esquerda e, com o potencial destaque, acabou chamando a atenção da Seleção Brasileira-Sub 20. Posteriormente, três anos mais tarde, aos 19 anos, Roberto Carlos partiu rumo à Europa, em uma excursão, junto ao Atlético-MG.

Na época, o Galo, disputava, simultaneamente, a Copa Conmebol e, assim, viajou apenas com um elenco misto, o que permitia jogadores de outras equipes. Sobretudo, todo o processo era uma peneira que serviu para integrar novos jogadores ao elenco. Desse modo, quem se destacasse, firmaria um contrato efetivo com o clube.

Nos dois primeiros jogos, diante dos italianos Lazio e Torino, Roberto Carlos acabou não participando. O clube mineiro perdeu as duas partidas por 2 x 0. Enfim, sua estreia foi no dia 27 de agosto contra o Lleida. No duelo, o jovem talentoso atuou os 90 minutos, mas, assim como todo o elenco em campo, não fez um bom jogo. O resultado foi mais um revés, dessa vez, por 2 x 1. Posteriormente, nos dias seguintes, mais duas derrotas, agora, para Logroñés e Athletic Bilbao. Ambas as partidas foram válidas pelo Troféu Cidade de Logroño.

PALMEIRAS

Apesar da pífia campanha atleticana, Roberto Carlos em algumas partidas conseguiu mostrar seu diferencial. Assim, não demorou para chamar atenção do gigante brasileiro Palmeiras. Na época, o Verdão passava por uma reestruturação milionária com a patrocinadora Parmalat. Desse modo, o garoto pôde atuar ao lado de grandes nomes em ascensão no futebol, como Evair, Edmundo e Rivaldo.

De fato, o investimento da equipe deu certo, já que, naquele ano, após 16 anos de jejum, conquistou o Campeonato Brasileiro. Similarmente, também conquistou mais dois títulos de peso: Campeonato Paulista e Torneio Rio-São Paulo. No ano seguinte, em 1994, novamente conquistaria mais glórias pelo Alviverde, como o bicampeonato paulista e brasileiro. Nesse ínterim, ao todo, foram 185 jogos e 20 gols marcados pelo Palmeiras.

RUMO À ITÁLIA

Após grande destaque no Palmeiras, chamou a atenção da italiana Internazionale, que não perdeu tempo e desembolsou US$ 7 milhões para tê-lo em seu elenco. Desse modo, chegou com moral à Europa. Seus ataques diferenciados eram bastante comentados entre os italianos. Assim, Roy Hodgson, técnico inglês do clube na época, resolveu usá-lo como ponta-esquerda, por achar que suas características eram de um atacante. Entretanto, o jogador acabou não se acostumando com a posição e, assim, não rendeu o esperado. Apesar de não vingar na posição, Roberto Carlos fez uma temporada considerável. Logo em sua primeira partida, marcou o gol da vitória por 1 x 0 sobre o Vicenza. A saber, foram 34 jogos e sete gols marcados.

Meu problema na Inter era o Hodgson. Ele queria que eu jogasse como atacante, quando, na verdade, eu era defensor. Eu prefiro ter espaço na minha frente para correr ao invés de ser um ponta e ficar lá na frente. Eu não gostava do sistema e da posição que Hodgson queria que eu jogasse. Ele me queria bem na linha de frente, rígido e parado”, declarou Roberto Carlos em entrevista à ESPN Brasil.

RUMO À ESPANHA

Na Espanha, atuando pelo Real Madrid, Roberto Carlos alcançaria seu auge na carreira. Com isso, durante 11 anos no clube, conquistou títulos, autonomia mundial e o carinho de muitos torcedores. Após passagem pela Inter de Milão, transferiu-se para os Merengues como moeda de troca com  Iván Zamorano, de 30 anos, mais compensação financeira. Na época, a transação foi bastante comentada – diz-se criticada – por italianos, pelo fato de Roberto ser mais novo que Zamorano.

No clube de Madrid, foram 584 partidas e 71 gols. Nesse período, conquistou títulos consideráveis. Consequentemente, chamou a atenção da Seleção Brasileira principal. Simultaneamente, o time espanhol voava com seu elenco de destaque.

Roberto Carlos
Divulgação/Real Madrid

OS GALÁCTICOS

Ao lado dos craques  ZidaneBeckhamRaúlCasillasFigo e Ronaldo, formou o famoso time dos Galácticos. A alcunha foi denominada para enfatizar a grandeza dos jogadores e o esforço do clube em construir uma equipe de classe mundial. Com o Real, conquistou três vezes a Liga dos Campeões da UEFA (1997/1998, 1999/2000 e 2001/2002). Sempre fundamental, foi votado pela UEFA como o melhor lateral-esquerdo em 2002 e 2003. Além disso, no ano de 2006, estabeleceu o novo recorde de estrangeiro com mais partidas pela La Liga, quebrando o recorde anterior de 329 partidas do argentino Alfredo Di Stéfano.

Sendo um dos jogadores mais consistentes do elenco e com mais tempo de casa, em certa ocasião, acabou duramente criticado por errar num jogo contra o Bayern de Munique, válido pelas oitavas de final da Liga dos Campeões de 2006/2007. O gol resultou como sendo o mais rápido da história do torneio, marcado por Roy Makaay com menos de um minuto de partida. Nesse ínterim, o fato culminou na desclassificação do Real Madrid.

Insatisfeito e desgastado com a torcida, no dia 9 de março de 2007, anunciou que não renovaria seu contrato. Em sua última temporada pelo clube, conquistou o título da La Liga 2006/2007, sendo o 4º título espanhol durante sua passagem pelo Real.

DONO DOS GOLS IMPOSSÍVEIS

No Real Madrid, Roberto Carlos fez um de seus gols mais memoráveis. Durante uma partida diante o Tenerife, pelo Campeonato Espanhol de 1997/1998, acertou um potente e veloz chute da linha de fundo, a um ângulo de 179º da trave. Em 1997, em outra oportunidade, novamente acertou um chute de muito longe e venceu o goleiro Barthez, durante um jogo da Seleção Brasileira contra a França. O tento, portanto, ficou conhecido como O Gol Impossível e rendeu diversos estudos que explicavam a força e a trajetória da bola até o fundo das redes.

“A primeira coisa que fiz foi ajeitar a bola com a válvula [de ar], a parte mais dura, virada para mim. Depois, escutei o Dunga me falar ‘está muito longe para você’. E, depois do jogo, o Zagallo me disse que tinha comentado no banco de reservas que, se eu fizesse o gol daquela distância, 35 metros, ele deixava o banco. Mas ele não deixou o banco porque era o treinador”, comentou o lateral em entrevista para UOL, no ano de 2017.

CORINTHIANS

Encerrando uma passagem de 11 anos pelo Real Madrid, transferiu-se ao turco Fenerbahçe, onde fez trajetória razoável até retornar ao Brasil para atuar pelo Corinthians. Após várias especulações sobre seu destino, foi anunciado como o primeiro grande reforço do clube para a Copa Libertadores da América de 2010. De fato, acabou atraído devido ao projeto  da gestão corintiana de montar um time forte para o ano. Assinou o contrato e foi apresentado no dia 4 de janeiro de 2010.

Sua estreia aconteceu poucos dias depois, em 20 de janeiro. No dia, o Timão venceu o Bragantino por 2 x 1 pelo Campeonato Paulista. Apesar da idade avançada, a essa altura com 36 anos, mostrou um excelente preparo físico com atuações muito elogiadas. Consequentemente, seu desempenho culminou em várias especulações sobre seu retorno à Seleção Brasileira. Entretanto, acabou não convocado. Encerrou sua passagem pelo Corinthians em 2011, quando deixou marcado um gol olímpico diante da Portuguesa.

APOSENTADORIA E ESTREIA COMO TÉCNICO

Após passar pelo Corinthians, Roberto Carlos ainda atuou pelo Anzhi Makhachkala, da Rússia, até, por fim, encerrar sua carreira como jogador. Na equipe, apresentou uma passagem conturbada, por conta de ataques racistas de torcedores russos. No dia 1º de agosto de 2012, por fim, pendurou as chuteiras aos 39 anos. Apesar dos ataques, permaneceu na equipe russa, agora como diretor. Inclusive, no time, também obteve passagens como treinador.

Em 2013, foi anunciado como técnico do Sivasspor, da Turquia, para a disputa da Süper Lig. Após uma boa primeira temporada, o clube terminou em 5º lugar no torneio nacional. Contudo, no dia 21 de dezembro de 2014, acertou sua rescisão de contrato após um péssimo começo de temporada, deixando o clube na penúltima colocação do Campeonato Turco. Além disso, em virtude de seu bom desempenho pelo Sivasspor na temporada anterior, foi eleito o melhor técnico da Turquia em 2014. Entre os clubes comandados por Roberto Carlos estão Akhisar BelediyesporAl Arabi e Delhi Dynamos.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Na Seleção Brasileira, sua trajetória começou cedo, desde os tempos de sub-20. Até os dias atuais, é o 2º jogador que mais vezes vestiu a Amarelinha. A saber, soma um total de 126 jogos, perdendo apenas para Cafu (149 jogos). Na Copa do Mundo de 2002, foi peça fundamental. Posteriormente, na Copa de 2006, após o fracasso brasileiro, foi bastante criticado por uma ato visto como imaturo. Responsável pela marcação em Thierry Henry, parou para “arrumar o meião”.

Após a desatenção, a França acabou fazendo o gol que, mais tarde, portanto, eliminaria o Brasil da competição. Nesse ínterim, com as ofensas, Roberto Carlos chegou a dizer que nunca mais jogaria pela Seleção. Contudo, por fim, mesmo após o caso, disse, em uma entrevista, que, caso a Seleção precisasse de um lateral-esquerdo experiente, estaria à disposição.

Roberto Carlos da Silva Rocha, marrento, ofensivo, craque. O cara dos gols impossíveis, dos ataques diferenciados, renomado. Com uma carreira vasta e gloriosa, em seus tempos de atividade, sortudos os torcedores que, em algum momento, puderam prestigiar seu futebol maravilhosamente particular.

Roberto Carlos
Reprodução/O Popular

Foto destaque: Divulgação/CBF

Karine Gommes
Se o céu é o limite, então voe, irmão! Sou jornalista em formação do 7° semestre pela Universidade Cruzeiro do Sul. O jornalismo surgiu em minha vida, quase que simultaneamente, com a minha paixão por esportes. Necessitava viver aquilo. Assim, fui atrás. Conforme conhecia o profissão, pude visualizar quão ampla é. Apesar de ser apaixonada por esportes, eu quero vivenciar todas as vertentes que o jornalismo me proporcionar. Estou aqui para fazer jus ao meu grande sonho. Prazer, sou Karine Gommes ;)

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