Robert Enke: a luta contra a depressão

- A saúde mental é importante e precisa de conscientização nos esportes

Brilho, conquistas, luxo e badalação são termos comumente relacionados à jogadores de futebol e, suas respectivas carreiras. Contudo, pouco se fala sobre a pressão vivida e os momentos de autos e baixos. Assim, numa montanha russa de emoções, a saúde mental dos atletas é afetada e diversos problemas podem aparecer. Após 10 anos sem Robert Enke, descubra na Coluna Quebrando Muros, dessa semana, sobre a carreira do brilhante jogador que, foi acometido pela depressão – num período em que o assunto não era tão discutido – e acabou se suicidando.

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O início

Robert Enke nasceu em Jena, na antiga Alemanha Oriental. Sua família era de atletas – o pai era corredor e competia nos 400 metros com barreiras e sua mães era jogadora de handebol. Assim, não demorou muito para que o jovem adentrasse ao mundo dos esportes. Enke entrou para as categorias de base do Carl Zeiss Jena como goleiro, em 1985, quando tinha apenas oito anos e continuou no clube durante os primeiros anos de reunificação do país. Mas foi só na temporada 1995/96 que, disputou suas primeiras partidas como profissional na 2.Bundesliga. Juntamente a isso, passou a acumular convocações para a seleção sub-18, além de já ter atuado pela sub-15.

Em 1996, assinou com Borussia Monchengladbach que, estava na primeira divisão. No entanto, se tornou titular apenas na temporada 1998/99, quando o goleiro principal teve uma lesão ainda na pré-temporada. Dessa forma, Enke pôde mostrar todo seu potencial e qualidade técnica. Apesar de não evitar o rebaixamento do clube que, já vinha mal desde a temporada passada, teve seu trabalho reconhecido. Com isso, foi convocado para ser reserva de Jens Lehmann na Copa da Confederações de 1999, com apenas 21 anos, e de quebra assinou contrato com o Benfica.

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Robert Enke atuando pelo Gladbach (Foto: Reprodução/Trivela)

Ao chegar em Lisboa, foi muito bem recebido por Jupp Heynckes, outro ídolo do Gladbah que, acabara de assumir o comando da equipe portuguesa. Porém, foi nesse período que as dificuldades do jogador começaram a aparecer. Os problemas com ansiedade ficaram evidentes quando Enke teve um ataque de pânico e cogitou não embarcar rumo a Lisboa. Assim, Teresa – atleta de pentatlo moderno e namorada do jogador desde os 17 anos – foi fundamental para apoiar o jovem.

Na capital portuguesa, Robert encontrou estabilidade e um senso de segurança, o que fez o jogador se firmar no clube e tornar-se capitão. Além disso, com a confiança e auto estima acreditava que, os problemas com a saúde mental haviam sumido. Enke vivia tranquilamente e possuía um trabalho voluntário extra-campo: ele e Teresa resgatavam animais abandonados.

Crises

Após duas temporadas no Benfica, fechou com o Barcelona em 2002, lá teve sua primeira grande crise. O goleiro não teve o destaque que esperava no clube catalão. O início de sua passagem foi conturbado e em sua estreia pela Copa do Rei que, na época tinha jogos únicos nas fases iniciais, o Barça acabou eliminado. Dessa forma, Enke precisou encarar duras críticas e, pela primeira vez foi diagnosticado com depressão. O alemão se cobrava muito e, nesse segundo semestre de 2002, disputou apenas dois jogos pelo Barcelona, ambos pela Champions League, terminaram em vitórias contra o Club Brugge e o Galatasaray.

Além disso, Valdés teve ascensão nesse mesmo período e ocupou o espaço de titular. Assim, Enke ficou no banco durante todo campeonato e disputou apenas uma partida. Mais tarde, em processo de tratamento da depressão teve a chance de outro recomeço. O goleiro foi envolvido numa negociação do Barcelona e, foi emprestado ao Fenerbahçe para a temporada 2003/04. Contudo, sua estreia foi traumática devido à atitude da torcida que, atirou objetos no novato ao final da partida.

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Passagem de Enke pelo Barcelona (Foto: Reprodução/Trivela)

Já abalado, o jogador não conseguiu se manter em Istambul e teve o contrato rescindido. De volta à Espanha, sentia-se isolado e sem espaço algum no time principal. Mesmo assim, não se deixou abater e evoluiu na sua luta contra a depressão. No início de 2004, foi emprestado ao Tenerife que, encontrava-se na segunda divisão. Apesar de ser um estilo de jogo totalmente diferente do brilhante jogador, Enke conseguiu recuperar sua confiança e retomar seu sucesso.

Outro capítulo

Quando Lara – primeira filha de Teresa e Robert – nasceu, foi diagnosticada com um problema cardíaco congênito, por isso, o goleiro optou por retornar à Alemanha ao deixar o Barcelona. Afinal, assinando com o Hannover, a família teria fácil acesso a um renomado hospital infantil da cidade. Nesse momento, o jogador tinha virado a página da depressão e seu foco era nos cuidados com a pequena. Ademais, dentro das quatro linhas, Enke foi titular durante toda temporada 2004/05 e, mesmo sem títulos, teve a terceira defesa menos vazada da Bundesliga.

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Robert Enke e sua filha Lara (Foto: Reprodução/Martin Rose/Bongarts/Getty Images)

Na temporada seguinte, consagrou-se ídolo do clube e um dos maiores goleiros do Campeonato Alemão. A modesta 12ª posição do Hannover no meio da tabela não conseguiu apagar o brilho do jogador que, foi eleito o melhor da posição pela revista Kicker – a votação se dava por meio da participação dos próprios jogadores do campeonato.

Tudo parecia ir bem, mas em setembro de 2006, a situação mudou. Lara faleceu  após completar dois anos, com complicações cardíacas. E, cinco dias após o incidente, Enke estava em campo pelo Hannover. Ocupar-se com o futebol parecia ser seu apoio. Sem saber das condições clínicas do goleiro, os companheiros acreditavam que, estava lidando bem com a perda da filha e um exemplo de superação, assim, justamente nessa época, o goleiro voltou a aparecer nas convocações da seleção.

Novos Momentos

Na temporada 2006/07 jogou todas as partidas da Bundesliga e foi nome constante nas listas da seleção. Além disso, na temporada 2007/08, novamente disputou todas as partidas, dessa vez, como capitão e, levou o Hannover à 8ª posição do campeonato – a melhor campanha do clube em 40 anos. Assim, recebeu propostas de grandes clubes, incluindo o Bayern de Munique, mas preferiu manter-se em Hannover, no qual havia encontrado seu senso de segurança.

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Enke atuando pelo Hannover (Foto: Reprodução/Trivela)

Ainda no final da temporada, Robert Enke disputou a Euro 2008 e teve uma bela atitude de empatia. Quando descobriu que seu concorrente Hildebrand não poderia ir à fase final do torneio, ligou para o goleiro com o intuito de motivá-lo na sequência da carreira. Antes disso, Enke já havia tido uma atitude parecida, quando ligou para Sven  Ulreich, um jovem de 19 anos que, havia acabado de iniciar pelo Stuttgart e teve uma falha durante uma partida contra o Leverkusen.

Reviravolta

No início de 2009, Enke estava em um excelente momento na Bundesliga. Ao final da temporada, novamente ganhou o prêmio de melhor goleiro, da revista Kicker e, conseguiu manter sua titularidade na seleção, mesmo com a forte concorrência de outros ótimos goleiros. Somado ao ótimo período no futebol, Robert e Teresa decidiram adotar uma criança. A família vivia num sítio, onde convivia com animais resgatados e participavam de ações conjuntas à ONGs de direitos animais.

No entanto, a depressão não precisa necessariamente de gatilhos para acontecer e voltou inesperadamente. Naquela altura, Enke precisava lidar com a pressão de ser um ótimo jogador e pai e, esconder a dor era outro ponto que dificultava as coisas. O goleiro não queria parecer fraco ou correr o risco de perder a guarda da criança que havia acabado de adotar.

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Tudo parecia ir bem, mas a depressão ia consumindo Enke aos poucos (Foto: Reprodução/Trivela)

Robert manteve os tratamentos psicológicos, mas não aceitou a internação. Afinal, tinha receio de que o tempo fora de campo poderia prejudicar suas chances de ir à Copa. Além disso, pensando paralelamente às condições de Sebastian Deisler – que precisou abandonar a carreira por sua saúde mental -, teve muito medo de viver a mesma situação e preferiu esconder dos companheiros de clube.

A confiança do jogador foi minando ao londo de 2009. Quando perdeu sua titularidade na seleção devido a uma infecção bacteriana, ficou no banco e acabou dispensado. Após esse episódio que, utilizou também para encobrir sua luta contra a depressão, ficou afastado dos campos durante um mês, o que fez com que Enke ficasse seis rodadas dora da Bundes. No entanto, nesses jogos, Florian Fromlowitz se destacou e teve sua foto colocada nos vestiário no lugar da foto de Robert. Assim, o goleiro sentiu a pressão de ter que dar a volta por cima e, passou a não se sentir como parte de tudo.

Adeus, Robert Enke

Após recuperar-se da infecção, Enke retomou suas atuações no Hannover, na última semana de outubro de 2009. Na partida em questão, a equipe venceu o Colônia e alguns comportamentos do goleiro já se mostravam estranhos. No aquecimento, por exemplo, disse a seu reserva que em breve poderia voltar a atuar. Mais tarde, em 8 de novembro, Robert realizou sua última partida.

Frente a 49 mil pessoas, o Hannover empatou por 2 x 2, com o Hamburgo, na tarde de um domingo. Na biografia de Enke, o treinador de goleiros da seleção afirma ter sentido Robert fora da partida, já Teresa, relatou que, notou o marido olha fixamente ao céu, o que depois interpretou como uma despedida.

Na segunda-feira, Enke realizou treino leve e, depois, na companhia de Teresa e sua filha Leila, foi à uma exposição. A esposa enxergou a situação como uma melhora, além disso, seu psicólogo teve a mesma visão após conversar com o goleiro por uma telefonema naquela noite. Mas no dia seguinte, uma tragédia estava por vir. Enke não suportou a dor e se tornou mais uma vítima da depressão, o jogador acabou suicidando-se.

Impactos

No dia seguinte à tragédia, Teresa e o empresário de Robert participaram de uma coletiva de imprensa, na qual a esposa enfim revelou a depressão que, Enke carregou em silêncio. A mulher achou importante dizer que a doença não é uma fraqueza e que pode acometer qualquer um, além disso, reforçou que o amor não pode vencer tudo, porque para a melhora da depressão, as pessoas precisam de ajuda e tratamento.

Memorial feito pela torcida na frente do estádio do Hannover, em novembro de 2009, após a morte de Enke (Foto:Reprodução/REUTERS/Christian Charisius)

O funeral do jogador aconteceu dentro do Niedersachsenstadion, além dos companheiros, mais de 50 mil pessoas compareceram. A seleção da Alemanha adiou seus compromissos durante alguns dias. Quando o Hannover voltou a jogar pela Bundesliga, teve uma grande queda no desempenho e ficou 12 rodadas sem vencer. Nesse período, um psicólogo foi contratado para ajudar os jogadores que, passaram a ter que lidar com linha tênue entre vida e morte.

Por esse e outros motivos que, é tão importante que a psicologia atue lado a lado aos esportes, afinal, os atletas vivenciam muita pressão e precisam de suporte.

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Tributo em homenagem a Robert Enke, realizado pela equipe do Hannover, no final da temporada 2009/10 (Foto: Reprodução/Bongarts/Getty Images)

Quando o Hannover enfim conseguiu se recuperar na Bundesliga e, não foi rebaixado, os jogadores fizeram uma grande festa e um tributo relembrando o capitão Enke que, jamais foi esquecido. Na temporada seguinte, fizeram uma campanha histórica, que colocou o time na Liga Europa.

Fundação Robert Enke

Ainda em 2009, Teresa se mostrou uma mulher extremamente forte na tentativa de ressignificar a tragédia. Assim, decidiu criar a Fundação Robert Enke, com o objetivo de auxiliar pessoas com depressão. Além disso, a instituição também incluiu um braço destinado à crianças com problemas cardíacos, como os da falecida filha Lara. Para tal, teve apoio da DFB, da DFL e do Hannover. Mais tarde, Teresa percebeu que também precisava de ajuda para lidar com a perda do marido e foi encaminhada para fazer tratamento psicológico numa clínica.

Quando pôde retomar a fundação, Teresa deu uma entrevista em que declarou: “Nossa missão é fazer as pessoas entenderem que a depressão não é sobre fraqueza ou falta de força de vontade. É uma doença potencialmente fatal, como o câncer, que pode ser superada se você procurar tratamento. Sempre há uma chance de voltar. Robbi conseguiu duas vezes, para se tornar o titular da seleção. A maior parte das pessoas sobrevivem. Você precisa se manter trabalhando para manter a mente limpa, mas pode conseguir. Quero assegurar que esses que sofrem ou que estão perto de sofrer sejam ouvidos. Se você falar sobre essa doença, as pessoas se sentem menos sozinhas e são melhor compreendidas por seus familiares, por seus amigos. Queremos aguçar seus sentidos, fazê-los sentir que seguem em frente. E também tornar as pessoas ao redor mais empáticas”.

Teresa e a Fundação Robert Enke (Foto: Reprodução/Trivela)

A fundação vai além do apoio social, criando também um ambiente aberto para discussão sobre saúde mental. Com o conhecimento sobre o assunto, a tolerância e empatia se fazem presentes e o apoio a alguém que possui depressão pode fazer toda diferença. Outros grandes nomes do futebol como Andrés Iniesta, Buffon, Danny Rose e André Gomes expuseram suas questões, sem medo dos julgamento público.

A instituição também entende a importância da conscientização desde cedo, dessa forma, desenvolve um trabalho em escolas e fornece um aplicativo sobre a depressão. Juntamente a isso, possui um espaço destinado a auxiliar e encaminhar crianças com problemas cardíacos, encaminhando-as a tratamentos adequados.

O legado de Enke

O legado de Robert Enke não está só dentro de seus feitos nas quatro linhas. O jogador mostrou a importância de se colocar a saúde mental como prioridade, para que os esportistas se cuidem cada vez mais. Além disso, a consciência por parte da torcida é fundamental, para que os jogadores não sejam vistos como super-heróis, afinal, são humanos como qualquer outra pessoa, possuem sentimentos e emoções que, precisam e devem ser expostos.

As dores da morte do jogador são impossíveis de medir, mas a partir dessa tragédia, uma rede de ajuda e conscientização sobre a doença que pode levar ao extremo foi criada. Agora, dez anos após o triste fim da história de Enke, existe a possibilidade de diálogo e espaço para debate, todos que vivem a mesma situação e/ou outras questões que envolver a saúde mental, têm a chance de um novo caminho.

10 anos da morte de Robert Enke (Foto: Reprodução/Trivela)

Para suporte, procure auxílio no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de sua cidade, ou na Unidade Básica de Saúde mais próxima. Outra opção é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza apoio emocional e medidas preventivas ao suicídio, por meio de ligação gratuita no número 188, ou pelos canais digitais: o site oficial, email e Skype. Além disso, o Ministério da Saúde possui uma página de orientação.

Foto Destaque: Reprodução/Trivela

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Emanuelly Cardoso
Emanuelly Cardoso
Emanuelly Cardoso, 18 anos. Estudante de jornalismo, apaixonada pelo mundo da comunicação. Gosto de levar a vida com alegria e leveza. Sempre tive interesse por esportes, cultura e questões sociais. O futebol foi o tema que meu coração escolheu para falar sobre meus interesses e dar voz ao que me conecta com o universo.

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