Regista: a primeira engrenagem criativa do futebol

Estilo de jogo posicional é algo que está cada vez mais defasado no futebol moderno. Jogadores não costumam guardar posição. Muitos são polivalentes, trocam de posição durante o jogo como estratégia e por aí vai. Mas existe uma grande diferença entre POSIÇÃO e FUNÇÃO. No basquete, por exemplo, os jogadores têm função, uma vez que não ficam parados ocupando espaços. Ainda há no futebol muita posicionalidade. Mas, no geral, a função importa mais. E a coluna Dicionário do Futebol vem falar sobre a função de REGISTA. Nunca ouviu falar? Fica tranquilo! O dicionário explica!

O que é a função regista?

De maneira simples, o regista é a função que opera entre o sistema defensivo e o meio-campo. De maneira mais profunda, se localiza na faixa de campo onde, no Brasil, geralmente, fica o primeiro volante. Este meio-campista aparenta ter uma função defensiva. Mas, pelo contrário, sua principal função é usar o espaço e o tempo com a bola no pé para ditar o ritmo de jogo. Assim, orquestra o time como um todo, fazendo a transição, com qualidade, da defesa ao ataque.

Principais características de um regista

  • Apurada técnica
  • Notável criatividade
  • Dinamismo
  • Raciocínio rápido
  • Exímia qualidade de passe (curto e longo)
  • Astuto controle de bola
  • Poder de decisão
  • Inteligência tática
  • Ritmo
  • Leitura de jogo
  • Organizar a construção de jogadas

Os registas são frequentemente conhecidos pela sua visão, técnica e passes. Muitos também são conhecidos por sua capacidade de mudar o jogo ou fornecer passes longos que selecionam jogadores rápidos no ataque. Bem como sua habilidade de atacar de longe (um diferencial). Embora vários registas não sejam conhecidos por suas habilidades defensivas, virou comum alguns fazerem essas funções, sendo um extra.

A origem do regista

Se você analisou atentamente as iniciais das principais características de um regista, certamente notou um nome que ditou a função de regista no futebol: ANDREA PIRLO. Mas antes de falarmos deste típico regista formado no calcio, vamos conhecer outros atletas que, no passado, tiveram essa função e até sua origem. Natural da Itália, o regista foi desenvolvido taticamente por Vittorio Pozzo, que colocou um meia-central (Luisito Monti) na posição de zagueiro, para melhorar a qualidade na saída de bola.

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A consciência tática de um regista

Os primeiros sinais táticos de um jogador com as responsabilidades de um regista surgiram no Método Pozzo no início dos anos 20. Pozzo treinou a Seleção Italiana na década de 1930. Ajustou uma formação tática à equipe que definiu uma era, sendo bicampeões mundiais (1934 e 1938). O comandante da Azzurra passou um tempo na Inglaterra estudando e trabalhando. Foi quando ficou admirado com um antigo zagueiro/meia inglês: Charlie Roberts, campeão inglês (1907–08 e 1910–11) e da FA Cup (1908–09) com o Manchester United.

Pozzo desejava que seu zagueiro, mais do que a maioria na época, ditasse o ritmo do jogo. Neste ponto, adaptou o 2-3-5 à sua maneira. Assim, removeu um terceiro defensor e impôs um meia de distribuição de jogo. Roberts jogava como um primeiro volante, quase que como um terceiro zagueiro, e saia para o jogo como um típico regista. Mas sem essa nomenclatura e talvez até sem essa noção tática. Roberts foi extremamente importante para o desenvolvimento do United da época. Um meia-central forte, habilidoso, rápido e que gostava de sair jogando e armar o time desde a defesa até o ataque.

O Método Pozzo

Assim, Pozzo adaptou Luis Monti a essa função. O “futuro regista” havia jogado à final da Copa do Mundo de 1930 com a Seleção Argentina, que perdeu para o Uruguai. Mas, com descendência italiana, foi chamado por Pozzo para ser seu regista. Dessa forma, nasceu o Método Pozzo, que adaptou o 2-3-5 ao sistema 2-3-2-3 (com a primeira linha de três com um regista e dois laterais). Monti estava com 33 anos, acima do peso e sem ritmo, mas era exatamente o que Pozzo queria.

O técnico idealizava um jogador que tivesse dinamismo e não necessariamente velocidade, mas claramente uma visão de jogo apurada. A partir deste momento, no Método Pozzo, as funções do regista não eram defensivas, mas, sim, criativas. Com isso, não só tinha a tarefa de ditar o ritmo do jogo com a posse de bola. Como também de iniciar as jogadas de ataque após recuperar a bola ou recebê-la após recuperada.

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As exceções

Registas não estão necessariamente restritos a uma única posição. Muitos armadores, falando especificamente de meias ofensivos do futebol moderno, desempenham uma combinação dessas diferentes funções de ataque. Geralmente operam em uma posição livre. Alguns “não-registas” voltam até quase o campo de defesa para exercer a função de criadores de jogo. Dessa forma, têm a liberdade de alternar entre papéis criativos ofensivos e defensivos. Assim, constroem jogadas, controlam o ritmo do time e não necessariamente guardam uma posição dita defensiva, como Zidane, Riquelme e Luka Modrić.

Regista x Box to Box

Este tipo de jogador não deve ser confundido com o meio-campista BOX TO BOX! Ambos se assemelham em algumas funções, como bons passes, técnica, visão de jogo e, às vezes, construção de jogadas. Mas o papel de um box to box é mais a capacidade de defender e atacar com a mesma qualidade. Posteriormente, criar oportunidades de gol após recuperar a posse de bola. Este tipo de atleta costuma marcar mais gols e roubar mais bolas que um regista. Este que costuma dar mais assistências. Começa jogadas que nem sempre são o último passe para o gol, mas o início de tudo.

Regista x Cabeça de Área

Embora ocupem o mesmo espaço em campo, regista x cabeça de área têm estilos e funções completamente diferentes. Enquanto os registas flutuam, os volantes ficam mais estagnados. Onde os registas orquestram, os cabeças de área se alocam. O primeiro é um criador, o último, destruidor. Cresceu a aceitação de que as duas funções poderiam cooperar na base do meio-campo.

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Fora da realidade brasileira

Praticamente desconhecido na realidade brasileira, o regista é um papel cada vez mais raro. Geralmente é um jogador coberto por algum primeiro volante com alta capacidade de desarme, marcação e cobertura. Assim, usa sua visão de jogo para armar com maior tranquilidade as jogadas, com lançamentos e passes precisos, atuando na frente da zaga.

No Brasil, é típico e de agrado popular um cabeça de área aliado a um box to box. Mas há exceções. Gérson, o Canhotinha de Ouro, atuou como regista na Copa do Mundo de 1970. Outro ótimo exemplo é Paulo Roberto Falcão, que se tornou o Rei de Roma atuando pelo clube da capital nessa função. Hernanes chegou a ocupar o papel de regista em algum tempo. Assim como também fez o box to box. Mas tem preferência por ser um meia ofensivo.

Âmbito europeu

O primeiro grande regista europeu foi o espanhol Luis Suárez, lenda no Barcelona e na Internazionale nas décadas de 1950 e 60. Mas Andrea Pirlo modelou o conceito de regista. Xabi Alonso, Gündoğan, Carrick, Scholes, Pjanić, Thiago Alcántara, Julian Weigl e Verratti são mais alguns exemplos de registas. Mas ninguém fez a função como Pirlo. Ele é o rosto da função de regista.

O ex-jogador definiu e encarnou o papel durante a maior parte de uma década. Assim como Makélelé definiu a posição de primeiro volante. Grande exemplo disso é o Milan, de Ancelotti, e a Seleção Italiana, de Marcelo Lippi. Estas equipes tinham Gennaro Gattuso como um compensador na marcação para dar liberdade a Pirlo de iniciar as jogadas. Isso deu origem a uma Champions League e uma Copa do Mundo.

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A tática na regência da orquestra

Do ponto de vista tático, o sucesso de um regista depende da construção de uma equipe ao seu redor. Mas os parceiros de time devem estar atentos e, de fato, serão instruídos a lhe dar a bola em todas as oportunidades. Assim, o regista permanecerá no pivô de cada jogada de ataque. Em essência, o regista se torna o ponto focal, bem como o cérebro da equipe.

Conclusão

A entrada do regista decorre do desejo crescente do futebol moderno de controlar a posse de bola e ditar o ritmo dos jogos. Sem eles, não há um jogador específico para tirar a bola da defesa e levar ao ataque. A visão de jogo de um regista permite que seu futebol puro e simples seja mais atraente do que bolas recuadas. Assim, meias habilidosos não precisam regressar para armar o jogo. Acontece, mas atrasa a construção das jogadas. Esta tática é contrária à crença de se manter uma boa e consistente retenção de bola. Embora nem todas as equipes ao redor do mundo usem registas, houve uma evolução definitiva no papel do armador.

Jogadores como Toni Kroos, Marco Reus, Mario Götze e Juan Mata são diferentes exemplos. Típicos jogadores modernos (não registas) que podem jogar em qualquer lugar no meio-campo. Como o futebol avançou, alguns craques ficaram numa memória distante. Podemos ter visto o fim do tradicional construtor de jogadas na aposentadoria de Andrea Pirlo. Seria o fim do regista?

Foto destaque: Reprodução/ABC

Eric Filardi
Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia. Sou Eric Filardi, paulistano de 27 anos, criado em Taboão da Serra, jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo e apaixonado por futebol. Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, Peixe, Palestra e Timão. Sou da Colina, Glorioso, Flu e Mengão. Sou brasileiro, hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 x 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões. Sou Clássico das Multidões. Sou Sul, Nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, Raposa, Bavi e Grenal. Sou Ásia e África. Sou Barça e Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas que o estádio incendeia: sou Futebol na Veia.
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