Já se passou mais de um ano de Pandemia no Brasil e a cada dia mais transformações ocorrem em diversas profissões. O Jornalismo Esportivo, no Brasil e no mundo, também foi consideravelmente afetado, por isso é possível dizer que foi “reinventado” (termo constantemente usado no período atual). O repórter Rafael Pio concedeu entrevista exclusiva e analisou essas mudanças.

As mudanças na reportagem de rádio

As raízes do Jornalismo Esportivo estão no rádio, que antes da invenção da TV era o principal meio por onde a população acompanhava os jogos em tempo real. Porém, com o passar do tempo a cobertura esportiva mudou, principalmente no futebol. A principal mudança é que antes a equipe era sempre obrigada a ir até o local do jogo para transmiti-lo, não importando a distância.

No entanto, essas viagens foram ficando cada vez mais caras e um maior número de ligas passou a ser televisionado, inclusive as que não pertencem à “elite” do esporte.  Com essas mudanças, colocou-se em prática o conhecido “Tubo”, onde o narrador descreve o jogo a partir do que a empresa geradora de imagens passa, para a transmissão de partidas fora de casa e até de algumas dentro da própria cidade. 

Na Pandemia, isso mudou ainda mais, pois agora apenas a detentora dos direitos de imagem pode estar no estádio e com um número muito reduzido de funcionários. Assim, não sendo mais permitido toda uma equipe em um estúdio fechado para transmitir um jogo. Com isso, muitos radialistas passaram a fazer a transmissão de dentro de suas casas, usando as imagens da TV. 

No caso da Rádio CBN, há um rodízio de pessoal, com o limite de pessoas condizente com a fase de restrição do período. Assim, desde maio, apenas o narrador e o âncora ficam no estúdio, para  não comprometer a transmissão caso alguma das conexões com o restante da equipe caia. Ademais, a checagem de informação também sofreu grande mudança. Isso porque não há em casa a agilidade de obtenção de informações como existe em uma redação.

“Estar em casa é uma coisa muito louca, o ouvinte não imagina. Você está falando do trânsito, ele jamais vai imaginar que você está dentro do quarto” 

O primeiro jogo em que Pio trabalhou dentro de casa foi o Dérbi Campineiro pelo Campeonato Paulista de 2020. Lembrando que foi o primeiro jogo a ocorrer com portões fechados. Aliás, a Federação quase adiou a partida, mas na disputa de forças entre as diretorias (a do Guarani queria o jogo pois jogava em casa e estava em um melhor momento no campeonato, ao contrário da Ponte Preta), decidiram que o jogo ocorreria. Porém com portões fechados e apenas a emissora detentora dos Direitos de Transmissão poderia estar no estádio.

Além disso, para o repórter de rádio, há outra mudança extremamente impactante, a forma como o jogo era visto por eles. Isso porque, antes da Pandemia, estavam acostumados a verem o jogo atrás do gol, tendo uma visão completamente diferente e particular do que acontecia em campo. 

Hoje em dia, através das transmissões esportivas, os telespectadores ganharam a chance de ouvir os técnicos, jogadores e árbitros, com o silêncio no estádio, o que é inédito. Contudo, esta visão que era diferencial no Rádio, não existe mais, e os repórteres tiveram que se acostumar a terem a mesma visão que o torcedor. Dessa forma, o repórter não tem a liberdade de correr atrás das notícias, pois elas chegam prontas até ele, causando uma enorme diferença na profissão.

“Atrás você vê exatamente a formação do time. Então você vê muito bem como o time está distribuído, se tem espaço na esquerda, na direita, no meio. Você vê a formação de uma forma completamente diferente, eu acostumei a ver isso… Ouvir a orientação de goleiro, de zagueiro.”

https://www.youtube.com/watch?v=nFg77X4lmew&t=1s

Futebol como conscientização

Para o telespectador, às vezes não faz sentido o fato de o apresentador estar de máscara, mesmo sozinho no estúdio, ou o jogador entrar no campo de máscara para a execução do hino nacional. Mesmo que feito testes para Covid e mesmo que em alguns minutos vá estar em constante contato com outros 20 jogadores.

Entretanto é preciso entender que uma das principais funções do Esporte e do Jornalismo também é conscientizar, dar o exemplo para a população. Por isso, sempre que possível as pessoas envolvidas com o esporte ficam de máscara. Sendo necessário lembrar também que houve diversas crises em clubes, mesmo com o protocolo presente no futebol, que é rígido e as ações publicitárias dos clubes e federações envolvidas sempre o reforçam. 

Como deve ser daqui para frente, Pio?

Segundo Rafael, os jogos fora de casa deverão seguir sendo por “Tubo”. Isso porque, pensando no custo que há em deslocar funcionários para o estádio em dias de jogos, os comandantes das emissoras devem optar por fazer a transmissão remota sempre que possível. A exceção disso deve ser os jogos na própria cidade e em jogos de grande importância fora de casa. Pois estas partidas afetam diretamente na credibilidade do veículo de comunicação.

Carreira da Rafael Pio

Começou em 2005 na CBN como estagiário na parte do esporte, que era terceirizada na época pelo grupo. Rafael era comandado por Amorim e em 2006 recebeu o convite para fazer parte da produção. Porém, logo estreou ao vivo, ganhando ao ganhar oportunidade para cobrir a ausência de um dos repórteres.

Em 2007, agora formado como Jornalista, Pio foi para a Rádio Central como produtor. Mas a oportunidade surgiu novamente, ao ter que cobrir Roberto Marcondes, então setorista do Guarani pelo veículo. Assim, estreou no programa Central Esportiva e a rádio foi o deixando na função de setorista até se tornar fixo. Dessa forma, cobriu o Bugre na Série C em 2007 e em 2008, viajando pelas mais diversas cidades, como conta o repórter:

“Fiz um jogo em Caxias do Sul, numa sexta-feira às 21h45, estava 1ºC a temperatura e estava chovendo muito. Na época (diferente de hoje) o repórter da Rádio não precisava ficar atrás do gol, podia ficar na lateral ali próximo aos bancos de reserva. Eu lembro que o Doutor Roberto Nishimura, médico da Ponte, me viu embaixo da chuva e falou pra entrar debaixo do Banco. Fiz um jogo no Banco de Reservas, e aí aquela baita preocupação de não cornetar.”

Em seguida, após um ano na Rádio Brasil em projeto encabeçado por Claudinei Corsi, retornou à CBN. Contudo, não na área esportiva, porque a rádio na época não estava fazendo transmissões de jogos. Esta fase da carreira do repórter durou até 2012, quando o Guarani o chamou Assessor de Imprensa. Na época, o clube tinha Marcelo Mingone com presidente. 

“Foi numa época maravilhosa, o Guarani foi para a final do Campeonato Paulista, time de Fabinho, Vadão, Wellington Monteiro, então era uma delícia e fácil trabalhar.”

Quando o mandato de Mingone acabou, Pio saiu também e foi trabalhar como Coordenador de Comunicação em uma empresa de Agronegócios, passando dois anos nesta função diferente. Foi aí que voltou pela terceira vez, a dois anos e meio, à Rádio CBN, onde está trabalhando atualmente. Porém, agora como funcionário da BTN (agência de trânsito) em serviço terceirizado à Rádio para os boletins de trânsito. Simultaneamente, Rafael pode fazer o futebol da CBN, como repórter, e recentemente retornou a fazer parte do programa CBN Esportes.

Foto: Divulgação/Facebook/Rafael Pio

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Lucas Henrique Santos Noronha
Escolhi o jornalismo pelo enorme gosto por esportes e por sempre assistir programas esportivos em geral, além de um costume meu de criticar grandes problemas do nosso mundo atual. Eu estou no 1o semestre do curso, minha experiência com textos foi uma página que criei uma vez (sobre futebol) mas que por força de obrigações e por ser só eu cuidando não foi pra frente. Meu objetivo é crescer na área do Jornalismo ( a maior ambição é o esportivo) e acredito que a partir de agora, consegui um grande empurrão pra ganhar experiência na área (aliás trabalhar em sites assim sempre foi um objetivo meu). Sou uma pessoa extremamente paciente, acho que minha principal virtude.

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