Que sirva como lição: nosso ídolo é Pelé

A terceira geração dos Meninos da Vila marcou seu nome na história. Em 2002, o time desacreditado que se classificou em último para o mata-mata era comandado por Emerson Leão e chegou à final para enfrentar o Corinthians. No Morumbi lotado, no dia 15 de dezembro de 2002, Fábio Costa fechou o gol, Alex foi seguro, Diego mal jogou – mas isso não diminuiu em nada sua contribuição para o título – , Elano marcou o segundo gol e Robinho acabou com o jogo, marcando o primeiro e dando assistência para os outros dois.

No ano seguinte, após 19 anos longe da Libertadores, o Peixe chegou até a final, mas acabou sendo derrotado pelo Boca Juniors. No Brasileirão, o Santos foi bem, mas não alcançou o Cruzeiro do gênio Alex e amargou o vice-campeonato.

Após o bicampeonato nacional, Robinho foi para o Real Madrid, Alex para o Chelsea, Renato para o Sevilla e Diego para o Porto. No ano seguinte, Elano foi para o Shaktar Donetsk. Estava desmanchado o time santista que encantou o Brasil. Em contrapartida, o legado era incontestável: os Meninos da Vila recolocaram o Santos no seu devido lugar.

Como todo ídolo que faz história em um clube, Robinho e companhia prometeram voltar. Mas a volta desses jogadores nada tinha a ver com gratidão e reconhecimento. A dupla favorita da diretoria em todas as janelas de transferência era Robinho e Diego. Mas sempre que especulados na Vila Belmiro, altas cifras pedidas pelos atletas e seus representantes dificultavam o acerto.

Robinho voltou por amor em 2010 e 2014. Por amor, leiam-se salários variando entre R$ 600 e R$ 700 mil mensais. Em uma dessas ocasiões, inclusive, o Santos captou R$ 8 milhões em empréstimo junto ao BMG para pagar o elenco e segurar Robinho, insatisfeito com a crise financeira do clube. E em 2016, a maior prova de amor ao Santos Futebol Clube: o teto salarial do clube alvinegro é de R$ 200 mil mensais, mas Modesto Roma Júnior ofereceu R$ 600 mil, 200% acima do estabelecido. Robinho optou por defender as cores de outro alvinegro, o Atlético-MG. O motivo? Salário de R$ 800 mil por mês. Justificativa plausível para um atleta que não tinha a carreira consolidada. De fato, mais 200 mil mensais mudariam a vida financeira de Robinho.

Diego, por sua vez, sequer cogitou voltar ao Santos. O meia, que deixou a Vila em 2004 para atuar no Porto, nunca abriu mão de seu exorbitante salário para retornar ao clube que o revelou. O alvinegro praiano desistiu do jogador, mas outros clubes passaram a cobiçá-lo. Diego foi pretendido por clubes como Corinthians, Grêmio e Flamengo, era o sonho proibido dos dirigentes. Sempre que sondado, salários desproporcionais à realidade brasileira, em torno de R$ 850 mil mensais, eram pedidos. Mas na atual janela, Diego rescindiu com o Fenerbahce, pediu R$ 5 milhões em luvas e acertou com o Rubro Negro carioca, que sonhava com o jogador desde 2012. Seu salário será de R$ 600 mil por mês.

Para terminar a lista dos ídolos santistas que amam o bolso e não a camisa, o zagueiro Alex não poderia ficar de fora. Sem clube desde que seu contrato com o Milan chegou ao fim, no dia 30 de junho de 2016, o ‘’canhão da Vila’’, como era chamado, passou a negociar com o Santos. No Milan, Alex recebia cerca de R$ 700 mil por mês, mas a diretoria santista ofereceu R$ 300 mil, acima do teto do clube. O zagueiro aceitou reduzir seu salário. Tudo caminhava para o final feliz. Eis que seu empresário, Giuliano Bertolucci, passou a pedir luvas pela assinatura de contrato e comissão pela concretização do negócio. Claro, Alex e seu empresário não poderiam ficar de mãos abanando. Ambos teriam que levar vantagem em algo. Se não é em salário, que nos paguem em luvas, pensaria a dupla. A negociação travou e dificilmente Alex voltará ao Santos.

Que o amor que Alex, Diego e Robinho têm pelo Santos sirva de lição. Jogadores que valorizam o bolso, em detrimento da história que possuem com um clube, não são ídolos.

Ídolo é Juninho Pernambucano, que aos 38 anos poderia encerrar a carreira, mas voltou, em 2013, para ajudar o Vasco e abriu mão do salário.“Não existe salário, premiações por metas ou demais bonificações. É apenas um contrato e acordamos que o Vasco vai pagar o que ficou para trás assim que respirar financeiramente. É uma oportunidade importante na carreira. Muito melhor do que encerrar em um lugar no qual não temos história. Às vezes, tomamos decisões erradas. Mas creio que tive a decisão de sair e voltei agora para parar de jogar. Aposentar-me aqui de uma maneira melhor seria o ideal’’, relatou o ídolo do Cruz Maltino.

Ídolo é Pelé, o maior de todos os tempos, o Rei do Futebol, que vestiu a camisa do Santos por 18 anos, conquistou 26 títulos, mas nunca foi sequer aproveitado em campanhas publicitárias do clube.

Quando jornalistas perguntarem ‘’o que falta para os nossos jogadores transformarem-se em ídolos em seus clubes?’’, a resposta mais cabível é ‘’gratidão e vergonha na cara’’.

André Siqueira Cardoso

Sobre André Siqueira Cardoso

André Siqueira Cardoso já escreveu 313 posts nesse site..

Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

BetWarrior


Poliesportiva


André Siqueira Cardoso
André Siqueira Cardoso
Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

    Artigos Relacionados

    Topo