Internacional

Provavelmente, estes são os dois elencos que mais trouxeram alegrias ao torcedor colorado. Para muitos, talvez um destes seja o melhor da história do Sport Club Internacional. Quatro anos o separam. E desde então, ambos são lembrados como símbolos de raça, técnica, concentração e bom futebol desempenhado. Sendo assim, qual foi melhor? O Internacional de 2006 ou Internacional de 2010?

INTERNACIONAL 2006

Com toda certeza, 2006 não começou bem. Após na temporada anterior ter perdido o questionável título do Brasileirão de 2005 para o Corinthians e, posteriormente, ver seu maior rival, Grêmio, vencer o Campeonato Gaúcho dentro do Beira-Rio, o Internacional precisava provar o peso de sua camisa.

O início de um ano mágico

O Colorado iniciou sua campanha na Copa Libertadores da América fazendo parte do Grupo 6, juntamente com Nacional (URU), Maracaibo (VEN) e Pumas (MEX). O clube precisava vencer e convencer. E, desta maneira, fez. Classificou-se no Grupo em 1º, com 14 pontos, e a 2ª melhor campanha da competição, apenas atrás do Vélez Sarsfield (ARG).

Nas oitavas de final, os porto-alegrenses reencontraram o Nacional, seu antigo carrasco, que já havia lhe tirado uma Libertadores quando venceu a final em 1980, ainda na Era Falcão. Sem perder para os uruguaios na fase de grupos, o Colorado repetiu a dose e aplicou um 2 x 1 de respeito no Uruguai. Em casa, manteve o 0 x 0 e se classificou sem muito sufoco para as quartas de final.

Outro clube fortíssimo aparecia no caminho do Inter para atrapalhar seu sonho. Desta vez, a LDU, famosa por assombrar os brasileiros na altitude, era a nova candidata a tirar a vaga dos gaúchos. Sendo assim, o time de vermelho e branco conheceu sua primeira derrota na competição. Mas o Rolo Compressor contava com a força do Beira-Rio para reverter o placar de 2 x 1. Desse modo, Rentería e o garoto Rafael Sóbis sufocaram os equatorianos e arrancaram um placar de 2 x 0.

É provável que, nas semifinais da competição naquele ano, o Internacional talvez tenha pego o adversário menos forte comparado aos anteriores. Em contrapartida, os paraguaios do Libertad vinham com muita competitividade. Afinal, tinham passado em 1º no seu Grupo na frente do multicampeão River Plate. No jogo de ida, no Paraguai, empate sem gols. Na volta, Alex e o eterno capitão Fernandão foram os protagonistas que levaram o Inter a vencer pelo placar de 2 x 0. O Colorado, após 26 anos, estava em uma final de Libertadores novamente.

“O Inter rasga a camisa do São Paulo e pisa em cima dela”…

Os são-paulinos que me desculpem. Mas a narração de Pedro Ernesto Denardin é histórica. Todo Colorado tem na sua memória essa frase acompanhada de seus pelos do corpo arrepiados quando lembram daquela noite. Um menino, nascido em Erechim, interior do Rio Grande do Sul, com apenas 21 anos, colocou um tricampeão mundial no bolso. Rafael Sóbis marcou duas vezes em pleno Morumbi lotado. O primeiro com um gingado “pra lá e pra cá“, desnorteou Fabão e bateu no cantinho, aos oito minutos da segunda etapa.

Surpreendentemente, exatos oito minutos após o primeiro tento, o Guri de Erechim balançava mais uma vez as redes paulistas. Foi após o rebote da cabeçada de Fernandão, que o camisa 11 colorado estufou o gol adversário novamente, sem chances para o grande goleiro Rogério Ceni. Embora, o time de São Paulo ainda diminuísse o placar, os 2 x 1 conquistados fora de casa aproximava o Internacional cada vez mais do sonho inédito.

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A América vermelha pela primeira vez

Nervosos, e não era de menos, afinal os torcedores colorados estavam enfrentando o atual Campeão do Mundo. Apesar do placar a favor, o jogo foi duríssimo. Aos 29 minutos da primeira etapa, Jorge Wagner alçou a bola na área, e Rogério Ceni falhou grotescamente. Na esperteza, Fabiano Eller deu um toquinho na bola, e Fernandão empurrou para o fundo das redes, colocando o Internacional à frente do placar na finalíssima.

O segundo tempo começou com o marcador favorável ao Inter. Entretanto, logo aos cinco minutos, o mesmo Fabão, que havia sido entortado por Rafael Sóbis no primeiro jogo, empatou para os são-paulinos após Lugano escorar de cabeça. Sem dúvida, Fernandão era peça fundamental para o elenco colorado. Assim sendo, o camisa 9, aos 20 minutos, cabeceou livre, e Rogério Ceni conseguiu fazer a defesa. No rebote, F9 cruzou para o iluminado Tinga abrir novamente a vantagem para o Internacional. O meio-campista, na comemoração, acabou levantando a camisa, e com isso levou o segundo amarelo e foi expulso pelo árbitro uruguaio, Jorge Larrionda.

Mesmo com um a menos, a torcida nervosa não acreditava no que estava vendo diante de seus olhos. Nunca antes, o Internacional esteve tão perto de um título da Libertadores como naquele momento. Mas como nem tudo são flores. O tricampeão mundial não iria deixar a festa acontecer fácil assim. Com vantagem numérica, o São Paulo foi para cima. Júnior arriscou de longe, e Clemer soltou a bola nos pés de Lenílson, que só teve o trabalho de empurrar para o fundo das redes coloradas. Dessa maneira, os últimos minutos foram todos da equipe paulista. O muro colorado formado pelo trio Índio, Fabiano Eller e Bolívar teve que se segurar. E assim fizeram. O Internacional, pela primeira vez, havia colorido a América de vermelho.

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A magia do uniforme branco começava a mostrar sua força

Campeão da Libertadores pela primeira vez, o Internacional iria, consequentemente, disputar o Mundial de Clubes. Junto do Colorado, estavam os campeões de cada continente do mundo: o Jeonbuk Motors (COR), Al Ahly (EGI), América (MEX), Auckland City (AUS) e o tão temido Barcelona (ESP), comandado por Ronaldinho Gaúcho.

Pelo regulamento, o Colorado já estava classificado para as semifinais da competição. Sua estreia no campeonato mundial foi contra os egípcios Al Ahly. E a partida de fácil não teve nada. Em bola sobrada, o menino de apenas 17 anos, Alexandre Pato, bateu com categoria no cantinho do goleiro e abriu o placar para o Inter aos 20 minutos de partida.

Em contrapartida, no início do segundo tempo, o brasileiro Fábio empatou para o time da cidade do Cairo. Mas, novamente, um menino colocaria o Colorado à frente no placar. Luiz Adriano, de 19 anos, fez o gol da vitória que firmou o Internacional na final do Mundial de Clubes. O que custa sonhar?

O céu é o limite, e o mundo é vermelho

De branco novamente, o Internacional buscava o que para muitos era impossível: vencer o tão poderoso Barcelona, de Ronaldinho Gaúcho, Deco, Iniesta e Puyol. Para muitos colorados, mas principalmente para o capitão Fernandão, o impossível era só questão de opinião. Sobretudo o Inter fez um jogo perfeito. Talvez o melhor de sua história. Ronaldinho anulado por Ceará, Eller e Índio dando o sangue, literalmente, na defesa. F9 se abstendo de sua principal característica no ataque para se doar no meio-campo. Iarley fazendo uma atuação de gala, digna de um camisa 10. Clemer defendendo tudo, até com os olhos.

Em outras palavras, o Colorado mostrava que dava para competir contra o grandiosíssimo Barcelona. Fernandão, por desgaste físico, acabou tendo que sair, dando lugar ao contestável Adriano Gabiru. Mas vocês lembram quando falei que o impossível era só uma questão de opinião? A torcida, com os nervos a flor da pele e sem a presença do seu principal jogador, viram de perto o milagre acontecer.

Índio, dentro da área defensiva, deu o famoso “bola para o mato que é jogo de campeonato”. Gabiru escorou de cabeça, que sobrou para Iarley. Foi aí que a vida de Puyol virou um inferno. O baixinho colorado balançou e desnorteou o zagueiro espanhol. E quando tudo levava a crer que Iarley tocaria na direita para Luiz Adriano, a genialidade mostrou como um craque pensa à frente de nós meros mortais. A bola tocada na esquerda, para o improvável e contestável Adriano Gabiru, colocou o Internacional no topo mais alto do mundo. Gol! “Vai Valdez, vai garotinho!” O Inter é Campeão do Mundo!

INTERNACIONAL 2010

Até 2010, o Colorado já havia conquistado Libertadores, Recopa, Sul-Americana, Copa Suruga Bank, e ainda queria mais. Entretanto, lembrando 2006, o ano não começou bem para o Clube do Povo. Em virtude de ter perdido a Copa do Brasil na temporada anterior, e posteriormente, ver de novo seu maior rival vencer o título do Campeonato Gaúcho, o Internacional demorou um pouco para se firmar.

Em busca do bi

Naquele ano, o Internacional ficou no Grupo 5 da competição. Seus adversários foram Deportivo Quito (EQU), Atlético Cerro (URU) e Emelec (EQU).  O Inter queria se recuperar do baque de ter perdido a final de uma Copa em casa. Em resumo, o Colorado classificou-se novamente em 1º lugar, com 12 pontos, três vitórias e três empates.

Nas oitavas de final, o Colorado enfrentou o Banfield, que vinha em ascensão na Argentina. Contra os hermanos, os gaúchos conheceram sua primeira derrota na competição. O placar de 3 x 1 na Argentina parecia ser o fim do time na competição logo cedo. Contudo, o Beira-Rio lotado não deixaria essa missão ser tão fácil assim. Alecsandro e Walter fizeram 2 x 0 e classificaram o time gaúcho. Mantendo, assim, o sonho do bicampeonato vivo.

A batalha de Quilmes

O então atual campeão da Libertadores, Estudiantes de La Plata, foi o adversário do Inter nas quartas de final daquela Copa. Inegavelmente, o adversário tinha um fortíssimo time comandado pela lenda Juan Sebastián Verón. Contudo, o Colorado conseguiu levar para a Argentina um placar favorável de 1 x 0. É provável que o jogo de volta tenha sido o mais difícil da competição. Tendo em vista que, logo aos 18 minutos da primeira etapa, os argentinos conseguiram igualar o resultado do primeiro jogo. Para complicar ainda mais, três minutos depois o placar aumentou para 2 x 0.

Em 21 minutos, o bom resultado feito em casa já tinha ido para o ralo. De tal forma que parecia tudo ter desandado. O Colorado bem que tentava, mas a bola brigava em não entrar. Mas o inesperado aconteceu. O jovem talismã Giuliano, de apenas 20 anos, no meio da fumaça no Estádio de Quilmes, recebeu um lindo passe de Andrezinho e, aos 43 minutos da etapa complementar, o garoto marcou para o Internacional. Um menino franzino, chorando de felicidade, não acreditava que havia acabado de colocar o Inter na semifinal da Libertadores da América.

O adversário é novamente o São Paulo

Após a final da Libertadores, Inter São Paulo se transformou em um grande clássico nacional. Os paulistas estavam com sede de revanche por 2006. Na partida de ida, o Colorado venceu dentro de sua casa por 1 x 0 o time são-paulino e tudo levava a crer que essa revanche ficaria para mais tarde. Todavia, o tricampeão mundial jogaria a partida de volta em sua casa, em um Morumbi lotado. E a missão de segurar o resultado seria complicada.

Contudo, no jogo de volta, logo aos 30 minutos, o arqueiro colorado, Renan, tentou sair pelo alto, mas falhou bisonhamente e fez a bola sobrar para o zagueiro Alex Silva apenas cabecear para o fundo da rede. Com o tento são-paulino, a soma dos placares indicava as penalidades. Foi quando, no início do segundo tempo, D'Alessandro teve uma falta a média distância para cobrar. Aos seis minutos, o argentino bateu na bola, que acabou desviando em Alecsandro e enganando o goleiro Rogério Ceni.

Com o placar em 1 x 1, não haveria mais chances de penalidades, e o Tricolor Paulista dependia de mais dois gols para se classificar. O time da casa correu atrás, e mais uma vez em uma falha de Renan, Ricardo Oliveira ficou cara a cara com o goleiro e só teve o trabalho de tocar na saída do arqueiro colorado. Entretanto, o time paulista não conseguiu fazer o terceiro gol. E com os mesmos resultados das quartas de final, o Internacional estava novamente em uma final de Libertadores da América.

Final contra representante do México

O Internacional chegava pela terceira vez em sua história a uma final de Libertadores. Já seu adversário era um estreante em finais da Copa. Além disso, o Chivas Guadalajara era um dos convidados pela Conmebol a participar da competição.

Com o primeiro jogo no México, o Inter mais uma vez apostou todas suas fichas no uniforme branco, mas dessa vez com meias vermelhas. E deu certo. Mesmo que no final do primeiro tempo, Bautista tenha aberto o placar para os mexicanos, o Colorado mostrou poder de reação. Na segunda etapa, Kléber tocou na cabeça de Giuliano, que cabeceou para o fundo da rede adversária. O time ainda conseguiu virar a partida apenas quatro minutos após marcar o primeiro. Em bonita jogada pelo alto, Bolívar, também de cabeça, sacramentou a vitória no primeiro jogo da final.

Mais uma finalíssima no Beira-Rio

Com o placar favorável para os donos da casa, o Inter estava muito próximo de se tornar bicampeão da Libertadores. Em contrapartida, os mexicanos não estavam para brincadeiras. Aos 42 minutos do primeiro tempo, o Chivas conseguiu novamente sair à frente do placar na finalíssima. Fabian fez 1 x 0 para o time de Guadalajara, com um belíssimo gol de voleio.

Contudo, os donos da casa tinham Rafael Sóbis no elenco, acostumado a decidir finais de campeonato. Desta vez mais experiente, o atacante só empurrou para o gol após mais uma assistência decisiva de Kléber na competição. Aos 30 minutos da etapa complementar, o imparável jovem de 21 anos, Leandro Damião, arrancou a partir do meio-campo e dali ninguém mais o segurava. Com uma bomba indefensável, o garoto virou a partida para o Clube do Povo.

O segundo tempo contou ainda com mais emoção. Giuliano não podia passar em branco. Em síntese, o menino passou no meio de dois mexicanos e deu um lindo toquinho de cobertura por cima do goleiro Luis Michel. Por certo, ali era o sepultamento do time visitante. No entanto, a equipe do México diminuiu o placar para 3 x 2 nos acréscimos, mas já tinha mais jeito. O Internacional é Bicampeão da Libertadores da América.

Expectativas que não foram superadas

O ano de 2010 mostrava-se perfeito. Bicampeão da Libertadores, o time de Celso Roth viajou até Abu Dhabi para participar do Mundial de Clubes. Em suma, os outros participantes da competição eram Seongnam (COR), Mazembe (CG), Pachuca (MEX), Hekari United (PNG), Al-Wahda (EAU) e o ótimo time da Internazionale (ITA).

Com o mesmo regulamento de 2006, o time já estava classificado para a semifinal, onde iria enfrentar o Campeão da Liga dos Campeões da África, Mazembe. Tinha tudo para ser um jogo tranquilo, mas o excesso de confiança do time colorado o fez perder diversas chances durante a partida. E como no futebol a bola pune, logo aos sete minutos do segundo tempo, Kabangu fez belo gol e abriu o placar para os congolenses.

Com o placar desfavorável, o Internacional continuou tendo boas chances, mas exagerando no preciosismo e parando nas ótimas defesas de Kidiaba. Aos 44 minutos da etapa complementar, Kaluyituka sacramentou a eliminação precoce do Inter na competição. Inegavelmente, é uma das maiores tristezas da história do Sport Club Internacional.

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Mas afinal: quem foi melhor?

Primeiramente, você pôde relembrar os melhores e os piores momentos nas temporadas do Internacional em 2006 e 2010. Devemos relembrar que o regulamento da Copa do Brasil indicava que times classificados para as competições continentais não poderiam participar do campeonato. Ou seja, em ambos os anos, o Colorado não participou da copa nacional.

Contextualizando os fatos, o Inter de 2006 disputou ao todo 72 jogos no ano. Obteve 43 vitórias, 18 empates e 11 derrotas. Marcou 118 gols e sofreu 60. Chegou ao final da temporada com um vice-campeonato gaúcho para o seu maior rival, um vice-campeonato do Brasileirão com 69 pontos, Copa Libertadores da América e Mundial de Clubes.

Já o elenco de 2010 jogou 76 partidas ao longo da temporada. Venceu 39, empatou 17 e perdeu outras 20 vezes. A equipe anotou ao todo 115 tentos contra 81 sofridos. Ao término do ano acabou também com um vice-campeonato para o Grêmio, 7ª posição do Brasileirão com 58 pontos, título da Copa Libertadores e eliminação precoce no Mundial de Clubes.

Portanto, os números já indicam quem manteve uma temporada mais regular ao longo do ano. Em segundo lugar, devemos levar em conta que, em 2010, o elenco bicampeão da Libertadores teve dois técnicos: Jorge Fossati e Celso Roth. Além da eliminação do Mundial pesar muito, o time de 2006 comandado por Abel Braga mostrava ser mais resguardado e ao mesmo tempo mais efetivo ofensivamente.

Mas vale ressaltar que, em 2010, a equipe foi conduzida com talvez a melhor temporada de Andrés D'Alessandro, eleito naquele ano o Melhor Jogador da América. Mas, chega de enrolar. Pelo histórico e pela análise no ponto de vista tático, técnico e psicológico, falo com propriedade que o time de 2006 é superior ao elenco do Internacional em 2010.

Foto destaque: Reprodução/Ken Shimizu/AFP

Andrei Severo
Sou um jornalista em formação e estudo na Universidade Luterana do Brasil. Sempre tive facilidade em me comunicar com as pessoas e minha maior paixão é o futebol. Logo cedo, percebi que quando meus cromossomos se uniram, não me abençoaram muito com o dom da bola nos pés. Foi então, unindo o útil ao agradável, que logo cedo descobri que gostaria de viver do jornalismo esportivo e trabalhando com o mundo da bola. Hoje, participo de um podcast chamado “Na Resenha” e tento equilibrar a informação com uma pitada de corneta e bom humor. Afinal, é isso que faz o futebol ser o esporte mais apaixonante do mundo. Eu sou Andrei Severo, e é um prazer que você esteja acompanhando o que escrevo.

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