Puebla Curtidores

A história do futebol mexicano é marcada por episódios de compra e venda de times, que por lá tem a denominação de franquias. Elas pertencem a empresários, corporações e até órgãos políticas. Ao longo dos anos, esses atores tomaram conta dos clubes e os adicionaram às suas redes de negócios. Nesse sentido, eles podem ser mudados de cidade sem muita dificuldade, e essa prática se tornou recorrente, seja por motivos esportivos, comerciais ou políticos. Assim sendo, a coluna Papo Azteca desta semana conta o caso que envolveu o Club Puebla.

O time da cidade de Puebla de Zaragoza é muito tradicional. Afinal, conquistou a Copa dos Campeões da CONCACAF em 1991, o Campeonato Mexicano nas temporadas 1982/83 e 1989/90, cinco Copas México (1994/45, 1952/53, 1987/88, 1989/90 e Clausura 2015), uma Supercopa do México (2014/15) e o Campeón de Campeones da temporada 1989/90. Entretanto, essa vitoriosa história de 76 anos tem uma grande mancha, que surgiu no fim do século passado.

A QUEDA DO PUEBLA

No dia 9 de maio de 1999, um domingo, o clube empatou fora de casa contra o Monterrey, por 1 x 1, no Estádio Tecnológico de La Sultana del Norte. Poderia ser um simples resultado da última rodada do Torneio de Verão daquele campeonato. Entretanto, acabou condenando La Franja ao rebaixamento à Segunda Divisão (na época Primeira Divisão “A”). Ao mesmo tempo, aquele elenco entrava para a história como o último a vestir a camisa camotera original na elite mexicana.

O clube poblano rebaixado em 1999. (Foto: Reprodução/Carlos Moreno)

Para a cidade de Puebla, ainda havia uma última esperança de ter uma equipe na Primeira Divisão, que residia no Venados de Yucatán. Isso porque este clube pertencia ao mesmo dono dos franjiazules, Francisco Bernat, que possuía 70% das ações. Em suma, eles haviam vencido o Torneio de Inverno de 1998 na Segundona, de tal forma que garantiram vaga na final pelo acesso. Assim, em caso de êxito, Bernat poderia transferir o time diretamente para território pueblano e reviver o clube.

Mesmo assim, o Puebla não contava com isso. Aliás, o treinador espanhol José Mari Bakero renovou por dois anos para conseguir o acesso imediato, e já buscava jovens na Europa para ajudar na missão. Dessa forma, seguia-se o Torneio de Verão, e a final estava decidida, entre Unión de Curtidores e Cruz Azul de Hidalgo. Os primeiros conquistaram o título e avançaram à fase final. Naquele momento, os Venados já pertenciam totalmente a Bernat. Contudo, no dia 20 de junho de 1999, após duas partidas, os Curtidores venceu com um agregado de 7 x 1, subiu à elite e encerrou as chances da cidade de Puebla.

REVIRAVOLTA

Então, veio a notícia que pegou todos de surpresa. No dia anterior à final, Valente Aguirre, o dono da Unión de Curtidores e do Club León, participou de uma reunião privada com Bernat e selou um acordo para venda dos esmeraldas, recebendo como moeda de troca os Venados de Yucatán, que jogariam a Segundona em Guanajuato. Só que essa negociação despertou a fúria da torcida do León. Assim, Aguirre recomprou o clube para acalmar a situação e decidiu vender a Unión de Curtidores.

Desta forma, em 29 de junho de 1999, com autorização do Conselho Nacional da Federação Mexicana de Futebol, foi oficializada a chegada da equipe benjamin a Angelópolis para refundar o Puebla. A franquia original camotera ficou na Primeira “A” com o nome de Ángeles de Puebla.

Dois “Pueblas” coexistiram em divisões diferentes. (Foto: Reprodução/Joel Gutierrez)

ACONTECEU DE NOVO

La Franja estava de volta ao primeiro escalão do futebol mexicano, e até conseguiu chegar às semifinais do Torneio de Verão de 2001, mas na maior parte das temporadas fez campanhas ruins e ficou nas últimas posições da tabela. Como resultado, em 2005, a bolha voltou a estourar. Não tem como evitar o destino quando ele está traçado. Seis anos após o rebaixamento evitado nos bastidores, o Puebla caiu pela segunda vez. E foi para valer.

Na Segunda Divisão, os camoteros começaram muito bem e venceram o Apertura 2005, em final contra o Cruz Azul de Oaxaca. Mesmo após um Clausura em que foram os últimos colocados, disputaram a final do acesso contra o Querétaro, só que perderam e precisaram remar tudo de novo. Na nova temporada, o Puebla conquistou o Apertura 2006 e fez melhor no Clausura, parando nas semifinais. Desta vez, na final do acesso, derrotou o Dorados de Sinaloa e retornou à elite do futebol mexicano, desta vez na bola. Desde então, não caiu mais e conquistou o título da Copa México Clausura em 2015, após duas décadas em jejum de títulos. Ainda em julho do mesmo ano, conquistou a Supercopa do México.

O PUEBLA ORIGINAL

Conforme dito acima, após o rebaixamento em 1999, a franquia seguiu como Ángeles de Puebla na Primeira “A”, ainda tendo Bernat como dono. No Torneio de Inverno daquele ano, conseguiu ser 6º geral, mas caiu nas quartas de final para o Real San Luis. Já no Verão de 2000, ficou em 3º geral, mas caiu nas semifinais para o Irapuato. Entretanto, no Inverno do mesmo ano, os Ángeles tiveram um péssimo desempenho e ficaram na última colocação.

A partir da segunda metade da temporada, o clube passou às mãos da Universidade de Cuauhtémoc de Puebla e virou Real San Sebatián, conseguindo apenas a 17ª colocação. Então, a partir do Inverno de 2001, deixou Puebla para não voltar mais. A franquia passou por várias cidades e foi chamada Atlético Chiapas (2001-2002), Atlético Yucatán (2002-2003), Inter Riviera Maya (2003), Azucareros de Córdoba (2004), Huracanes de Colima (2004-2005). No Apertura 2005, como Águilas de La Rivera Maya, enfrentaram o próprio Puebla, que havia caído.

Este time só durou seis meses, e ainda foi Zacatepec (2006) e Socio Águila (2007-2009). Esta última equipe pertencia ao Club América e jogava no Estádio Azteca. Contudo, quando o clube decidiu priorizar suas equipes sub-20 e sub-17, pôs um fim à histórica franquia original de La Franja. A última partida foi contra o Veracruz, no Estádio Luis “Pirata” Fuente. Curiosamente, em 7 de maio de 1944, os camoteros fizeram sua estreia no futebol profissional, contra o mesmo time e no mesmo local.

Última partida da história da franquia original do Puebla, como Socio Águila. (Foto: Reprodução/Medio Tiempo)

PASSADOS PARECIDOS

Antes da partida entre Puebla e León pelo Clausura 2019, algumas provocações entre clubes e torcedores levaram os franjiazules a fazer uma postagem lembrando de um aspecto da história adversária. Fundado em 20 de agosto de 1944, os esmeraldas (quase vendidos a Puebla em 1999) tiveram sua origem baseada em uma Unión de Curtidores. Fundada em 1928, esta se fundiu com a seleção de Guanajuato para originar o Léon.

O clube se chamaria Unión-León, mas mudou de nome para que a torcida se sentisse totalmente identificada. Deste modo, os pueblanos resgataram esta origem comum, e disseram que os rivais seriam a “Unión de Curtidores 1” e eles seriam a “Unión de Curtidores 2”. Mas ao contrário do Puebla, eles se mantém estáveis desde a criação e não precisaram mudar de nome nem comprar ninguém.

CASOS RECENTES

Conforme dito no início, a prática de compra e venda dos clubes mexicanos é recorrente. Podemos encontrar exemplos atuais, como a aquisição dos Lobos BUAP pelo Juárez, que passou a jogar na Liga MX na temporada 2019/20 e ainda está na elite. Uma ironia, pois em 2018 os Lobos (também da cidade de Puebla) compraram a vaga dos Cafetaleros de Tapachula, que conseguiram o acesso, mas não cumpriram os requisitos mínimos para subir. Assim, a equipe licántropa desembolsou 120 milhões de pesos e evitou o rebaixamento.

Só para exemplificar mais um pouco, o Querétaro comprou o La Piedad em 2002 e voltou à Primeira Divisão seis anos após ser rebaixado. Posteriormente, em 2004, o clube foi desfiliado da Federação por má gestão e suposta ligação com tráfico de drogas. Logo após, os donos compraram o Zacatepec e conseguiram subir em 2006. E após caírem novamente em 2013, compraram o Jaguares de Chiapas para permanecer na elite.

https://twitter.com/LigaBBVAMX/status/1138517169946411009

A instabilidade dos clubes é quase um selo de identidade do futebol mexicano. Não é algo que faz bem para o esporte, nem para a seriedade dos campeonatos e muito menos para as torcidas locais, que se veem reféns de decisões abruptas de empresários que controlam o dinheiro. Entretanto, é a história que tem violado estatutos da FIFA e ditado o jogo no país norte-americano.

Foto destaque: Reprodução/AS México

Davi Ferreira
Escolhi o jornalismo por causa da paixão pelo esporte, principalmente. Sempre acompanhei as mais diversas modalidades pelo mundo e pensava que só podia trabalhar com isso. Assim que entrei na faculdade e acumulei experiências, me apaixonei pela profissão em todos os seus aspectos. O que mais me atrai são os desafios e imprevisibilidades apresentados diariamente. Já participei de projetos de jornal impresso, portal de internet, transmissões de rádio, podcasts e produção de televisão. Estou sempre disposto a somar experiências, e me dedico com firmeza nas ideias em que acredito.

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