Porque o bom nem sempre é futebol bonito

Antes de mais nada, quero dizer que valorizo o que se chama de jogo bonito. Tanto é que o melhor time que vi jogar, de longe e muito à frente dos outros, foi o Barcelona de Guardiola.

Entretanto, a perseguição por um modelo único de futebol contamina muitas análises. Uma vez que as opiniões de especialistas muitas vezes são baseadas naquilo que mais lhe encantam, temos um cenário onde se ignora o fato de que jogar bem e jogar bonito são, por vezes, coisas diferentes.

Os movimentos de vanguarda

Desde já quero deixar registrado que o futebol é uma arte. E como uma arte, ele possui movimentos de vanguarda em diferentes épocas. Sendo assim, não podemos ignorar as contribuições feitas pelo 4-3-3 inventado pela seleção brasileira bicampeã do mundo em 1958-1962.

Tampouco, podemos dizer que estão loucos os que ainda guardam com carinho o que viram no Carrossel Holandês de 1974, no Brasil de 1982 ou no já citado Barcelona de Guardiola, em 2011. Contudo, percebo que este último, mesmo sem querer, levou uma geração inteira de amantes do futebol a entender que a única forma satisfatória de se jogar é tendo 70% de posse de bola e 20 finalizações por partida.

O futebol ainda é um jogo

Quero ressaltar que o futebol ainda é um jogo. Em um jogo, na maioria das vezes, vencem aqueles que exploram os pontos frágeis do adversário e elevam ao máximo suas próprias virtudes, que nem sempre são belas. Fosse o futebol um esporte decidido somente pela técnica dos mais habilidosos, não teríamos Alemanha e Itália com quatro Copas do Mundo cada uma.

Existem outros aspectos que determinam o vencedor de uma partida. O futebol é uma junção de técnica, controle mental, capacidade física e conceitos táticos. Dessa forma, por melhor que seja um time tecnicamente, ele precisa desenvolver com absoluta maestria os outros três elementos citados acima. De outro modo, como podemos explicar a Holanda de 74 perdendo para a Alemanha de Gerd Müller? Ou o Brasil de 1982 perdendo para a Itália de Paolo Rossi?

Futebol Bossa Nova ou Rock and Roll?

Finalmente, quero proporcionar a você, caro leitor, a possibilidade de expandir a visão sobre modelos de jogo, a fim de entender que o conceito de belo no futebol não é algo absoluto. Para isso, quero estabelecer a analogia do futebol bossa nova x futebol rock and roll. Por bossa nova, posso colocar todos os movimentos de vanguarda e os times históricos que tanto amamos citar, como o Santos de Pelé.

Também não podemos esquecer as duas academias do Palmeiras, o Fla de Zico e cia e o São Paulo do Telê. Mas também enxergo beleza e não pouca, no futebol rock and roll do Liverpool de Klopp. O ônibus estacionado de José Mourinho com a Inter de Milão no Camp Nou em 2010  também tem seu charme.

Como não considerar belo um estilo de jogo que extrai o máximo dos seus atletas e que não deixa o adversário respirar, mesmo sem ter posse de bola esmagadora? Como não ver beleza na sintonia de um time que escolhe chegar no gol em quatro toques ao invés de 20? Para ser tão eficiente também é necessário treino, visão de jogo e capacidades física e técnica.

Ou ainda, podemos desprezar técnicos que são mestres em estratégias e que adaptam seus times aos adversários? O futebol ainda é um jogo e com muitas formas de vencer. Por isso ele é tão apaixonante! É a possibilidade do “mais fraco” ganhar que torna esse esporte o maior do mundo. Abaixo o modelo único de futebol!

Foto Destaque: Divulgação/Manchester United

Paulo Henrique Araújo
Apaixonado por futebol desde antes do que possa lembrar. Comentarista esportivo por amor e constante aprendiz do maior esporte do mundo.