Por que Cristóvão deveria ter permanecido?

Apesar da derrota ontem para o Palmeiras em casa – o que não é nada  excepcional  – Cristóvão Borges não deveria ter sido demitido por diversas razões.
Primeiro: está claro que trabalhos longos são mais exitosos, o Timão é a prova disso. Foi assim com Mano Menezes, duas vezes. Foi assim com Tite, duas vezes. O Santos não dispensou o Dorival após perder a Copa do Brasil no ano passado. Venceu o Paulista e briga no Brasileiro. O Palmeiras conquistou a Copa do Brasil e, meses depois, mandou Marcelo Oliveira embora. Foi eliminado da Libertadores com Cuca no banco. É o líder do nacional, mas ninguém garante que não seria sob o comando de Oliveira, que foi para o Galo – terceiro colocado e candidatíssimo ao título.
Cristóvão assumiu o Corinthians na terceira colocação, com 16 pontos. Oscilou entre a liderança (17arodada) e a 5a posição, mas manteve o time no G4 por 13 rodadas e está só a um ponto dele. As únicas vezes em que o alvinegro deixou o grupo foram na estreia do treinador (derrota para o Atlético-MG), na abertura do returno (derrota para o Grêmio) e agora. Apesar das saídas de Elias, Bruno Henrique e Luciano – não vamos nem considerar a do André, pois esta o torcedor corintiano não deve lamentar tanto – em nenhum momento o time esteve abaixo da atual colocação. Após o desmanche pelo qual o clube passou e com o atual elenco à disposição, que não é ruim, só é bem inferior ao de 2015, o Timão deveria agradecer por estar onde está.
Até o clássico, dos 16 jogos a frente do alvinegro, Cristóvão venceu sete, perdeu cinco e empatou quatro – aproveitamento de 52%. O desempenho é semelhante ao da primeira passagem de Tite no clube (24V/15E/12D – 56%), embora bem abaixo ao do início do torneio, antes do treinador aceitar o convite da seleção, quando em sete jogos, venceu quatro, empatou uma e perdeu duas (61%). Nas rodadas 8 e 9 – derrota para o Fluminense (0 x 1) e vitória sobre o Botafogo (3 x 1) – o auxiliar Fábio Carille dirigiu a equipe.
Se Tite conseguiu criar um padrão de jogo, tão elogiado, mesmo depois de perder tantos jogadores, Cristóvão tem, no mínimo, o mérito de tê-lo mantido. Quantas vezes o Corinthians foi goleado? Só contra o Grêmio (20a rodada), num jogo em que foram criadas algumas chances de marcar. Na partida contra o Atlético-PR, pela 18a rodada, outra vez, várias oportunidades desperdiçadas. Se tivesse vencido, poderia ter terminado o turno líder. Mal mesmo foi contra a Ponte, aí não há o que contestar. A exceção desta partida, o alvinegro tem feito atuações razoáveis, a exemplo do segundo tempo contra o Sport e do primeiro contra o Santos. Então, o que falta para engrenar?
Falta controlar melhor o jogo, sobretudo quando se está a frente do placar, o que tem sido uma postura diferente em relação às temporadas anteriores. Com Mano, era duro marcar, mas quando marcava, ganhava. Com Tite, podia levar que havia segurança na virada. A confiança agora não é a mesma, embora ainda seja difícil ver o Corinthians afobado. Neste campeonato, o time tanto cedeu o empate (Cruzeiro e Coritiba) quanto foi buscar (Figueirense e São Paulo). Venceu jogando mal (Santos na ida e Vitória na volta) e perdeu jogando bem (Santos na volta e Vitória na ida).
A inconstância, contudo, não tem sido determinante a ponto de descartá-lo do páreo. O Corinthians é uma equipe com menos recursos, mas que sabe ganhar jogos, principalmente em casa, onde conquistou 71% dos pontos e só veio a perdeu ontem no campeonato. O número de vitórias em Itaquera (8) é o mesmo das derrotas fora de casa. O curioso é que apesar da má campanha fora da arena (33% de pontos somados), o problema não é ter vencido pouco – quatro vitórias não são desprezíveis – mas ter empatado pouco, o que só  aconteceu em Curitiba na penúltima rodada. Se tivesse empatado mais, como no passado recente, o Corinthians estaria no G4.
Cristóvão deveria ter continuado porque manteve o time entre os melhores mesmo não sendo um deles. O seu trabalho não foi ruim. Agora o Corinthians está sem treinador a dois meses do final da temporada e quem quer que chegue não terá tempo hábil para fazer algo extraordinário. E se ninguém chegar, Fábio pode fazer um bom trabalho e me calar – é necessário que novos treinadores tenham oportunidade.
No entanto, se o fiel torcedor deseja encontrar o irmão gêmeo do Sr. Adenor, não encontrará. É bom lembrar, todavia, que quando ele retornou ao Parque São Jorge, em 2010, foi contestado e precisou de mais de um ano para triunfar. Ninguém imaginava que viria a se tornar o maior treinador do clube de todos os tempos, o que não teria se concretizado se o trabalho tivesse sido interrompido após a eliminação na pré-Libertadores ou na perda do título paulista de 2011.
Não se começa uma caminhada com a pretensão de ultrapassar as marcas do ídolo, até porque isso costuma levar ao fracasso. As comparações são injustas, cruéis e desnecessárias. Assim como pôde existir o Brandão nas décadas de 50, 60 e 70 e o Tite neste início de século, poderão outros surgir, como é do ciclo natural. Não se pode afirmar que Cristóvão era este sucessor, mas nem Cristóvão, nem Roger, nem ninguém será se a cada revés o treinador for demitido pela saudade do passado. Ícones fazem história e são para sempre lembrados, mas eles também abrem espaço para o próximo fazer o mesmo, ou ao menos tentar.  
Caio Araújo

Sobre Caio Araújo

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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