Passaporte Rússia – Super Águias: a safra de ouro nigeriana da década de 90

- Habilidade, personalidade, talento, espírito vitorioso e muita, mas muita alegria, marcaram a geração mais vencedora do país
Passaporte Rússia – Super Águias a safra de ouro nigeriana da década de 90

Passaporte Rússia é mais uma coluna do Futebol na Veia que apresentará curiosidades de todas as seleções que participarão da Copa do Mundo deste ano. Este é o quarto de sete textos sobre a Seleção Nigeriana.

Marcada de forma infeliz pela desorganização política e desigualdade social desde sua independência, em 1960, a Nigéria tem como lema a seguinte frase: “Unidade e fé, paz e progresso”. Situado ao oeste do continente africano, o país está longe de oferecer as condições dispostas nos dizeres nacionais aos seus habitantes. No entanto, a esperança, representada pelo verde que veste a bandeira da nação, dá seu ar da graça em algumas manifestações. O futebol é uma delas.

Driblar as falhas governamentais no início da década de 90 trouxe aos nigerianos motivos para sorrir. O mundo começou a ouvir falar da Seleção Nigeriana de futebol com a chegada do técnico holandês Clemens Westerhof após a extinção da possibilidade de os alviverdes disputarem a Copa do Mundo de 1990. Com o vice da Copa Africana de Nações disputada no mesmo ano, o comandante, aos poucos, promoveu a renovação da equipe para o ciclo seguinte do Mundial de Seleções.

Nomes como Victor Ikpeba, Finidi George, Daniel Amokachi, Sunday Oliseh, Emmanuel Amuneke e Jay-Jay Okocha se misturaram aos dos veteranos Reuben Agboola e Rashid Yekini. Em outubro de 1992, a Nigéria iniciou a disputa das eliminatórias africanas para a Copa dos EUA com vitórias sobre África do Sul e Congo na fase inicial.

Na reta final da disputa, depois de serem derrotados por 2 a 1 pela Costa do Marfim, os nigerianos não podiam mais perder, e assim seguiram: 4 a 1 na Argélia, 4 a 1 diante dos marfinenses e 1 a 1 novamente contra os argelinos. O empate em outubro de 1993 foi suficiente para colocar o time alviverde pela primeira vez na história em uma Copa do Mundo.

Pouco tempo depois do feito, a equipe teve memorável atuação na Copa Africana de 1994. Após enfrentarem Gabão (3×0) e Egito (0x0) na fase de grupos, a Nigéria superou Zaire (2×0) nas quartas, Costa do Marfim (2×2 no tempo normal, 4×2 nos pênaltis) na semifinal e Zâmbia (2×0) na final para ficar com o título da competição, cujo qual não era conquistado desde 1980.

Time base nigeriano para a Copa de 1994. Da esquerda para a direita. De pé: Uche (5), Siasia (12), Eguavoen (2), George Finidi (7), Nwanu (6) e Rufai (1). Agachados: Yekini (9), Amunike (11), Oliseh (15), Iroha (3) e Amokachi (14) (Reprodução/FIFA.com)

Debute em Copas do Mundo

O entrosamento já era marca registrada da equipe nigeriana para a Copa do Mundo de 1994, disputada na terra da Disney. As principais características de jogo do time treinado por Westerhof eram o toque de bola rápido e a alta velocidade nos lances de ataque e contra-ataque.

A Nigéria caíra em um grupo forte, com a Argentina de Batistuta, a Bulgária de Stoichkov e a Grécia. O regulamento da época permitia que os quatro terceiros melhores colocados, além dos dois primeiros de cada grupo, avançassem às oitavas de final. Apesar de se apegarem a isso, os jogadores ouviam sempre de seu treinador “que não havia nada a temer, já que podiam competir em níveis iguais com qualquer outra seleção”.

O desempenho na etapa inicial saiu melhor que a encomenda: na estreia do Grupo D, atropelaram a Bulgária por 3 a 0, com jogadas rápidas e envolventes terminadas em gols de Yekini, Amokachi e Amuneke. No segundo jogo, diante dos hermanos argentinos, Yekini abriu o placar para os nigerianos com direito a caneta no zagueiro Simeone e golaço, mas logo sofreu a virada graças ao ataque Maradona-Caniggia, este último autor dos dois tentos.

Liderança surpreendente

Por fim, a vitória diante da Grécia era dada como certa e se confirmou: 2 a 0, com gols de Finidi George e Amokachi. O triunfo colocou os nigerianos na surpreendente primeira colocação da chave, com Bulgária em segundo e Argentina em terceiro – ambos classificados às oitavas. A equipe africana teria pela frente a Itália de Roberto Baggio no mata-mata.

A partida decisiva às quartas de final ficou marcada à Nigéria pela falta de malícia e esperança em repetir o feito dos camaroneses em 1990. Apesar do domínio na partida e no gol de Amuneke ainda no início do duelo, os italianos tinham Il Codino Divino vestindo a camisa 10, e ele fez a diferença: nos instantes finais do segundo tempo, empatou a partida após vacilo da zaga alviverde. Na prorrogação, após pênalti sofrido por Benarrivo, Baggio marcou novamente e levou a Azzurra à etapa seguinte do torneio mesmo com um jogador a menos.

Baggio acabou com o sonho nigeriano na Copa de 1994 (Getty Images)

O gol italiano marcou o fim da trajetória nigeriana na Copa, mas o início de uma era festiva aos habitantes locais, que celebraram com festa o retorno dos atletas para o país. Em 1995, Westerhof deu lugar a Shaibu Amodu, que treinou a equipe na Copa das Confederações daquele ano. No torneio, a equipe alviverde ficou com a quarta colocação após empatar com o México por 1 a 1 e perder nos pênaltis por 5 a 4.

Renovação continuada

Em passagem meteórica pelo comando técnico, Amodu foi substituído por mais um holandês: Johannes “Jo” Bonfere, que já havia sido treinador da equipe feminina nigeriana no início dos anos 90. O novo professor apostou suas fichas na disputa dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e embarcou pela segunda vez na década aos Estados Unidos com nove atletas na linha dos 21 anos de idade.

Juntos dos experientes Okewuchu (28 anos) e Amuneke (25 anos), jogadores convocados acima dos 23 anos permitidos pela competição, os nomes de Emmanuel Babayaro, Celestine Babayaro, Obiekwu e Kanu foram apresentados ao mundo. A equipe ainda contava com grande parte do time-base que chegou às oitavas da Copa do Mundo de 1994, como Babangida, Okocha, West, OlisehIkpeba e Lawal.

A redenção dourada

A safra alviverde era vista por muitos como superior à do Mundial e seria posta à prova contra seleções tradicionais, como Brasil, Argentina, Espanha, França, Itália e Portugal. Novamente em um Grupo D, a Nigéria venceu a Hungria na estreia por 1 a 0 (gol de Kanu), triunfou em seguida diante dos japoneses por 2 a 0 (Babangida e Okocha) e, na rodada final, sofreu revés por 1 a 0 para o Brasil.

Crente em um possível segundo encontro com os brasileiros no mata-mata, Jo Bonfere estudou bastante o adversário nos treinamentos. Nas quartas de final, os nigerianos superaram o México por 2 a 0 com gols de Okocha e Babayaro. Quis o destino colocar o Brasil à frente dos alviverdes na semifinal.

O palco do segundo encontro entre as equipes na competição era o estádio Sanford, no estado da Geórgia. Favoritíssimo à final, o Brasil anulou a Nigéria no primeiro período e virou com 3 a 1 a seu favor, com gols de Flávio Conceição, duas vezes, e Bebeto.

Na etapa final, o famoso ditado “quem não faz, toma” veio à tona. Após perder inúmeras oportunidades e ver Dida agarrar a cobrança de pênalti de Okocha, o Brasil viu o jogo mudar a partir dos 33 minutos. Como uma avalanche, em duas bobeadas da Canarinho, Ikpeba e Kanu empataram a partida e levaram a decisão da vaga para a prorrogação.

A prorrogação em partidas olímpicas de futebol naquela época tinha apenas quatro minutos. Para a Nigéria ser letal, bastou um ataque: após lançamento em direção à zaga brasileira, a bola sobrou para o centroavante Kanu, que cortou um dos defensores e chutou no canto de Dida. O gol sacramentou mais uma vez o fracasso do futebol brasileiro em Jogos Olímpicos e colocou a Nigéria na final inédita, já que o jogo acabava imediatamente com o “Golden Goal” (morte súbita).

Letal na área, Kanu marcou duas vezes diante do Brasil e levou a Nigéria à inédita final olímpica (Getty)

Sonho do ouro olímpico

Um dos algozes da Copa do Mundo de 1994, a Argentina foi a adversária da Nigéria na disputa pela medalha de ouro das Olimpíadas de Atlanta. Comandada por Daniel Passarella, a seleção sul-americana era franca favorita ao título e contava com nomes de peso em seu plantel: Ayala, Zanetti, Sensini, Claudio López, Ortega, Crespo, Simeone e Gallardo. A constatação do poder de fogo da equipe veio logo no início do primeiro tempo, com López.

Babayaro, na reação nigeriana, empatou o certame ainda na etapa inicial. No segundo tempo, Crespo, de pênalti, colocou os hermanos novamente na frente. A equipe africana não desistiu e, em ação do gigante Kanu, Amokachi deixou tudo igual novamente: 2 a 2. Quando a temida prorrogação dava sinais de que apareceria novamente, o presente argentino: já perto dos acréscimos, em falha bizarra da zaga, Amuneke foi para as redes e virou a partida: pela primeira vez na história, o ouro olímpico no futebol era de uma seleção africana!

O dia 3 de agosto de 1996 ficou marcado na história da Nigéria. O time aguerrido, de ataque veloz e pontaria fulminante, deixou o posto de zebra para desbancar grandes potências do futebol mundial. As “Super Águas Verdes” se tornaram “Super Águias Douradas” desde então: muitos jogadores daquela geração passaram a atuar em clubes de expressão, principalmente da Europa.

Legado

O título nigeriano não só coroou o ótimo trabalho de Jo Bonfere como quebrou o menosprezo do mundo aos atletas africanos. Mesmo sem vencer as duas edições da Copa Africana de Nações até a Copa do Mundo de 1998, na França, a Nigéria garantiu lugar pela segunda vez na história em um mundial de seleções. Apesar de vencerem Espanha e Bulgária na fase de grupos, os alviverdes não foram problema para a Dinamarca dos irmãos Laudrup nas oitavas de final e se despediram com uma melancólica goleada por 4 a 1.

Apesar de não ter conquistado notoriedade no futebol após a geração das “Super Águias Douradas”, a Nigéria tem marcado presença nas últimas edições na Copa do Mundo como um dos principais times africanos do mundo. O time que encantou o mundo nos anos 90 jamais será esquecido pelos amantes do futebol, pois, mesmo com todas as adversidades impostas por imprensa e populares à época, usou da alegria para voarem mais alto do que qualquer prenúncio. O futebol é – e sempre será – uma caixinha de surpresas.

Ao lado de Camarões, a Nigéria dos anos 90 foi um dos maiores times africanos da história (Getty)
Angelo Neto

Sobre Angelo Neto

Angelo Neto já escreveu 28 posts nesse site..

Paulistano com raízes baianas e paranaenses nascido no Dia do Futebol e no ano que nossa Seleção trouxe o tetra para o Brasil na voz marcante de Galvão Bueno. A facilidade com a escrita surgiu naturalmente durante o colégio, e uni-la ao amor pelos esportes trouxe a paixão pelo jornalismo como profissão. Devoto de São Marcos, acredita que o clubismo é passado de pai para filho e tenta nas pelejas recreativas ter o mesmo sucesso como redator.

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