Passaporte Rússia – O fantasma das quartas de final

- Conheça o retrospecto da Inglaterra em Copas do Mundo

Passaporte Rússia é mais uma coluna do Futebol na Veia que apresentará curiosidades de todas as seleções que participarão da Copa do Mundo deste ano. Este é o primeiro de sete textos sobre a Seleção Inglesa desta edição. Confira como é a história dos Três Leões.

Se o futebol existe hoje da maneira que o conhecemos, muito se deve aos ingleses. Não que eles tenham necessariamente inventado o esporte – afinal, chineses, japoneses e gregos já chutavam bola muito antes –, mas foram eles os primeiros a criar uma associação de clubes, a The Football Association, em 26 de outubro de 1863. Entretanto, sua história em Copas do Mundo não é lá tão gloriosa quanto esse título propõe. Foram seis edições de fora – três por simples recusa – e apenas duas vezes entre os quatro melhores, incluindo o título de 1966. Em 2018, a seleção estará no Grupo G, com Bélgica, Panamá e Tunísia. Confira, abaixo, um breve resumo das 14 aparições dos britânicos na competição.

PASSAPORTE RÚSSIA – A HISTÓRIA DA SELEÇÃO INGLESA EM COPAS DO MUNDO

1950

A estreia inglesa foi no solo que revolucionou a modalidade que eles idealizaram – ainda que, naquela altura, ninguém soubesse disso. A classificação para a quarta edição do campeonato organizado pela FIFA só foi possível devido a um acordo, em que ficou estabelecido como fase eliminatória a British Home Championship, competição que envolvia as seleções da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte – quando ainda era somente Irlanda. Na temporada em questão, os ingleses ficaram em primeiro e os escoceses foram vices, o que lhes daria direito de ir ao Brasil, mas não ocorreu devido à recusa por ter classificado em segundo lugar.

Com a bola rolando, os Três Leões decepcionaram. No Grupo 2, junto à Espanha, ao Chile e aos Estados Unidos, a equipe comandada por Walter Winterbottom, ex-jogador do Manchester United, e que contava com craques como Stanley Matthews, ganhou dos sul-americanos por 2 a 0 na primeira partida – coube a Star Mortensen entrar para a história e marcar o primeiro gol inglês em copas –, mas sofreu duas amargas derrotas para os EUA, por 1 a 0, e para a Espanha, pelo mesmo placar e deu adeus ainda na primeira fase.

O resultado contra os americanos é até hoje conhecido como “a maior zebra de todos os tempos”. Enquanto a The FA mostrava profissionalismo e levava o football a sério na Terra da Rainha, os americanos tinham uma seleção completamente amadora e com diversos jogadores que ganhavam a vida com uma segunda ocupação. O gol do haitiano Joseph Édouard Gaetjens – ou somente Joe Gaetjens – levou a torcida brasileira à loucura, que invadiu o gramado da Arena Independência ao final do duelo, e a história da partida foi contada no filme The Game of Their Lives. Definitivamente, a primeira participação da Inglaterra na Copa do Mundo é um filme hollywoodiano que inglês nenhum gosta de assistir.

Inglês Tom Finney marcado por Fernando Roldan, do Chile, no Brasil em 1950.
Tom Finney na estreia da Inglaterra em Copas do Mundo, marcado por Fernando Roldan. (Foto: Reprodução/FIFA)

1954

Quatro anos depois, lá estavam os ingleses novamente. Novamente com Walter Winterbottom no comando, os britânicos conheceriam seu maior fantasma até hoje: as quartas de final. Em solo suíço, a classificação veio com o segundo lugar no Grupo 4, atrás justamente dos donos da casa. No jogo de estreia, um emocionante 4 a 4 com os belgas. Broadis e Lofthouse marcaram para a Inglaterra, duas vezes cada, enquanto Anoul, também duas vezes, Coppens e Dickinson anotaram os tentos da Bélgica. Na segunda rodada, Jimmy Mullen e Denis Wishaw foram os antagonistas da história e deixaram suas marcas na vitória por 2 a 0 sobre os anfitriões. O grupo ainda tinha a Itália, mas o regulamento estabelecia que os cabeças-de-chave não se enfrentariam – a Itália acabou eliminada na primeira fase, em terceiro lugar.

O avanço para as quartas de final foi na direção dos atuais campeões mundiais. O Uruguai tinha como principal nome Juan Schiaffino, craque do Peñarol que se transferiria para fazer história no Milan após a Copa – o mesmo foi autor do primeiro gol da virada uruguaia no Maracanazo. Carlos Borges abriu o placar para a azul-celeste, mas Lofthouse empatou a partida. Entretanto, os sul-americanos marcariam mais duas vezes, com Obdulio Varela e Schiaffino. Tom Finney deu esperanças à torcida inglesa ao diminuir a vantagem, mas Javier Ambrois deu números finais: 4 a 2 e bye bye, Três Leões.

Jimmy Mullen carrega a bola na partida contra a Suíça, dona da casa. (Foto: Reprodução/FIFA)

 1958

A Copa do Mundo que deu ao Brasil o primeiro dos cinco títulos teve mais um fato curioso: foi a primeira (e única) vez em que os quatro países do Reino Unido disputaram a mesma edição do campeonato. Mas, para os ingleses, foi também um ano triste. No dia 6 de fevereiro, o voo da British European Airways levava para casa os jogadores do Manchester United após o empate em 3 a 3 contra o Estrela Vermelha, da então Iugoslávia, que dera a classificação para as semifinais da Liga dos Campeões aos Red Devils. Uma tempestade de neve atingia Belgrado e, segundos após decolar, o bimotor se chocou com o chão, deixando 21 dos 44 passageiros mortos. Dentre as perdas, sete eram da equipe inglesa e três da seleção: Tommy Taylor, Roger Byrne e Duncan Edwards. O último sobreviveu à queda, mas não suportou as lesões e faleceu quinze dias depois.

Enfraquecida mesmo com quatro meses passados, os ingleses enfrentaram um grupo complicado na Suécia, com Brasil, União Soviética e Áustria. Seguraram o empate nas três partidas da primeira fase – 2 a 2 contra os soviéticos, 0 a 0 contra o Brasil e 2 a 2 contra a Áustria. O regulamento previa um novo jogo em caso de empate na tabela. O Brasil ficou em primeiro, enquanto soviéticos e ingleses fizeram no dia 17 de junho o duelo de desempate. A partida terminou 1 a 0 para o Exército Vermelho, e a Inglaterra deu adeus àquela edição mais cedo. No entanto, do banco de reservas em todos os jogos, um jovem de 20 anos, que também sobrevivera ao acidente aéreo em Munique, participava de sua primeira Copa do Mundo: Bobby Charlton.

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Nilton Santos e Billy Wright apertam as mãos antes da partida que terminou com o placar zerado. (Foto: Reprodução/FIFA)

1962

De volta ao continente em que estreou na Copa do Mundo, a seleção inglesa precisava deixar no Chile uma melhor impressão do que aquela primeira, 12 anos antes. E tinha tudo para isso, pois o time titular contava com os dois maiores jogadores ingleses da história, Bobby Charlton e Bobby Moore. No Grupo 4, os Três Leões tinham a companhia de Hungria, Argentina e Bulgária. Com uma derrota, um empate e uma vitória, o segundo lugar veio pelo saldo de gols maior que os argentinos – a Hungria foi a primeira colocada, enquanto a Bulgária amargou a lanterna.

Pela segunda vez, os britânicos alcançavam as quartas de final. Porém, tinham pela frente, novamente, o atual campeão mundial. O Brasil não contava com Pelé, lesionado ainda na primeira fase, mas tinha dentro das quatro linhas um anjo de pernas tortas que, especialmente naquele 10 de junho de 1962, estava endiabrado. Garrincha foi o maestro da vitória por 3 a 1, anotando dois gols e com participação direta no gol de Vavá. Foram vários os momentos em que a plateia em Viña del Mar divertiu-se com o baile do Mané. Gerald Hitchens fez o gol inglês, que àquela altura empatou o duelo, mas a maior vitória dos Três Leões naquela partida veio das mãos de Jimmy Greaves, único que conseguiu conter um cachorro invasor dentro do campo de jogo. O cão já tinha driblado Garrincha, que provou do próprio veneno.

Jimmy Armfield, da Inglaterra, e Raul Oscar Belen, da Argentina, disputam a bola. (Foto: Reprodução/FIFA)

1966

Os cem anos da The Football Association, em 1963, deu aos ingleses um mega presente: uma Copa do Mundo disputada em seu país. Oito estádios sediaram as partidas, sendo dois deles na capital, Londres. Dezesseis seleções dividiram-se em quatro grupos para buscar a Taça Jules Rimet. Anfitriã, a Inglaterra ficou no Grupo 1 junto com Uruguai, México e França. Na estreia, os donos da casa mostraram aquele que seria seu maior trunfo: a defesa. O placar zerado contra o Uruguai ao apito final não parecia ser algo exatamente fora dos planos de Alf Ramsey, técnico inglês. O ex-lateral direito, já experiente em disputar copas como jogador, teve a missão de substituir Winterbottom, que comandou os Três Leões por cinco edições, e adotou um estilo agressivo – e até mesmo violento – de jogo.

Do primeiro jogo em diante, só alegria. O placar de 2 a 0 se repetiu nos outros dois confrontos da primeira fase. Bobby Charlton e Roger Hunt marcaram contra os mexicanos, e o próprio Hunt anotou os dois tentos frente aos franceses. Com as duas vitórias e o empate, a Inglaterra ficou em primeiro e passou às quartas de final com folga. Para variar, um sul-americano estaria pela frente nessa fase. Pelo menos, não era um campeão mundial (ainda), o que não deixava o duelo contra a Argentina digno de atenção, afinal, o adversário estava invicto também.

A vitória veio, mas com contestações ao estilo de jogo inglês. Como dito anteriormente, a violência das entradas dos jogadores britânicos eram uma marca daquela seleção e isso ficou evidente no duelo das quartas. Isso porque Antonio Rattin, capitão da Albiceleste, foi expulso pelo alemão Rudolf Kreitlen após contestar uma marcação do árbitro. Indignado, o atleta exigia a presença de um tradutor para conversar com Kreitlen, mas em vão. Ao final, teve que sair de campo e assistir Geoff Hurst marcar o gol do triunfo inglês. Foi esse incidente que apontou a necessidade de um sistema disciplinar mais complexo durante as partidas. Na Copa do Mundo seguinte, foram instituídos os cartões amarelos e vermelhos.

Empolgados, os Três Leões chegavam pela primeira vez às semifinais do torneio da FIFA. Do outro lado, um estreante surpreendente comandado por um dos grandes da história: Eusébio. Portugal chegara às semis após deixar para trás, ainda na fase de grupos, o Brasil e, já nas oitavas, a Coréia do Norte, também debutante, em uma virada histórica que acabou 5 a 3 para os europeus. Entretanto, para a felicidade da Vossa Majestade Elizabeth II, Bobby Charlton anotou duas vezes e, mesmo com o gol do Pantera Negra português, artilheiro daquela edição com nove gols, a classificação para a inédita final estava assegurada.

A decisão também colocou à frente pela primeira vez na história da competição as seleções da Inglaterra e da Alemanha Ocidental. Ao contrário dos donos da casa, os alemães já haviam sido campeões, em 1954, e buscavam se igualar em número de títulos a Uruguai, Itália e Brasil. O estádio de Wembley, com capacidade para 98 mil espectadores, estava abarrotado.

A bola rolou e quem abriu o placar foram os indigestos visitantes. Helmut Haller aproveitou a bola mal afastada e finalizou rasteiro para bater Gordon Banks. Porém, cinco minutos depois, Hurst levou o estádio ao delírio quando apareceu sozinho para marcar de cabeça e empatar. Depois do intervalo, Martin Peters aproveitou a bola espirrada na área e finalizou de primeira, virando o marcador. O jogo já estava no minuto final quando o anticlímax foi oferecido por Wolfgang Weber. O camisa 6 surgiu na segunda trave após bate-rebate dentro da área e finalizou com força para igualar novamente o marcador. Fim do tempo normal e agora restava a prorrogação.

Surge, então, talvez o lance mais polêmico da história das Copas. Alan Ball correu pela direita e cruzou a bola à meia altura para o centro da área. Geoff Hurst, com liberdade, dominou, posicionou o corpo e bateu com violência. O chute acertou em cheio o travessão e a bola pingou em cima da linha antes de sair. Para desespero dos alemães, o suíço Gottfried Dienst, após consultar seu auxiliar, sinalizou para o centro do campo validando o gol inglês. Nos últimos quinze minutos, já com a Alemanha Ocidental lançada ao ataque, Hurst disparou desde o meio-campo e só parou após finalizar no ângulo esquerdo da meta defendida por Hans Tilkowski. Êxtase britânico. Coube à Rainha Elizabeth II entregar a Jules Rimet ao esquadrão inglês. A Inglaterra, mesmo com todas as controvérsias envolvidas, conquistava sua primeira e, até hoje, única Copa do Mundo.

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Ao centro da imagem, Bobby Moore levanta a taça Jules Rimet. (Foto: telegraph.co.uk)

1970

Ir à Copa com a responsabilidade de defender o título é sempre uma pressão a mais. A Inglaterra sentiu isso em 1970, no México. Já no sorteio das chaves, os ingleses notaram que não teriam vida fácil. O grupo da morte com Brasil, Romênia e Tchecoslováquia era um claro aviso que o bicampeonato custaria muito caro. Entretanto, a classificação veio após duas vitórias, sobre os romanos (1 a 0, gol de Hurst) e os tchecos (1 a 0, gol de Allan Clarke, de pênalti), e uma derrota, contra o Brasil (1 a 0, gol de Jairzinho).

O duelo das quartas de final não poderia ser mais inapropriado – não para o público, claro, mas para os britânicos. A reedição da final da Copa anterior, contra a Alemanha Ocidental, tinha o visível clima de revanche e despertou a atenção dos mexicanos. A Inglaterra foi à campo com um grande desfalque. O espetacular Gordon Banks sentiu dores no estômago antes da partida e foi substituído por Peter Bonetti. Em mais um grande duelo, em que os ingleses abriram dois gols de vantagem, a equipe liderada por Franz Beckenbauer buscou o empate e outra vez a prorrogação far-se-ia necessária para definir quem passava. Dessa vez, não houve festa britânica. O lendário Gerd Müller marcou aos três minutos da etapa complementar do tempo extra e mandou Alf Ramsey, Bobby Charlton, Bobby Moore, Geoff Hurst e companhia para casa.

Momento do gol de Jairzinho sobre a Inglaterra. (Foto: Reprodução/FIFA)

1982

A Guerra das Malvinas quase tirou os países do Reino Unido da Copa que seria disputada na Espanha. Isso porque havia o consentimento de que a participação britânica no evento seria um desrespeito aos cerca de 1.000 mortos no confronto pelo arquipélago de domínio inglês, invadido pela Argentina em abril daquele ano. Entretanto, a primeira-ministra Margaret Thatcher convenceu os envolvidos de que a presença das seleções na competição seria importante para a população e, também, para as tropas. A “Dama de Ferro”, como era chamada Thatcher, ficou marcada por tomar decisões que mudaram para sempre o futebol inglês, o que levanta muitas discussões até hoje.

Ainda assim, após 12 anos, os Três Leões estavam de volta à Copa do Mundo, no mesmo grupo de França, Tchecoslováquia e Kuwait. Naquele ano, o regulamento teve uma particularidade. Com 18 times na disputa, foram montados seis grupos com quatro equipes, onde somente duas passariam para a fase seguinte. A segunda etapa da competição montaria novos quatro grupos, dessa vez com três seleções. As primeiras colocadas fariam a semifinal.

Na estreia, uma vitória espetacular de 3 a 1 sobre a França de Michel Platini, com gols de Bryan Robson, duas vezes, e Paul Mariner. Gerard Soler fez o dos franceses. Nos dois confrontos seguintes, mais duas vitórias e nenhum gol sofrido. Primeiro, 2 a 0 sobre a Tchecoslováquia, com um gol de Trevor Francis e outro de Jozef Barmos, contra. Depois, 1 a 0 sobre o Kuwait, com mais um de Francis. Classificadíssima em primeiro lugar, foi para a segunda fase no Grupo D, com Alemanha Ocidental e Espanha. Nas duas partidas, não tomou nenhum gol, mas também não fez. Os dois empates em 0 a 0 deixou no ar uma sensação de que aquela seleção poderia ir mais longe, mas ficou pelo caminho.

Santiago Urquiaga recebe a marcação de Paul Mariner. (Foto: Reprodução/FIFA)

1986

Dezesseis anos depois de ver desfilar o Brasil de Pelé, Jairzinho, Rivelino e companhia, o México receberia sua segunda Copa do Mundo e a Inglaterra marcou presença. Sorteada no Grupo F, com Marrocos, Polônia e Portugal, surpreendeu-se com a campanha da equipe africana, que ficou em primeiro. A estreia inglesa foi contra Portugal, em jogo que terminou em 1 a 0 para os lusitanos. Na partida seguinte, empate sem gols frente aos marroquinos. Restava a Polônia e a pressão era enorme pela vitória, que veio. Com três gols de Gary Lineker, os britânicos não tomaram conhecimento da seleção polonesa e carimbou a classificação para as oitavas de final.

Lá, no dia 18 de junho, em pleno Estádio Azteca, mais um placar elástico: 3 a 0 sobre o Paraguai, com mais dois gols de Lineker e um de Beardsley. Àquela altura, parecia que o técnico Bobby Robson tinha encontrado o equilíbrio para sua equipe para a próxima etapa, nas quartas de final.

Frente a frente, duas seleções que já haviam se enfrentado anteriormente nessa fase. Argentina e Inglaterra fizeram o duelo das quartas de final em 1966, quando os ingleses foram campeões. Dessa vez, no entanto, os argentinos já eram campeões do mundo, em 1978, e tinham nada menos que Diego Maradona. E o Dios acabou com o jogo… Primeiro, um gol polêmico. Em dividida com o experiente goleiro Peter Shilton, Maradona usou a mão para compensar sua altura e empurrar a bola para as redes num lance que o próprio argentino chamou de “La Mano de Dios” (A Mão de Deus).

Mais tarde, o camisa 10 faria uma das maiores pinturas da história do futebol. Antes do meio campo, ele se livra de Peter Reid e Beardsley com facilidade e sai em disparada. Deixa Terry Butcher na saudade e vence Terry Fenwick para invadir a área. Restava Shilton, que também foi deixado no chão e viu o argentino empurrar para as redes sem goleiro. Dezesseis anos depois de Pelé, os mexicanos tiveram a felicidade de ver mais um gênio dentro de campo. Triste para os ingleses, que novamente despediram-se nas quartas de final, mesmo com o gol de Gary Lineker, que deu números finais à partida. Lineker foi, até hoje, o único jogador britânico que sagrou-se artilheiro de uma edição de Copa do Mundo, com seis gols.

La Mano de Dios. (Foto: Reprodução/FIFA)

1990     

A seleção inglesa chegou com um elenco de respeito à Copa do Mundo da Itália. Além dos já conhecidos Gary Lineker, Bryan Robson e Peter Shilton (esse, o mais velho da competição, com 40 anos e 292 dias), tinha também um jovem de nome Paul Gascoine. Na primeira fase, ficou em primeiro lugar num grupo com Irlanda, Holanda e Egito. Foram dois empates e uma vitória, justamente contra os egípcios, fiel da balança entre as quatro seleções.

A boa campanha colocou os Três Leões frente aos belgas nas oitavas de final, em partida que terminou empatada sem gols e foi para a prorrogação. David Platt foi quem deu alegria aos ingleses quando tirou o zero do placar e garantiu a classificação para as quartas de final. O adversário era o surpreendente Camarões, primeiro do Grupo B, deixando para trás Romênia, Argentina e União Soviética, além de eliminar a Colômbia de Higuita nas oitavas.

Com a bola em jogo, muita emoção. David Platt abriu o placar ainda no primeiro tempo. Depois do intervalo, Emmanuel Kundé, de pênalti, e Eugène Ekéké viraram a partida para os africanos. A menos de dez minutos do fim, Gary Lineker evitou o pior e igualou novamente o placar, o que levou a partida à prorrogação. Daí, brilhou mais uma vez a estrela de Lineker, que de pênalti fez o terceiro da Inglaterra, espantou a zebra, o fantasma das quartas de final e levou a seleção às semifinais.

No caminho, estava a rival Alemanha. Em duelo arbitrado pelo brasileiro José Roberto Wright, a rede só balançou na segunda etapa. Andreas Brehme tirou o zero do marcador e Gary Lineker mais uma vez salvou os britânicos. Sem gols na prorrogação, a partida foi para os pênaltis. Pelo lado alemão, nenhum erro. Já do lado inglês, Stuart Pearce viu Bodo Illgner defender sua bola com o pé no quarto pênalti e, no derradeiro, Chris Waddle errou a meta. Era o adeus ao sonho do bicampeonato. Antes de ir embora para a casa, a Inglaterra enfrentou a anfitriã Itália no jogo que valia o terceiro lugar. O placar final foi 2 a 1, com gols de Roberto Baggio e Salvatore Schillaci para os italianos e David Platt para os ingleses.

Stuart Pearce lamenta pênalti defendido por Bodo Illgner. (Foto: Reprodução/FIFA)

1998

Após um breve hiato, os ingleses retornariam a uma Copa do Mundo e novamente com nomes de respeito em seu elenco. Dentre eles, dois jovens chamavam bastante atenção: David Beckham e Michael Owen. Pouco experientes, ambos iniciaram a competição no banco, mas conquistaram os postos de titulares durante o torneio.

A estreia foi um tanto promissora. Vitória fácil sobre a frágil Tunísia, com um gol de Alan Shearer e outro de Paul Scholes. Porém, na segunda rodada, uma derrota que colocou em risco a continuidade dos ingleses na Copa. No revés por 2 a 1 frente à Romênia, de bom mesmo, somente o primeiro gol de Owen no campeonato, ofuscado pelo placar controverso. Restava a terceira partida da fase de grupos e o adversário era a Colômbia de Valderrama. Darren Anderton e Beckham anotaram os dois tentos da partida e carimbaram a classificação para as oitavas.

O adversário era um velho conhecido: a Argentina mais uma vez estaria no caminho dos britânicos. O camisa 10 já não era Maradona, mas Ariel Ortega sabia o que fazer com a bola também. No comando de ataque, Gabriel Batistuta cheirava a gol e provou isso com cinco minutos de jogo, ao abrir o placar de pênalti. A seleção inglesa ainda viraria o confronto com Alan Shearer, também de pênalti, e Michael Owen, mas Javier Zanetti colocaria de volta a Albiceleste no páreo. Todos os gols foram no primeiro tempo e, depois do intervalo, ninguém balançou a rede. A situação repetiu-se na prorrogação e o jogo foi para as penalidades. A Argentina converteu quatro das cinco cobranças (apenas Hernán Crespo errou), mas os britânicos erraram duas vezes, com Paul Ince e David Batty. Pela segunda vez consecutiva, a despedida veio depois dos pênaltis.

Jose Chamot tenta parar o jovem Michael Owen. (Foto: Reprodução/FIFA)

2002

Na primeira edição de Copa do Mundo no continente asiático e com dois países-sedes, a Inglaterra caiu logo no grupo da morte, com Argentina, Suécia e Nigéria. Porém, justamente contra os argentinos, que foram uma das maiores decepções daquele ano, conquistou sua única vitória na primeira fase e, após dois empates frente aos suecos e aos nigerianos, passou em segundo lugar para as oitavas.

Tudo o que não tinham feito até então, fizeram frente à Dinamarca. O placar de 3 a 0 com gols de Rio Ferdinand, Owen e Emile Heskey mostrou a força do elenco inglês e deu um ânimo aos torcedores. Chegada as quartas de final, a rival era seleção brasileira comandada por Felipão. No estádio de Shizuoka, no Japão, os ingleses saíram na frente após Michael Owen aproveitar-se da falha de Lúcio e tirar com tranquilidade de Marcos.

Tudo parecia correr bem, mas Ronaldinho Gaúcho resolveu mudar o rumo do duelo. Primeiro, ao dar assistência para Rivaldo empatar a partida após bela jogada. Depois, já no segundo tempo, após acertar uma bola inacreditável no ângulo de David Seaman, em cobrança de falta originada na lateral direita do campo. De forma inesperada e dramática, os ingleses pararam mais uma vez nas quartas.

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Ronaldinho pedala para cima de Ashley Cole em jogada que resultou no gol de empate do Brasil. (Foto: Ricardo Correa/Veja)

2006

O Grupo B não assustava a equipe que chegou com banca de uma das favoritas. Um forte e experiente elenco ganhava ainda mais força com os jovens e promissores Wayne Rooney, Steve Gerrard e Frank Lampard, convocados para a primeira Copa do Mundo deles. A estreia foi contra o Paraguai, no 1 a 0 que registrou o gol contra mais rápido da história da competição, marcado pelo paraguaio Gamarra, aos 3 minutos de jogo. A segunda rodada foi contra a inexpressiva Trinidad e Tobago, e os gols de Peter Crouch e Gerrard selaram o 2 a 0 e a classificação adiantada. Contra a Suécia, o empate em 2 a 2 não afetou em nada a campanha britânica.

As oitavas de final trouxeram um adversário um tanto desconhecido. Em sua primeira participação, o Equador conseguiu passar da primeira fase em segundo lugar no Grupo A, deixando Polônia e Costa Rica de fora. O 1 a 0 com gol de David Beckham na segunda etapa foi mais que suficiente para assegurar a passagem às quartas.

O azar dos ingleses foi ter pela frente, pela segunda vez na história, uma seleção portuguesa forte e empolgada com a campanha que fazia. Dois anos antes, pela Eurocopa, as duas nações fizeram um confronto emocionante decidido nas penalidades com vitória dos lusitanos. Pela Copa do Mundo, a partida disputada em Gelsenkirchen para um público de 52 mil pessoas viu um empate sem gols no tempo normal e a expulsão de Wayne Rooney. Nos pênaltis, prevaleceu a brilhante atuação do guarda-redes Ricardo. O português defendeu as cobranças de Lampard, Gerrard e Carragher. Para bater o quinto e decisivo pênalti, um gajo de 21 anos com a camisa 17: Cristiano Ronaldo. Com tranquilidade, ele converteu e eliminou os Três Leões.

Horacio Elizondo, da Argentina, expulsa Wayne Rooney na partida contra Portugal. (Foto: Reprodução/FIFA)

2010

O continente africano recebia pela primeira vez as 32 melhores seleções do mundo para uma disputa de Copa do Mundo. A Inglaterra ficou no Grupo C, junto de Estados Unidos, Eslovênia e Argélia. Sem empolgar, os britânicos ficaram em segundo lugar. A estreia foi contra os americanos e terminou 1 a 1, com gols de Gerrard e Clint Dempsey. Na rodada seguinte, novo empate – dessa vez sem gols e frente aos argelinos. Precisando da vitória, os ingleses partiram para cima dos eslovacos e venceram por 1 a 0, gol de Jermain Defoe.

As oitavas de final guardavam a maior ironia que o esporte poderia trazer ao futebol da Terra da Rainha. Uma forte seleção alemã, candidata ao título, colocava-se no caminho frente a todo o histórico entre as duas nações na competição. Os então tricampeões mundiais logo abriram dois gols de vantagem, com Miroslav Klose e Lukas Podolski. Porém, Matthew Upson não demorou para descontar a vantagem e colocar pilha na partida. Então, aos 38 minutos, acontece o imponderável. Frank Lampard aproveita uma bola que sobrou na entrada da área e tenta encobrir Manuel Neuer. A finalização acerta o travessão, toca o solo a mais de 30 cm dentro da meta e retorna para as mãos de Neuer. O uruguaio Larrionda Pietrafesa parece ter sido o único ser humano no estádio a não ver o gol. O que se viu na sequência foi muita reclamação por parte dos ingleses e uma vaia constrangedora vindo das arquibancadas.

Thomas Müller fez mais dois gols e decretou uma goleada de 4 a 1 frente aos rivais. O gol mal anulado de Lampard daria outra história ao confronto. Mas, 44 anos depois de conquistar seu único título mundial, os Três Leões se viram do outro lado da história e amargaram mais uma eliminação. Na edição seguinte, a FIFA instaurou o uso da tecnologia da linha de gol.

Bola dentro do gol alemão em jogada não validada pelo árbitro. (Foto: Reprodução/bbc.co.uk)

2014

De volta ao cenário onde estrou em Copas do Mundo, os ingleses fizeram sua pior campanha na história da competição. Dentro do grupo, os adversários mais perigosos pareciam ser Uruguai e Itália. Afinal, o quarto elemento era a modesta Costa Rica.

O que se viu na “Copa das Copas” certamente não era o mais cotado nas casas de apostas. A começar pela Inglaterra, que perdeu os duelos chaves para Itália – gols de Marchisio e Balotelli para os italianos; Sturridge descontou – e o Uruguai – gols de Suárez para os sul-americanos; Rooney fez seu primeiro e único gol em todos os jogos que disputou no torneio.

Os Três Leões chegaram à última rodada já sem chances de se classificar e não saíram do zero contra a Costa Rica. A seleção centro-americana, por sua vez, já havia batido o Uruguai por 3 a 1 e a Itália por 2 a 0. O empate bastou para um primeiro lugar histórico. Do lado inglês, restou fazer as malas de volta para Londres.

A caneta de Cristian Gamboa em Luke Shaw resume as campanhas de Costa Rica e Inglaterra em 2014. (Foto: Reprodução/FIFA)
Guilherme Guidetti

Sobre Guilherme Guidetti

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Guilherme Guidetti, paulista, nascido em São Caetano do Sul no dia 17 de fevereiro de 1994, mas residente de Santo André desde os primeiros dias de vida. A paixão por futebol vem da família, enquanto o gosto por escrever foi herdado do pai, caminhoneiro. Habilidoso com a canhota – exclusivamente segura a caneta na mão –, realiza diariamente o sonho de ficar perto do esporte através do jornalismo. De apresentador de programa de rádio a assessor de imprensa, sua ainda curta carreira na profissão já foi o suficiente para saber que faz aquilo que mais ama – e o faz com a mesma paixão com que joga bola com os amigos.

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Guilherme Guidetti, paulista, nascido em São Caetano do Sul no dia 17 de fevereiro de 1994, mas residente de Santo André desde os primeiros dias de vida. A paixão por futebol vem da família, enquanto o gosto por escrever foi herdado do pai, caminhoneiro. Habilidoso com a canhota – exclusivamente segura a caneta na mão –, realiza diariamente o sonho de ficar perto do esporte através do jornalismo. De apresentador de programa de rádio a assessor de imprensa, sua ainda curta carreira na profissão já foi o suficiente para saber que faz aquilo que mais ama – e o faz com a mesma paixão com que joga bola com os amigos.

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