Passaporte Rússia – Drone, política e confusão: o jogo do caos em Belgrado

- Confronto válido pelas Eliminatórias da Eurocopa-2016, Sérvia x Albânia ficou marcado por polêmicas que vão além do futebol

Passaporte Rússia é mais uma coluna do Futebol na Veia que apresentará curiosidades de todas as seleções que participarão da Copa do Mundo deste ano. Este é o quarto de sete textos sobre a Seleção Sérvia, que contará sobre um jogo para lá de turbulento.

Falar em confusão envolvendo o futebol sérvio não é surpresa para ninguém. Não é à toa que o clássico entre Partizan e Estrela Vermelha, as duas equipes mais tradicionais e vencedoras do país, é presença unânime em listas que apontam as rivalidades mais violentas do planeta bola. Contudo, os nervos acirrados não se limitam apenas a jogos envolvendo as duas equipes.

Deixado para trás o passado iugoslavo e sérvio-montenegrino, a história independente da Sérvia no futebol teve início em agosto de 2006. Entretanto, apesar de uma trajetória futebolística relativamente curta, polêmicas e conflitos já fazem parte do histórico da seleção, como o famoso duelo contra a Albânia em 2014.

O drone da discórdia

Na capital sérvia, Belgrado, o selecionado local enfrentava a Albânia em partida válida pelas Eliminatórias da Eurocopa 2016. O confronto entre as seleções não ocorria em terras sérvias desde 1967 e o que marcou o fim do hiato de 47 anos não foi a bola rolando.

Para início de conversa, a peleja entre as duas seleções teve torcida única. A medida de segurança foi tomada por conta da rivalidade secular existente entre as duas nações (a qual falaremos um pouco mais adiante). Entretanto, a ausência de albaneses nas arquibancadas do estádio não foi o suficiente para que sua presença não se fizesse notada.

Próximo ao final do primeiro tempo, um drone que sobrevoava o campo trazia consigo uma bandeira da Albânia com a palavra Autochthonous (algo como ‘nativos'). O objeto voador foi pego pelo atacante sérvio Aleksander Mitrovic e causou a revolta dos jogadores adversários. Aos 42 minutos, uma confusão generalizada entre os atletas e membros das comissões técnicas estava formada. E não demorou para que torcedores também se envolvessem na briga.

O momento em que Mitrovic captura a bandeira albanesa. (Reprodução/Andrej Isakovic/AFP)

Mais do que só uma bandeira

O drone não trazia consigo uma bandeira qualquer. De acordo com os albaneses, o território sobrevoado pertence ao seu povo. Para ser mais específico, um território parte do Reino da Albânia que também envolve Kosovo (nação formada por uma população 92% albanesa e cuja independência jamais foi ‘engolida' pela Sérvia) e pedaços da Macedônia.

Vale ressaltar o quão intensa é a rivalidade entre os dois países ao voltarmos um pouco na história. As primeiras tensões entre ambos são datadas do século XIX. Na época, a motivação para o clima hostil crescer foi a expansão do território sérvio. Por consequência, diversos muçulmanos foram obrigados a deixar suas terras. E de lá para cá, a relação turbulenta somente cresceu. Nos anos de 1998 e 1999 foram registradas mais de 10 mil mortes em um conflito entre a Sérvia e albaneses de Kosovo, o que exemplifica o ódio envolvendo as nações.

A pequena aeronave foi o estopim para a política se sobressair ao futebol. Na época, o até então presidente da FIFA, Joseph Blatter, declarou que “o futebol não deve ser usado para a transmissão de mensagens políticas”. E o mandatário alegou “condenar fortemente” o ocorrido em Belgrado.

Torcedor sérvio jogando banco em jogador albanês durante confusão no estádio – (Reprodução/Reuters)

Jogo suspenso e festa nas ruas

Por consequência da briga ocorrida dentro de campo, o jogo foi suspenso. A Federação Sérvia utilizou suas redes sociais para afirmar que foi feito um contato com a Uefa no qual foi acordado que a partida seguiria. Entretanto, a Albânia se negou a seguir com a partida que estava 0 x 0 quando foi interrompida.

Dez dias após o duelo, a Uefa puniu as duas seleções com uma multa de € 100 mil (hoje, R$ 440 mil). Além disso, a Sérvia foi declarada a vitoriosa do confronto, porém foi punida com a perda dos três pontos conquistados.

Mesmo com a derrota e a multa para a federação, o clima na Albânia era de missão cumprida. Milhares de albaneses tomaram conta das ruas da capital, Tirana, para festejar. E mais do que isso, todos os jogadores que se envolveram na briga no Estádio Partizana foram recebidos como heróis nacionais. O primeiro-ministro do país, Eli Rama, declarou na época que estava “orgulhoso” dos albaneses.

Albaneses saíram para festejar nas ruas do país após a confusão ocorrida em Belgrado (Reprodução/Stringer/Associated Press)

E para aumentar o orgulho na Albânia – desta vez, dentro de campo -, ao final das Eliminatórias a seleção fez uma campanha surpreendente e muito superior a da Sérvia. Os albaneses conquistaram a vaga para a Eurocopa com a segunda posição do grupo I. Com 14 pontos conquistados a seleção ficou atrás somente de Portugal, que somou 21. O destaque foi a superioridade sobre a Dinamarca, favorita para a segunda vaga da chave, mas que fez somente 12 pontos e amargou a terceira colocação. Já a Sérvia fez uma campanha vexatória e foi a quarta colocada com apenas quatro pontos, dois a mais que a lanterna Armênia.

Bruno Piai

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